Cláudia foi vítima de uma bala perdida enquanto comprava pão para os filhos, e teve o corpo arrastado por uma viatura; o advogado da família dá atualizações sobre o processo

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução/Ana Votai

Nesta quarta-feira (16), completam-se oito anos do assassinato de Cláudia Silva Ferreira, aos 38 anos, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Conhecida como Cacau, era moradora do Morro da Congonha, na zona norte do Rio de Janeiro e trabalhava como auxiliar de serviços em um hospital.

Cláudia completaria 20 anos de casada em setembro de 2014, com o companheiro com quem teve quatro filhos. E foi justamente para comprar comida para os filhos que saiu naquela manhã, e se tornou mais uma vítima atingida durante uma operação policial.

Três policiais, alegando que levariam Cláudia para um hospital, a colocaram no porta-malas da viatura. Um cinegrafista anônimo que seguiu a viatura, registrou o momento em que o corpo de Cláudia caiu para fora do porta-malas e foi arrastado por 350 metros, preso ao carro apenas pela roupa. O vídeo divulgado pela imprensa teve grande repercussão no Brasil e também internacionalmente, gerando protestos pedindo por justiça.

O processo e a impunidade

Em maio, seis policiais envolvidos no caso foram indiciados por crimes incluindo homicídio doloso e fraude processual. No entanto, em julho do mesmo ano, 2014, já estavam de volta às ruas. E, em outubro, se livraram de ter que enfrentar a Justiça Comum.

Durante sete anos de processo, apenas uma audiência sobre o caso foi realizada, em 2019. Em 2020, nenhum dos policiais acusados do homicídio e da remoção do cadáver de Claudia havia sido julgado ou punido pela corporação. Que não abriu sequer um processo administrativo para avaliar se os policiais tinham condição de permanecer na corporação.

Dois dos PMs que integravam a patrulha até se aposentaram depois do homicídio. Os outros quatro agentes continuaram trabalhando nas ruas da Região Metropolitana do Rio, sem qualquer restrição de atuação, desde a patrulha de ruas, até a participação em operações. O capitão Rodrigo Medeiros Boaventura chegou a ser nomeado superintendente de Combate aos Crimes Ambientais. Decisão da qual a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seis) voltou atrás em novembro de 2020.

Além do capitão Boaventura, respondem pela morte de Claudia, os policiais Zaqueu de Jesus Pereira Bueno, Adir Serrano, Rodney Archanjo, Alex Sandro da Silva e Gustavo Ribeiro Meirelles. Procurado pela Afirmativa, o escritório do advogado João Tancredo, que representa parte da família de Cláudia [atuando na área civil, e não na criminal] informou as atualizações do processo, oito anos depois.

– O marido, a mãe e os filhos de Cláudia fizeram acordo com o Estado. A mãe já faleceu. Esse acordo não foi intermediado pelo escritório, mas pela Defensoria Pública;

– O escritório defendeu os 3 irmãos de Cláudia;

– Na ação da irmã Lucia Helena (em conjunto com os filhos dela, ou seja, sobrinhos da Cláudia), a Justiça fixou indenização de R$ 40 mil para ela, Lucia Helena. Valor que já está sendo executado. O pedido para os filhos foi julgado improcedente;

– Na ação movida pelos outros dois irmãos de Cláudia, Jussara e Júlio Cesar, a decisão é mais recente e a Justiça determinou o valor de R$ 50 mil pra cada um. O escritório acabou de entrar com recurso para tentar majorar esse valor.

– Complementando: o recurso de Jussara e Júlio Cesar pede que a indenização seja de 500 salários mínimos para cada um.

“A sensação que fica é de que não tem justiça no país. Porque até então os ‘polícia’ tão livres, vivendo como se nada tivesse acontecido. É um fato que pela justiça ficou esquecido”

Mas, para Jussara, de 47 anos, que hoje trabalha como costureira, o dinheiro não significa nada perto do que seria ter a irmã ainda presente na vida da família. “A gente vai receber um dinheiro, mas foi através de uma tragédia. Eu preferia que ela estivesse aqui do que eu receber um dinheiro por causa da morte dela”, declara.

Depois de oito anos, a sensação que fica para Jussara é de impunidade e silenciamento. Sentimento que compartilha com o irmão, o pedreiro Júlio César, de 49 anos. “A sensação que fica é de que não tem justiça no país. Porque até então os ‘polícia’ tão livres, vivendo como se nada tivesse acontecido. É um fato que pela justiça ficou esquecido”.

A família de Cláudia

Acompanhando como pode os quatro filhos e quatro sobrinhos criados pela irmã, Jussara conta que se Cacau ainda estivesse aqui, as coisas seriam diferentes. Taís e Everton, os mais velhos, hoje estão casados, conta. Já os mais novos, um casal de gêmeos, ainda sofrem muito com a ausência da mãe.

“Os mais novos sentem muito ainda, ficam muito tristes, ela era muito presente na vida deles. Vira e mexe eles choram, não tem mais aquela alegria”, acrescenta. “Eles continuam estudando, o Everton arrumou esposa, Taís casou, vai ter uma filha agora, tão levando a vida. Se minha irmã estivesse aqui, eles continuariam estudando e trabalhando. Ela dizia que tinham que trabalhar, ter o dinheiro deles, e não depender de ninguém”.

