As peças estavam na prateleira principal da loja com a etiqueta: “Escravos de cerâmica – R$ 99,90, a unidade”

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução

A loja de decoração e artesanatos Hangar das Artes causou indignação nas redes sociais nesta segunda-feira (7) por vender peças de cerâmica de negros e negras acorrentados. A loja está localizada no Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, em Salvador, e colocou as peças em sua prateleira principal como suvenires, com a etiqueta: “Escravos de cerâmica – R$ 99,90, a unidade”.

As imagens foram publicadas pelo historiador carioca Paulo Cruz. “No aeroporto internacional de Salvador a loja @hangardasartes exibe em sua prateleira figuras de escravos à venda. ACORRENTADOS. No porto de entrada e saída da cidade, repito, mais preta da América. O preço da nossa história, genocídio e dor? R$99,90”, escreveu.

O caso ganhou repercussão quando compartilhado pelo ativista Antônio Isupério, que conta com mais de 83 mil seguidores nas redes sociais.

“Você imagina que poderia ter um boneco de crianças judias em ‘forninhos’ para serem vendidas como adereços? Então, isso não acontece porque o repúdio a violência do Nazismo já está em domínio público enquanto nós negros ainda estamos em processo de conquista a nossa humanidade. Quem será que compra um boneco de pessoas escravizadas? A quem isso serve?”, questiona.

Em entrevista ao Metro 1, a advogada da Hangar, que preferiu não se identificar, confirmou que os objetos eram vendidos no site da loja, mas foram retirados “após ataques haters”. E defendeu a mercadoria, “Não estou entendendo o porquê de tanto reboliço. É uma coisa que retrata a história do Brasil”.

Em nota, a Vinci Airports, responsável por administrar o aeroporto, informou que recomendou a retirada dos produtos do estoque, após tomar conhecimento da comercialização de peças “que remetem à desonrosa atividade da escravidão no Brasil” em uma das lojas que ficam dentro de suas dependências. A empresa destacou que não determina a curadoria dos produtos vendidos por cada subconcessionário, mas que nesse caso a administração entendeu que era necessário se posicionar.

Já a Hangar Artes publicou uma nota de retratação através das redes sociais, onde pede desculpas pelo ocorrido e informa que todas as peças foram retiradas de circulação.

“As imagens que estão circulando, de algumas de nossas esculturas, tratam-se da imagem do Preto(a) Velho(a) – espíritos que se apresentam sob o arquétipo de velhos africanos que viveram nas senzalas, majoritariamente como escravos, entidades essas que trabalham com a caridade e cuidam de todas as pessoas que os procuram para melhorar a saúde, abrir caminhos e ter proteção no dia a dia. Por isso, algumas das peças possuem correntes, na tentativa (ERRÔNEA) de retratar a história dessa entidade de maneira literal. Erramos na forma em que as peças foram expostas e em descrevê-los apenas como escravos, apagando, de certa forma, a história que carrega”, explica a nota.