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“Degradante, radical e criminoso”, afirma líder religioso de terreiro atacado em Salvador (BA)

Pai Mutá, Babalorixá da casa, relata que acordou na manhã do domingo (18) sem conhecimento do que havia acontecido
Imagem: Redes Sociais

Por Matheus Souza

O terreiro Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza, localizado no bairro de Cajazeiras XI, em Salvador (BA), sofreu um ataque motivado por intolerância e racismo religioso na noite do último sábado (17). No muro que cerca o local foram pichadas as palavras ‘assassinos’ e ‘Jesus’, em tinta vermelha. O episódio acontece na mesma semana em que é marcado o Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa, nesta quarta-feira (21).

Kwanza Inksi Mutá Imê, conhecido como Pai Mutá, Tata (babalorixá) da casa, relata que acordou na manhã do domingo (18) sem conhecimento do que havia acontecido na entrada da propriedade na noite anterior. Ele foi avisado a respeito do ocorrido pelas suas filhas de santo, que chegaram pela manhã e se depararam com a cena do crime. 

“Nesse sábado eu acordei mais tarde, acabei não despachando a porta de manhã cedo. Meus filhos haviam chegado por volta das 22h30, e até então não tinha nada pichado. Porém, as filhas que chegaram às 7h me perguntaram ‘Tatá você viu o que fizeram lá no portão?’, e foi quando saímos para olhar”, conta.

Além das pichações, uma série de outras vandalizações foram feitas no local. O aparelho do porteiro eletrônico e a caixa de correspondências foram parcialmente destruídos no ataque. “Fui com um dos meus filhos, ele foi com o celular. Quando abri o portão, vi as pichações, além do porteiro eletrônico danificado e a caixa de correios quebrada. Meu filho começou a registrar. Fiquei muito irritado, nervoso. Bate uma sensação de impotência”, relata o Tata.

O religioso afirma que a violência do ataque o deixou perplexo. Ele indaga o que teria levado alguém a utilizar uma figura religiosa como Jesus Cristo para realizar um crime de ódio: “Eu fico me perguntando, que pessoas são essas? Como essas pessoas podem se dizer de Jesus e usar o nome dele junto com a palavra assassino? Jesus é um ser de luz, de amor. Deveriam estar pregando o amor, a união, não se pode ter paz sem amor”.

Território Sagrado

Pai Mutá faz parte da quinta geração de Mam’etu Mariquinha Lembá, fundadora de uma das vertentes do Candomblé Banto na Bahia, o Angolão Paquetã, conhecido também como Candomblé de Congo-Angola. Com mais de 33 anos de existência, o terreiro Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza sempre conviveu de forma harmoniosa com a comunidade, além de realizar trabalhos sociais na região.

“Eu estou aqui nesse espaço sagrado há 33 anos e essa é a primeira vez que isso acontece. Esse ano eu faço 70 anos de iniciado, ainda no ventre da minha mãe. Temos um trabalho social muito grande, fazemos entregas de cestas básicas. Já trabalhei com dança, teatro, e o próprio trabalho espiritual também.”

O Tata conta que, apesar do susto com o ataque, o terreiro vem recebendo apoio tanto de instituições quanto por parte do acolhimento judicial após denúncia. O Boletim de Ocorrência (B.O.) foi realizado na 13ª Delegacia Territorial em Cajazeiras. O documento então foi enviado e registrado na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin). 

“Fomos na segunda-feira (19), e fomos muito bem atendidos. No mesmo dia a Decrin e a perícia estiveram aqui no terreiro e uma ronda passou à tardinha. Estamos sendo muito bem acolhidos nesse sentido. Algumas instituições também estão nos apoiando e estão acontecendo muitas notas de repúdio”, conta Pai Mutá. Em nota, a Polícia Civil informou que as investigações seguem para identificar os autores da intolerância religiosa.

“É tão degradante, radical e criminoso. Esse povo usa o nome de Jesus dessa forma. Essas pessoas têm que ser encontradas e punidas. Pagar os danos morais e físicos. Eles invadiram um território sagrado”, finaliza o líder religioso.

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