A luta pela Defesa das Vidas Negras e pela construção de uma Sociedade de Bem Viver é a tônica principal deste ano

Por Patrícia Rosa / Com contribuição de Mariana Gomes

No ano de 1992, no mês de julho, mulheres negras de diferentes países se reuniam no 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, em Santo Domingo, na República Dominicana.  No Brasil, 22 anos depois, a data também foi estabelecida pela Lei nº 12.987/2014 como Dia Nacional de Tereza de Benguela, que é uma heroína negra, símbolo de resistência e representatividade no país. Deste então, a data ficou marcada pela luta e resistência das pautas das mulheres negras, que ultrapassam gerações.

Daniele Teotônio, integrante da Rede de Mulheres Negras do Ceará, fala da importância da data. “É um dia histórico, de resgatar memórias e de dar voz às mulheres negras. O silenciamento e a deslegitimação de discurso são duas coisas que mais me atravessam, a partir do momento que estamos nos holofotes e somos as protagonistas é um reafirmar esse corpo, essa pele, essa presença e a existência”.

Rede de Mulheres Negras do Ceará em Julho de 2019

O Julho das Pretas nasceu com forma de construir um mês de incidência política pela luta das mulheres negras, que vai além da comemoração do “25 de Julho”. A agenda conjunta chegou em sua 8ª edição, pela primeira vez com atividades exclusivamente online, resistindo aos impedimentos de circulação da pandemia do COVID-19.  Construindo com força e resistência uma extensa agenda, este ano o tema é “Em defesa das vidas negras, pelo bem viver”.

Valdecir Nascimento, coordenadora-executiva do Instituto Odara avalia a importância desta edição. “No contexto do Covid-19, o julho tem o papel de reafirmar que nós vamos construir estratégias sempre para nos mantermos em marcha, dialogando, denunciando e incidindo politicamente em defesa das vidas negras e pelo Bem Viver. Ela também reafirma a consolidação de uma incidência política organizada, articulada entre as mulheres negras do Brasil” diz Nascimento. O Odara é a organização que idealizou o Julho das Pretas e convidou outras organizações de mulheres negras da Bahia e da Região Nordeste para a construção coletiva, em 2013.

A agenda conjunta deste ano conta com 257 atividades propostas por organizações de mulheres negras de toda Região Nordeste, e estados como Pará, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, e se estende até o dia 18 de agosto. O necessário e novo formato online abriu fronteiras para o alcance de mulheres negras em outros lugares do mundo, é o que comenta Valdecir Nascimento: “Este ano nós estamos avançando para fortalecer e ampliar essa articulação das mulheres negras em toda América Latina e Caribe e Estados Unidos. A possibilidade fazer toda uma marcha virtual derrubou algumas fronteiras, que não são tão fáceis de ser alcançadas no formato presencial, assim, buscamos ainda mais ferramentas e instrumentos para uma perspectiva para incidir internacionalmente, atravessando fronteiras e denunciando as formas de tratamento e mortes que tem ocorrido, como resultado da covid-19 e das outras tantas opressões e desigualdades que as mulheres negras vem vivendo”.

3ª marcha das mulheres negras no dia 25 de Julho de 2019, em Salvador

Em Sergipe há cerca de 40 atividades inscritas na agenda coletiva. Uma das organizações participantes em ação na programação é a Periferia Ambulante, uma coletiva que tem a arte como o canal viabilizador. Composta por de ativistas, feministas, mulheristas negras periféricas, situadas na segunda maior periferia de Aracaju, a organização tem o intuito de garantir às pessoas, sobretudo as mulheres negras, o direito à cidade a partir do fortalecimento das demandas no espaço público, com pretensão de combater o racismo, sexismo, misoginia, lgbtfobia e todas as formas de opressão contra mulher.

Margot Oliveira, organizadora responsável pela coletiva, fala da dificuldade na adaptação ao formato digital: “Inicialmente sentimos muitas dificuldades, pois o contato é a nossa maior ferramenta de força. Porém, o contexto de resinificar a operacionalização das ações fez com que aprendêssemos mais rapidamente o que anteriormente resistíamos para expandir”, nos revela.

A Periferia Ambulante constrói o Julho das Pretas com uma programação intensa, com cerca de 29 eventos ao longo do mês. A organizadora avalia as ações de forma positiva, pois ascendeu a visibilidade do coletivo tanto em âmbito local como nacional, mas ela destaca a consciência de que as ações privilegiam o acesso ao conhecimento pra um público específico.

Rede de Mulheres Negras de Sergipe em Julho de 2019

A Rede de Mulheres Negras de Pernambuco driblou as dificuldades e segue realizando atividades e fazendo participações em eventos do estado e da Rede de Mulheres Negras da Região Nordeste.  A Instituição tem como programação o lançamento de um podcast, no dia 25 de Julho, em celebração ao dia da mulher negra e pensando as desigualdades no Brasil. O material será disponibilizado nas redes sociais da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. A Rede de Pernambuco faz parte da coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, rede de articulação de mulheres negras de todos os estados da região, que desde o primeiro ano constrói o Julho das Pretas.

Apesar das estratégias para ocupação e adaptação as redes, Rosa Marques, integrante da Rede de Pernambuco, nos conta da saudade do contato e das incertezas do futuro. “Não existe coisa melhor que o calor humano, olhar nos olhos, assim conseguimos dialogar muito mais do que com esses processos tecnológicos. A gente não sabe o que vai acontecer depois da pandemia, precisamos ainda pensar em quais políticas de mulheres negras vão ganhar espaço a partir desse Julho das Pretas”. Rosa ainda fala de estratégias para os diálogos. “O que sabemos é que as estratégias que temos é utilizar os meios tecnológicos com uma linguagem que aproxime as mulheres, que não seja rebuscada onde muitas não entendam. Porque é isso que o jornal, a televisão faz com a gente”, argumenta.

Rede de Mulheres Negras de Pernambuco em Julho de 2019

Além destas atividades, este ano a 4ª edição da Marcha das Mulheres Negras, realizada no dia 25 de Julho, em Salvador, pelo Movimento de Mulheres Negras da Bahia, entra na programação do Julho das Pretas através de uma ocupação digital. Serão ao todo 48 atividades online, ao longo das 24 horas do dia 25 de julho. A atividade é realizada em parceria com a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e conta com atividades realizadas por organizações de toda região e estados com Pará, Minas Gerais e Brasília. Toda ação desta 8ª edição do Julho das é pensada para manter as lutas de combate ao racismo e ao sexismo na centralidade da agenda política pública, chamando atenção para o genocídio da população negra, agravado no contexto da pandemia, e pela necessidade da construção de uma Nação e uma Sociedade de Bem Viver.