Já Júlio ressalta, que apesar da dificuldade nos primeiros anos principalmente para os mais novos, hoje entendem melhor o que aconteceu, e não aceitam a impunidade que acompanha o crime contra a mãe deles. O irmão mais velho de Cláudia acrescenta ainda que eles continuam morando em comunidade, cenário de constantes ações policiais. “Estamos entregues à sorte, porque de uma hora pra outra podem fazer uma covardia com qualquer um, porque sabem que tem impunidade”.

“A gente conversava com ela ‘mãe, a justiça é assim mesmo’, isso deixou ela mais triste ainda, minha mãe morreu de tristeza. E antes disso ela falou pra mim ‘minha filha, deixa isso pra lá porque não vai trazer a Cacau de volta, e os policiais são muito ruins, vão fazer maldade com vocês’”.

A mãe de Cláudia, Dona Sebastiana, faleceu em agosto de 2020. E Jussara não tem dúvidas de que a morte de Cláudia contribuiu para isso. Antes do crime, Sebastiana passou seis meses internada, e semanas antes do assassinato da irmã, organizavam um revezamento para cuidar da mãe quando saísse do hospital.

“Minha mãe era muito agarrada com todo mundo, sempre a casa cheia. Todo mundo sempre presente, porque morava perto, da casa dela ela gritava a Cacau”, conta emocionada. E receosa pela saúde da mãe, Jussara deu a notícia antes que ela descobrisse o acontecido pela televisão. “Ali foi o começo do fim da minha mãe. Eu vi minha mãe se acabando aos poucos, a alegria foi acabando. Ela perdeu a graça da vida, não botava pra fora, não falava, eu não vi minha mãe chorando, ela chorava escondido”, relata.

A costureira lembra que toda vez que tinha notícias do crime e sabia que os policiais responsáveis estavam soltos, a mãe se desanimava e questionava se não iriam pagar. “A gente conversava com ela ‘mãe, a justiça é assim mesmo’, isso deixou ela mais triste ainda, minha mãe morreu de tristeza. E antes disso ela falou pra mim ‘minha filha, deixa isso pra lá porque não vai trazer a Cacau de volta, e os policiais são muito ruins, vão fazer maldade com vocês’”.

Se não fosse ela ter sido arrastada pelo carro da polícia, ela ia ser só mais uma envolvida com tráfico, e foi isso que eles falaram. O delegado falou ‘vocês têm que correr atrás agora e provar que ela não é’

“O Estado tirou um pedaço de cada um de nós”

A lembrança que prevalece, apesar de tudo, é a da Cacau brincalhona, que gostava de reunir a família, organizar encontros e aniversários. Como o aniversário do próprio Júlio, que se aproximava, em abril, e cujos preparativos Cláudia já estava organizando.

Mas não é fácil viver com as memórias do lugar onde ela teve sua vida ceifada. “Até agora a justiça e o Estado ainda não indenizou a família como deveria, porque o Estado tirou um pedaço de cada um de nós, era nosso sangue, minha irmã caçula, muito agarrada comigo, e aquilo ali acabou com tudo”. Já Jussara, chegou a tirar o filho da creche, porque não aguentava ouvir os constantes tiroteios na favela, durante o caminho.

“A justiça só vem para nós pobres e favelados. Se uma pessoa falar que a gente pegou uma bala no mercado, se a gente esbarrar em uma madame e a bolsa dela cai, a gente é preso, espancado”

“Sobre os policiais eu não posso falar nada porque não adianta, não depende da gente, se dependesse, iam apodrecer na cadeia. Mas nossa justiça é falha. Se não fosse ela ter sido arrastada pelo carro da polícia, ela ia ser só mais uma envolvida com tráfico, e foi isso que eles falaram. O delegado falou ‘vocês têm que correr atrás agora e provar que ela não é’. Ele mudou depois que viu o que fizeram com ela”, pontua.

Assim como Jussara, Júlio também acredita que os filhos de Cláudia teriam outra vida se a mãe estivesse aqui, a quem descreve como uma leoa quando o assunto era cuidar deles. Sempre incentivando nos estudos e ensinando a cuidarem uns dos outros.

“A justiça só vem para nós pobres e favelados. Se uma pessoa falar que a gente pegou uma bala no mercado, se a gente esbarrar em uma madame e a bolsa dela cai, a gente é preso, espancado. E quando isso acontece com um ladrão de farda, por mais que ele seja pego na hora da covardia, eles ficam impunes. Mas se fosse eu acusado de matar uma pessoa, talvez nem tivesse tido julgamento ainda, mas estaria preso”, completa Júlio.

Violência policial contra mulheres negras

No decorrer desses oito anos, a violência policial contra mulheres negras tem se tornado mais recorrente nos noticiários. Com alguns casos emblemáticos, como Luana Barbosa, morta em 2016, aos 34 anos, por lesões cerebrais provocadas por três policiais militares que a espancaram na esquina de sua casa, em Ribeirão Preto (SP).

Em 2020, teve grande repercussão um vídeo que mostra dois policiais militares imobilizando uma mulher negra pisando em seu pescoço. Em setembro do ano passado, repercutiu também o vídeo de um policial militar agredindo uma mulher negra com socos e joelhadas em Guarapari, no Espírito Santo, dando ainda um tapa no seu rosto, mesmo já estando no chão e imobilizada. Já em novembro do ano passado, câmeras de segurança registraram a abordagem violenta de dois policiais contra uma mulher negra, que estava com seu filho no colo, em Itabira (MG).