Por Mariana Gomes

Salvador, capital da Bahia, possui 80% de negros no quadro geral da população, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE – 2010). A cidade guarda até hoje as marcas de um passado escravocrata e de exploração. Entretanto, o mesmo lugar fervilha referências de militância negra e liberdade, inspiração para a juventude negra. “Ser jovem negra nessa sociedade é passar por opressões que vão da estética à nossa linguagem, passando pela solidão que vai além dos relacionamentos românticos, está na falta de apoio e referência na família”. É o que pensa Dricca Silva, poetisa, artista de rua, integrante do Resistência Poética e da organização do Slam das Minas, ação comunitária organizada por quatro poetisas negras e jovens, no bairro do Cabula, periferia da cidade.

Assim como ela, outros jovens se organizam de diversas maneiras a fim de continuar a busca de seus antepassados por dignidade e respeito, por meio da estética, das poesias, nas salas de aula e nas praças, em comunidades urbanas e rurais. “A intenção do slam é mobilizar a comunidade e trazer o sentido de coletividade, criar um espaço de convivência e promover a autonomia das pessoas, porque estando juntos podemos nos fortalecer e notar que toda favela é um quilombo”, defende Ludmila Laísa “Singa”, 20, poetisa, grafiteira e integrante da organização do Slam das Minas.

Grupos de poesia como o Resistência Poética e o, também soteropolitano, Coletivo ZeferinaS, são formações potentes de embates diários contra os discursos racistas. Para essa juventude que aposta na arte, escrever e declamar suas poesias significa protagonizar as narrativas sobre suas vidas, reverenciando iniciativas anteriores e longevas como os Cadernos Negros (coletânea anual de escritores negros que existe desde 1978) e contribuições do movimento Hip Hop. “Para mim, o nome marginal para nossa poesia vem no sentido de afronta, de uma poesia em que reafirmamos a todo tempo que somos da periferia, que temos orgulho deste lugar, mas não de passar as privações que passamos, da dificuldade de acesso aos serviços públicos”, explica Mariana Oxente Gente, 17, também integrante do ZeferinaS, grupo de poetisas formado em Cajazeiras, conjunto de bairros de Salvador.

Com um trabalho que começa nos ônibus, os artivistas tentam levar conhecimento sobre os mecanismos do racismo para a população que lota o transporte coletivo, em sua maioria, pessoas pobres, trabalhadoras e negras. “É muito difícil ouvir pessoas falando ‘bandido bom é bandido morto’, sendo que esse ‘bandido’ é quase sempre o jovem negro e pobre, direcionado ao caminho da criminalidade justamente pela falta de recursos básicos à sobrevivência. A linguagem poética é ferramenta de intervenção social para mostrar a estas pessoas que as falas não condizem com suas próprias realidades”, afirma Vanessa Coelho, 19, integrante do ZeferinaS e conselheira do Curso Pré-Vestibular Quilombo do Orubu.

“As gay, as bi, as trans e as sapatão, todas reunidas pra fazer revolução”

Jovens LGBTs negras e negros também têm se organizado na criação de espaços seguros de convivência, em produções que agregam entretenimento, representatividade e acolhimento. Alan Costa, 27, é um dos criadores do coletivo Afrobapho, que através das artes procura desafiar as narrativas sobre masculinidade negra. “O Afrobapho visa propagar uma luta interseccional entre raça, gênero e sexualidade através da integração das artes. Elas são ferramentas muito importantes para propagação de ideias e informação. São instrumentos de sensibilização e mobilização para temáticas políticas como um todo”.

Para as integrantes do Brejo – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, encontrar-se para conversar também é fundamental para a afetividade. “O Brejo atua em primeiro plano como rede apoio para sapatonas e mulheres bissexuais. Através de um encontro bimestral podemos expressar sentimentos, discutir temas coletivos, trocar afeto e nos reconhecermos. A prioridade é agregar cada vez mais mulheres periféricas e nos fortalecer”, explicam Bruna Bastos e Thárcia Purificação, participantes do grupo que se reúne geralmente no bairro da Fazenda Grande do Retiro.

