Por Marry Ferreira / Imagem: @pixabay

Imigrar significa viver em universo que se divide entre múltiplos países de forma não linear. É como as fronteiras de Baarle-Nassau e Baarle-Hertog, duas cidades na Holanda que dividem fronteiras que não são uma reta, nem mesmo uma curva, que são marcadas com cruzes brancas na calçada e tachas de metal na estrada, seguindo em “ziguezague” pela cidade sem dar atenção às casas, jardins e ruas. No meio da rua você pode simplesmente se dar conta que começou em um lugar e terminou em outro. Você pode ter ido a um restaurante em Baarle-Nassau, mas ter sua cadeira e mesa em Baarle-Hertog. Seu prédio pode pertencer a um território, mas seu jardim está em outro. Na minha experiência, assim é imigrar como uma pessoa negra.

Essa falta de marcação territorial acontece quando vemos que nossa luta, enquanto pessoas negras, é global. O sistema que tenta nos matar na Colômbia e no Brasil é o mesmo, o que muda são as estratégias. Tornamos-nos ainda mais diaspóricas, como diz Lélia Gonzalez, sentindo e vendo as similaridades das histórias de resistência e luta do nosso povo.

Em um cenário onde essa guerra não dá trégua, a gente tenta recuperar o fôlego enquanto continua na luta diária contra as violações perpetuadas pelo Estado desde a escravidão e processos de colonização. Enquanto ainda estamos no luto por conta do assassinato de Breonna Taylor e George Floyd, vamos para as ruas denunciar a violência contra crianças negras como com Miguel Otávio, Emily e Rebeca. Ao mesmo tempo que nos mobilizamos pelos 1000 dias sem justiça por Marielle Franco, nos juntamos as irmãs do Equador na luta contra os altos casos de feminicídio e com as da Colômbia na denúncia contra o assassinato de ativistas locais. 2020 tem sido o ano onde racismo é escancarado a condição pré-existente mais grave nos Estados Unidos, e onde o Brasil se tornar o país com maior número de casos da América Latina. Tudo isso no mesmo ano das queimadas na Amazônia, de crianças imigrantes serem separadas de seus pais/mães na fronteira dos EUA, de imigrantes negres ficarem presos na borda do Panamá, de líderes Garífunas serem sequestrados por grupos armados em Honduras. Aqui ou lá, em qualquer momento, a gente pode perder, ou já estamos perdendo alguém.

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Nós simplesmente não conseguimos respirar

A luta pela libertação é longa. 2020 tem confirmado como que nós, pessoas negras do mundo, vivemos diferentes pandemias históricas. Mas também tem sido o ano que reafirmou para todo o mundo aquilo que nossas ancestrais já nos mostraram: é na construção coletiva que a esperança se mantém. São as mulheres negras que nos direcionam para novas perspectivas de futuro e que criam pontes para enfrentar essa guerra com estratégias transnacionais. Foram elas que mudaram o cenário das políticas municipais para os próximos quatro anos no Brasil. São as mulheres negras que, 2014, marcharam mais de 600 km para acabar com a mineração ilegal controlada por grupos armados e a violência em seus territórios.

É a sabedoria das mulheres diaspóricas que nos trazem a memória que somos um povo que resiste há séculos, que lutou e luta contra a escravização dos nossos corpos e que neste processo construímos alternativas de sociedade e resistência. Que criamos e ressignificamos. Que mesmo em tempos difíceis, como diz Conceição, criamos novos quilombos em qualquer lugar que estejamos, “porque a mística quilombola persiste afirmando: a liberdade é uma luta constante”.

Pensando nas palavras de Conceição Evaristo, o aquilombamento enquanto imigrante também é uma experiência concreta, que se forma na prática e na resistência, nas experiências compartilhadas que imaginam outras formas de futuro e que constroem coletivamente. Aquilombar-se no exterior significa estabelecer construir espaço coletivos de afeto, de acolhimento, de escuta. Significa encontrar novos sentidos coletivos, que fortalecem, mantém a memória e promovem organização. Significa criar nossos próprios Quilombos.

Se na comunidade brasileira no exterior existe um dito de que “em brasileiro não se confia”, este não me parece servir para as mulheres negras brasileiras que conheci até aqui. Nós, pessoas negras, sabemos que é nas articulações que as estrelas apontam novas direções. Só tenho a agradecer a Conceição Evaristo por colocar em palavras essa profundidade que é esse chamado e reconexão com nossa ancestralidade, que é aquilombar. Se eu já sabia a potencia de criar nossos próprios Quilombos antes, enquanto imigrante eu vejo ainda mais a magia do que isso significa. Aquilombar nos permite transitar e ultrapassar fronteiras, nos possibilita sermos diaspóricas, criar redes, estreitar lutas.  É na articulação com minhas irmãs da Jamaica, Haiti, Panamá, República Dominicana e Colômbia, que eu sei que, aqui ou lá, existem muites de nós construindo um presente e um futuro de liberdade.