Roberto Júnior foi acusado de roubar celulares no Camarote Smirnoff durante a festa. Para ele, a denúncia pode ter partido de alguém incomodado com a presença de um jovem negro no espaço.

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução

“Sendo bem sincero, eu não tenho expectativa nenhuma de reparação. Não tem reparação pro meu rosto, pra agressão que eu vivenciei”, este é o desabafo de Roberto Júnior, jovem publicitário que foi agredido no último domingo (28) durante o Festival de Verão, por seguranças contratados pelo evento. 

Léo Santana havia acabado de sair do palco, quando Roberto, que aproveitava a festa no Camarote Smirnoff, se dirigiu ao banheiro. Assim que saiu da cabine, se deparou com cerca de seis seguranças da PRESTSERV – empresa responsável pela segurança do festival –, que, relata, o encurralaram na parede e informaram que ele havia sido acusado de roubar celulares dentro do camarote. O jovem consentiu com a revista, desde que filmasse a ação.

“Nisso um deles bateu na minha mão, meu celular caiu. Outro me deu um murro, eu caí no chão meio desacordado. Vi meu celular um pouco à frente, me arrastei para pegar. Consegui pegar meu celular e nisso já tinha chamado bastante atenção dentro do banheiro, eu já estava constrangido demais”, conta.

De acordo com Roberto, os seguranças o carregaram para fora do banheiro e disseram que o levariam à polícia. “Eu falei: ‘chame a polícia, eu quero que chame para dizer quem foi essa pessoa que me acusou e que eu seja realmente revistado se eu roubei alguma coisa’, nisso eu levei dois mata-leões porque não estava querendo ir para onde eles queriam me levar.”

O publicitário então, com a camisa rasgada, o relógio quebrado, sujo e já machucado, foi levado aos gritos para um canto atrás do camarote, onde conta ter sido ameaçado pelos seguranças. Um tumulto se formou com populares tentando ajudá-lo e filmar a situação. Pouco antes disso, afirma, um dos seguranças arrancou sua pulseira de acesso ao camarote, e saiu correndo, ao invés de levá-lo à polícia, como havia sido informado inicialmente.

Apesar de todas as tentativas de interferências de populares, Roberto conta que os seguranças só se afastaram quando um outro homem chegou e “reclamou” com eles.

“Jogaram a culpa para a empresa terceirizada, se isentando da responsabilidade”  

“Dentro de um camarote a gente acredita ter uma pseudo segurança. Tinha bastante turista, muita gente branca. Eu acredito que essa denúncia partiu de alguém que estava incomodado com a minha presença naquele espaço. A presença de um preto que pagou pra estar no camarote caro junto com eles.”

Depois da confusão, o jovem foi para o Pronto Socorro receber o primeiro atendimento, e também registrou um Boletim de Ocorrência. Na manhã desta terça-feira (30), o relatório médico de Roberto apontou para um edema de Berlín, que surge na área da mácula da retina após um traumatismo ocular.

“Estou com a visão parcial, proveniente da agressão no olho direito, e com lesões no braço, perna e joelho. Até pra dormir eu tive dificuldade. Fora a saúde mental, que tá bem abalada”, descreve o jovem, que também foi submetido a exames de imagem. O publicitário também fez o exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML).

No domingo (28), ao registrar o B.O., Roberto conversou com o head da Bahia Eventos (empresa responsável pelo Festival de Verão, Festival de Inverno e Pela Festa Onda, fundada em 1999 pelo ex-senador Antônio Carlos Magalhães Júnior, filho de ACM, e pai de ACM Neto) e com a advogada do Festival de Verão. O chefe de segurança estava presente, mas não teve contato com Roberto.

“Não teve justificativa do comportamento, nem da acusação. Mas eles jogaram muito para a empresa: ‘a empresa terceirizada não deveria ter feito isso’, se isentando da responsabilidade. Mas me levaram para prestar queixa, pagaram um táxi para eu voltar para casa”, avalia. “É uma coisa que uma pessoa branca com certeza não passaria dentro daquele espaço.”, completa.

Apesar de toda a repercussão alcançada pelo caso nas redes sociais, Roberto não tem expectativas de ser reparado pela agressão e pela humilhação que sofreu.

“No Brasil as pessoas não são criminalizadas por racismo. Aconteceu comigo agora, mas acontece todos os dias e ninguém é responsabilizado. Eu não acredito que vai ser agora que vai mudar.”, completa.

Bahia Eventos e Festival de Verão se pronunciam

Na noite da última segunda-feira (29), a Bahia Eventos e o Festival de Verão se manifestaram em nota através das suas redes sociais, informando que o caso está sendo apurado pela empresa e pelas autoridades policiais. Além de lamentar o caso, a empresa afirmou repudiar qualquer ato de violência, racismo e discriminação.

“Assim que comunicada, a organização do festival adotou todas as providências para a prestação de assistência à vítima, assegurando atendimento médico imediato, registro da ocorrência na delegacia montada dentro do evento e condução até a sua residência”, diz um trecho do comunicado, que afirma ainda que a empresa está empenhada na identificação dos agressores para que as autoridades possam tomar as medidas cabíveis.