Essa juventude negra LGBT também tensiona e atualiza o debate sobre a estética de seus corpos. “A estética elabora as pessoas preferidas ou preteridas, humanizadas ou desumanizadas, que vivem ou que morrem”, explica Naira Gomes, feminista negra e uma das organizadoras da Marcha do Empoderamento Crespo, que reúne centenas de pessoas no centro de Salvador, dentre crianças, jovens e adultos.

In formation – Pretas e pretos estão se formando

Além disso, os pontos de vistas sobre a história e as contribuições das pessoas negras na formação do Brasil são disputados diariamente nas universidades. Se há décadas a luta era pela inserção de pessoas negras nos cursos de graduação, hoje, muitos jovens negros batalham pela permanência, que vai dos programas de auxílio estudantil até os grupos que lutam contra fraudes nas cotas.

Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), o Comitê Contra as Fraudes nas Cotas Raciais é um espaço de convergência do movimento negro. Samira Soares, 22, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, membro do coletivo Enegrecer e do Movimento Negro Unificado, é uma das integrantes. “Para mim, que entrei como cotista, que é um processo que vivenciamos o racismo institucional desde a entrega dos documentos até a vivência diária, a universidade é um lugar de tensões. A gente sonha com ela, chega aqui e se depara com as contradições do racismo, do machismo, da lgbtfobia. Quero que outros estudantes como eu possam ser muito melhor acolhidos daqui para frente”.

Grupos como o Coletivo de Estudantes Quilombolas (Codequi/UFBA) também desafiam o racismo institucional das universidades no Brasil, garantindo a presença e expressão de comunidades tradicionais nestes espaços. “Na universidade persiste a ideia de que os quilombos existiram apenas no período escravocrata e por isso nós, quilombolas, ainda temos dificuldades de adentrar espaços como estes. Mas estamos aqui reunidos e temos uma agenda para ajudar na formação política nas nossas comunidades e auxiliar na permanência dos estudantes”, explica Jean Vinícius, 21, do território quilombola de Acupe e estudante do BI em Saúde.

Na Universidade Estadual da Bahia (UNEB), o grupo de estudos Candaces propõe a auto-organização na Universidade pautando a importância da educação para a identidade afro-brasileira. Para Dai Costa, 27, graduanda em Pedagogia na UNEB e integrante do grupo, questiona: “recebemos uma educação que não nos contempla muitas vezes. O nosso lugar na história que ouvimos do Brasil é distorcido, sempre na perspectiva da dor. Então nos questionamos sobre esse lado de estudante, mas também da nossa formação enquanto pedagogos, de quem lida diretamente com a produção do conhecimento”.

Os terreiros e outras casas de religiões de matriz africanas também são verdadeiros berços de conhecimento, representando resistência e ancestralidade. Hanna Santana, 19, é candomblecista e faz parte do terreiro centenário do Bate Folha ou Manso Banduquequé, do bairro de Mata Escura. “O terreiro é um lugar de muito respeito. De compreensão do coletivo, até mesmo das lutas contra os diversos tipos de preconceito. Nossa religião é muito rica, é África”, afirma ela. Joice Cristina, 28, também do Bate Folha, destaca a importância dos ensinamentos de lá que são compartilhados com a juventude do bairro onde fica o terreiro. “Nós, brasileiros, ainda vivemos o racismo e a intolerância religiosa. Tendo acesso a tudo que a religião me ensina, nossa obrigação é repassar esse conhecimento como agentes multiplicadores. Por isso nosso terreiro sempre faz eventos educativos na comunidade”.

BOX: A Articulação de Negras Jovens Feministas

Fundada em setembro de 2017, na plenária final do 2º Encontro Nacional de Negras Jovens Feministas – que aconteceu em Capela do Alto (SP), a Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF) é a primeira articulação de negras jovens do país e a terceira organização nacional de mulheres negras, depois da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras e do Fórum Nacional de Mulheres Negras. A atuação da rede acontece aliada a grupos mais antigos. “Desde nosso manifesto, até os encontros, contamos com apoio das nossas mais velhas. Atualmente, por exemplo, estamos construindo o Encontro Nacional de Mulheres Negras 30 Anos, que terá por objetivo avaliar os impactos dos rumos que o Brasil tomou desde o primeiro encontro nacional de mulheres negras em 1988”,  explica Ana Paula Rosário, representante da articulação na Bahia. A Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas está organizada nos estados do Pará, Amazonas, Amapá, Tocantins, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Brasília (DF).