A família e a comunidade foram as principais estratégias de sobrevivência dos africanos escravizados na diáspora. Ainda hoje, a cosmovisão africana e a noção de “família extensa” prevalece entre as periferias e comunidades urbanas e rurais desse Brasil a fora. Lá no município de Cachoeiras de Macacu, interior do Rio de Janeiro, gerações continuadas de uma família negra matriarcal vivem o sentido mais literal da responsabilidade política em ser um núcleo de resistência.

A história é contada no curta metragem “Vovó Leontina”, um filme que fala sobre a relação que a matriarca Leontina, de 95 anos, estabeleceu com suas filhas e netas, e a relação desta família com a consciência política negra em Cachoeira de Macacu. Dona Leontina trabalhou a vida inteira como lavradora em fazendas de café e milho, em condições análogas a escravidão, tão recentemente abolida oficialmente. A partir destas vivências, o documentário retrata uma história comum aos negros no início do século XX.

As memórias de qualquer senhora tão idosa, marcadas por uma vida de resistências, por si só já dariam um filme, mas este caso é especial. A família de D. Leontina, há 35 anos, coordena o Grucon (Grupo de União e Consciência Negra), organização que trabalha com a temática racial, promoção dos direitos humanos, democracia e educação no município.

O Grucon nasceu em 1982, com o apoio de uma vertente libertária da Igreja Católica, e está, na medida do possível, presente e atuante no Estado do Rio de Janeiro e em outras localidades. Dona Penha e Celeida (filha e neta de Leontina) coordenam o grupo em Cachoeiras de Macacu. A família mantém as atividades, sem apoio financeiro, há mais de 30 anos. Não há uma sede própria, as atividades funcionam em um grande espaço no terraço da casa da matriarca da família.

O documentário “Vovó Leontina”, dirigido por Paulo Rosa e produzido por Luana Dias, é, sobretudo, um relato da capacidade e responsabilidade matrifocal. Um fragmento de uma história familiar particular e universal. Um pedaço de memória da realidade das famílias negras nas primeiras décadas pós-abolição.

A convite do parlamento brasileiro, o filme foi exibido na audiência pública “Lei Áurea, Trabalho Escravo e Terceirização”, no último dia 14 de maio, em Brasília. A convite do Centro Brasil Cultural (CEBRAC), o filme será lançado internacionalmente, junto com o livro Vovô Zequinha, escrito pela neta Celeida Rocha, em Zurich, na Suíça, em junho deste ano. O lançamento oficial acontecerá no VIII Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe Zózimo Bulbul, no dia 31 de maio, às 14:30, no Cinema Odeon, na Ceilândia, Centro do Rio de Janeiro. O evento marcará a reabertura do tradicional Cinema Odeon, fundado em 1926, e fechado desde junho do ano passado.

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