O caso aconteceu em 2016, quando José atacou Rosa Crispina com sete facadas no rosto, braços e tórax; O réu vai a júri popular na próxima quarta-feira (29)

Por Instituto Odara

Salvador (BA), 23 de maio de 2016. Final de Linha do Engenho Velho de Brotas, há poucos metros da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM). 

Dona Rosa Maria Crispina, cozinheira, na época com 52 anos, voltou para sua casa após participar de uma festa de aniversário de um familiar e se deparou com o portão arrombado, móveis e eletrodomésticos danificados e alguns objetos e documentos foram furtados. Imediatamente, desconfiou que o autor da invasão fosse José Carlos Rodrigues, seu ex-companheiro, que resistia em aceitar o fim do relacionamento de dois anos.

“Eu terminei com ele e ele queria voltar pra minha casa porque não tinha condição de alugar uma casa e se manter, ele queria ser mantido por mim”, contou Rosa em entrevista ao Instituto Odara. Ela afirmou também que já não se sentia segura em ficar sozinha com , como José é mais conhecido na comunidade do Engenho Velho e no município de Jacobina (BA), de onde é oriundo. “Ele ficava insistindo, mas toda vez que ele ia lá em casa eu ligava pra minha filha porque não queria ficar sozinha com ele de jeito nenhum”, disse.

Depois de perceber a invasão da casa, Rosa conversou com os vizinhos e tentou conseguir alguma informação sobre o que aconteceu durante a sua ausência, mas não teve sucesso. Se dirigiu então até uma casa na vizinhança, onde Zé estava, para questioná-lo e pedir de volta alguns cartões de crédito que desapareceram. José negou que tinha invadido a casa e a conversa se encerrou. “Eu falei pra ele: já que não foi você, tudo bem, vou dar queixa na polícia e a perícia vai dizer quem foi que arrombou minha casa”, relatou Rosa.

Poucos minutos depois, ainda andando pela vizinhança, Rosa foi surpreendida pelo ex-companheiro, que do alto de uma escada lhe golpeou com sete facadas no rosto, braços e tórax. “Ele tentou deformar meu rosto pra que ninguém mais se interessasse por mim e como não conseguiu, tentou me matar”, afirma a vítima. Logo após o crime, o agressor foi capturado por populares e entregue à polícia.

Socorrida por vizinhos – já que a SAMU foi acionada mas demorou a mandar uma ambulância -, Rosa foi levada ao Hospital Geral do Estado (HGE), onde passou por cirurgia e precisou ficar internada por uma semana e meia. Raquel Gomes dos Santos, filha de Rosa, conta que durante o período de recuperação, picava os alimentos em tamanhos muito pequenos para que sua mãe conseguisse comer, porque as facadas atingiram a região da boca e afetaram a mastigação e digestão.

Além da violência física e tentativa de feminicídio sofrida por Rosa, ali se iniciava uma fase na sua vida que, durante os últimos sete anos, vem sendo marcada por medo, traumas e desrespeito aos seus direitos enquanto mulher.

Machismo e violência simbólica enraizados nas instituições públicas

Minutos depois que Rosa foi socorrida pelos vizinhos e levada ao HGE, Raquel recebeu uma mensagem informando que sua mãe havia tomado um murro – a pessoa que informou não quis dizer a verdade para não assustá-la. Imediatamente, ela que morava em uma rua vizinha, chegou à rua da mãe e ouviu gritos de crianças e adolescentes; “ENTRA NA VIATURA, RAQUEL, SE NÃO ELE VAI SER SOLTO”. Uma viatura da DEAM ainda estava no local do crime, quando a jovem, então com 29 anos, foi socorrer a mãe. “Eu estava a caminho da DEAM quando soube que minha mãe não havia tomado um murro, e sim, sete facadas”. Ela conta que ao chegar na delegacia para prestar queixa, ouviu das pessoas que lhe atenderam, que para se manter segura, Rosa deveria se mudar para longe do acusado.

“Minha mãe tinha uma vida ali onde ela morava. Eu perguntei pra eles quem iria arcar com os custos dessa mudança de vida”, disse Raquel. Ela conta ainda que só conseguiu uma medida protetiva para Rosa mediante o apoio e orientação que recebeu da TamoJuntas – Assessoria Multidisciplinar Gratuita para Mulheres e do Odara – Instituto da Mulher Negra.

Ainda segundo Raquel, durante a perícia que deu início ao processo judicial, sua mãe não teve os ferimentos do corpo fotografados para compor as provas. Já durante as audiências do processo, Rosa foi questionada sobre o que provocou a fúria do ex-companheiro e como ele teria conseguido atingi-la no rosto, já que tem baixa estatura. Mãe e filha afirmam também que a invasão da casa não foi levada em conta para fins da ação judicial.

Medos e traumas 

Sete anos após o ocorrido, Rosa ainda lida com as sequelas causadas pela violência que sofreu. No rosto já não há marcas, mas os danos psicológicos ainda se fazem presentes. Ela já não sai de casa com frequência e, quando precisa sair, pede um carro por aplicativo porque tem medo de pegar transporte público sozinha. “Eu tenho pânico, tenho medo de encontrar com ele no ônibus. Tem sete anos que não sei o que é andar de ônibus”, conta ela.

Após o crime, o filho mais novo de Rosa, na época com 15 anos, foi mandado pela mãe para morar com uma tia fora do Brasil. Ela temia pela segurança do garoto. Quando retornou ao Brasil, após alguns anos, o jovem também passou a viver com medo e passa todo o tempo isolado em seu quarto. “Antes ele brincava com os meninos na rua, jogava bola. Agora ele não vai no cinema, não sai pra rua, fica o tempo todo aqui, porque tem medo”, disse Raquel.

Após 7 anos, o julgamento

Na próxima quarta-feira, dia 29 de março, José Carlos vai a júri popular responder por tentativa de homicídio qualificado em feminicídio. A audiência acontecerá no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador (BA) e testemunhas de defesa e acusação serão ouvidas.

Laina Crisóstomo, advogada da TamoJuntas – organização que faz a assistência de acusação da ação junto ao Ministério Público -, acredita que para além de fazer cumprir a lei, a audiência será um espaço importante para abordar o machismo e o feminicídio enquanto práticas estruturais que colocam em risco as vidas das mulheres.

“Não é só por Rosa Maria Crispina. É por todas as mulheres que todos os dias não conseguem terminar um relacionamento porque os homens se sentem no direito de controlar os nossos corpos e achar que são donos da gente”, enfatiza Laina.

O Instituto Odara, em parceria com a TamoJuntas, realizarão um ato público em frente ao Fórum Ruy Barbosa no dia da audiência para apoiar Rosa e protestar contra a violência e os feminicídios praticados diariamente contra as mulheres, sobretudo negras. A manifestação terá início às 8h, horário em que a audiência está prevista para começar. Para mais informações, acesse o Instagram.