Relatório anual da ONG Repórteres sem Fronteiras aponta o Brasil como um dos países mais perigosos do mundo para exercer o jornalismo

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução Tv/BA

Na última segunda-feira (16), uma equipe de jornalismo da TV Record da Bahia foi atacada e agredida na Avenida Orlando Gomes, em Salvador. Os profissionais estavam cobrindo um acidente no local, que resultou na morte de um motociclista. Foi quando foram surpreendidos por familiares da vítima, que os seguiram e agrediram a repórter Tarsilla Alvarindo, o cinegrafista George Luís dos Santos e o auxiliar Marcos Oliveira.

Tarsilla chegou a levar um soco. Por volta das 8h30, ela postou um vídeo nas redes sociais explicando o ocorrido.

“Inicialmente, um familiar me pediu que não filmasse ninguém. Respeitei o momento, conversei com ele e expliquei que não mostraria de perto. Entramos de longe, falei que tinha acontecido um acidente e que uma pessoa foi a óbito, um homem apenas”, relatou.

Após o caso, a equipe registrou ocorrência na 12ª delegacia de Itapuã.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia divulgou nota onde anunciou que, ao lado da Associação Bahiana de Imprensa, vai se reunir com o Ministério Público do Trabalho, Ministério Público do Estado da Bahia, Tribunal de Justiça da Bahia, Secretaria de Segurança Pública, e outros órgãos para demandar providências para preservar a segurança dos jornalistas na atividade profissional.

Brasil é um dos países mais perigosos para jornalistas

É recorrente a presença do Brasil nas listas de países mais perigosos do mundo para exercer o jornalismo. Em 2022 não foi diferente. Dados do relatório anual da ONG de Repórteres sem Fronteiras (RSF) apontam três mortes de jornalistas no Brasil em 2002, de um total de 57 profissionais de mídia em todo o mundo. Entre eles, o britânico Dom Phillips, caso que ganhou repercussão internacional.

O país ficou atrás do México, Ucrânia, Haiti, Síria e Iêmen. Diferente da Ucrânia, não atravessou um conflito armado com uma potência militar em 2022. Atravessou, no entanto, o ano eleitoral mais polarizado desde sua redemocratização.

Assim, o ano foi marcado pelo crescimento em 69,2% de agressões a profissionais da imprensa em relação a 2021, de acordo com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Nos primeiros sete meses, foram registradas 66 agressões graves, envolvendo casos de violência física, destruição de equipamentos, ameaças e assassinatos.

De janeiro a julho de 2022, foram identificados ainda 291 alertas totais de violações da liberdade de imprensa – 15,5% a mais do que nos primeiros sete meses de 2021.

Jornalista, mulher e negra

Para Tarsilla Alvarindo, pesou ainda o fato de ser uma mulher negra.

No Brasil, existem tanto recordes de agressão a jornalistas, como um histórico de impunidade a agressão contra mulheres negras. Corpo sob qual aumenta o olhar social e patriarcal de estar passível a agressão, tendo a impunidade como recompensa.

São as mulheres negras que compõem a maioria das vítimas nos indicadores de violações de direitos humanos, o que resulta em maioria também nas taxas de assassinatos.

O Atlas da Violência divulgado em 2021 revela que, em 11 anos, o homicídio dessa população aumentou 2%, enquanto o assassinato de mulheres não negras teve uma queda de 27% no mesmo período.

“Um fato desprezível como aquele que aconteceu não é capaz de paralisar o nosso trabalho”, afirmou Tarsilla durante um link ao vivo para a TV Record compartilhado nas suas redes sociais nesta quarta-feira (18).

“Isso não vai deter a gente, a gente vai continuar fazendo nosso trabalho de forma ética, comprometida, cuidadosa e humana. Esses sempre foram os meus princípios e eles não deixarão de ser a partir daquele episódio triste.”