Caso acontece dois anos depois da morte do norte-americano George Floyd; movimento negro local se organiza para cobrar justiça

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução Redes Sociais

Dois anos depois da morte do norte-americano George Floyd, que foi sufocado por um policial branco, Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, teve o mesmo destino nesta quarta-feira (25). O caso ocorreu após mais uma abordagem truculenta de policiais rodoviários federais, quando pilotava uma motocicleta em Ubaúba, no litoral sul de Sergipe.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram Genivaldo sendo preso por dois policiais dentro de uma espécie de “câmara de gás” montada no porta-malas da viatura da PRF. O sobrinho da vítima, Wallyson de Jesus, presenciou a situação e informou que o tio tinha um transtorno mental. “Eles pediram para que ele levantasse as mãos e encontraram no bolso dele cartelas de medicamentos. Meu tio ficou nervoso e perguntou o que tinha feito. Eu pedi que ele se acalmasse e que me ouvisse”, relatou Wallyson ao G1.

Apesar da tentativa de diálogo, os policiais fizeram o uso de spray de pimenta. Genivaldo foi primeiro rendido no chão por dois policiais, sob a mira da arma de um terceiro, e em seguida levado ao porta-malas.

Apenas a certeza da impunidade justifica o comportamento dos agentes, que não se intimidam em prosseguir com a sessão de tortura, mesmo com os civis em volta, e sendo filmados. Quando o porta-malas finalmente foi aberto de novo, o homem já não se mexe mais. Wallyson relatou ainda que, uma vez desacordado, seu tio foi levado para o hospital, mas já era tarde.

Mobilização por Justiça

Para Wanessa Fortes, integrante do Movimento Negro Unificado (MNU), o que aconteceu foi um caso de extermínio pela mão da PRF. “A forma como os agentes da segurança pública se sentem confortáveis para nos exterminar é revoltante. Isso me remete ao que meus ancestrais sofreram quando foram escravizados. Isso é uma prática recorrente desde que invadiram a África e nos trouxeram para a diáspora”, lamenta.

A ativista informa que o movimento negro unificado está produzindo uma nota, e também já está em contato com outras organizações negras para, juntos, cobrar por justiça e exigir que os policiais envolvidos sejam penalizados.

“Acho que não se trata mais de despreparo, mas, sim, de ódio e total consciência do que estão fazendo. Continuaremos atuando forte e coletivamente para que isso acabe de uma vez por todas”, finaliza.

Em 2020, o Fórum de Entidades Negras lançou a campanha “Negros e Negras pela Vida: Campanha Sergipana Contra a Violência Policial e o Genocídio da Juventude Negra”. De acordo com o Anuário da Segurança Pública, divulgado em julho do ano passado, Sergipe é o quarto estado em proporção de mortes decorrentes de intervenções policiais (19,9%).

“A atuação violenta e criminosa das forças de segurança do estado de Sergipe é tão grande que mesmo sendo um dos menores estados do Brasil, figura como o segundo lugar em letalidade policial”, afirma Clarissa Miranda, também integrante da auto-organização. Clarissa acredita que o argumento de que os policiais estão cumprindo seu dever e agindo em legítima defesa, não se justifica, considerando que Genivaldo estava desarmado, diferente dos policiais.

“O que justificaria o assassinato de um homem negro, neurodivergente em uma câmara de gás improvisada se não o ódio à população negra e aval social e institucional que as forças de segurança tem para prender e matar corpos negros?”, questiona.

A família de Genivaldo registrou um Boletim de Ocorrência na delegacia da cidade, e alguns depoimentos já foram prestados por familiares e testemunhas.

O que diz a PRF

Mesmo com os registros da ação da PRF em vídeo, a corporação afirmou em nota que o homem teria “resistido ativamente” à abordagem. E os agentes, então, teriam utilizado “técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo” para conter a agressividade da vítima, que passou mal no caminho para a delegacia. Informaram ainda que a equipe registrou a ocorrência na Polícia Judiciária, que irá apurar o caso, e que “foi aberto procedimento disciplinar para averiguar a conduta dos policiais envolvidos”.