A liberdade de expressão continua a ser um tema chave nos dias atuais. As ações mais sensíveis estão na censura às expressões artísticas e perseguições a comunicadores, porém, formas mais complexas e não menos danosas podem ser encontradas naqueles que detém o controle majoritário sobre as estruturas de enunciação, e as utilizam para proliferar discursos de ódio e a criminalizar os movimentos sociais.

Tais dilemas continuam a ser respondidos por setores da sociedade municiados por uma agenda de argumentos envolvendo noções de direitos e democracia. Porém, infelizmente, essa agenda continua a falhar, principalmente no Brasil. Não consegue-se convencer desde das pessoas mais comuns às lideranças políticas que nossa liberdade está em constante risco e que alguma coisa precisa ser feita de imediato. Paira uma ilusão de que existe espaço e garantias para tudo o que quisermos falar ou produzir – não a toa, é o mesmo tipo de ilusão de que continuarmos a viver numa democracia racial no país.

O  que gostaria de lançar aqui é que vivemos no Brasil sob a liberdade condicional: a possibilidade de expressar-se, desde que esteja em constante vigília e correspondência às expectativas dos grupos dominantes, caso contrário, buscam silenciar a sua voz.

Essa formulação parte da experiência da população negra ser subjugada à condição de ameaça, independente do seu status civil (escravizado, preso ou liberto) ou conformidade aos padrões morais (homem de bem ou criminoso). Frente o aprofundamento do genocídio indígena, restou às elites e ao Estado transformar o negro como seu principal inimigo.

A fim de compreender e enfrentar a liberdade condicional, busca-se inicialmente revisar os marcos de resistência na formação da mídia no Brasil. Identificar e valorizar os que vieram antes de nós, e enfrentaram mecanismos de silenciamento perenes, reciclados e multiplicados a outras populações.

As referências utilizadas a seguir vão compor um repertório do que convenciona-se denominar de mídia negra. São formas de expressão que transitam entre a escrita literária e jornalística, e entre as imagens em movimento (audiovisual) e paradas (fotografia), independente do suporte: imprenso, televisão, cinema e internet. Iniciativas que se relacionam direta ou indiretamente com processos políticos dos diversos movimentos negros, e detém um controle de corpos negros na sua propriedade intelectual.

Obviamente, este espaço é voltado para uma síntese jornalística, o que deixa de fora muita coisa importante que compõe uma noção de mídia, inclusive o rádio, a música e ilustração. Espera-se despertar a curiosidade para novas pesquisas sobre o tema que leve em consideração um grau de sobrevivência e articulação dessas ações.

Já no século XXI estamos inseridos em uma virada que permite, como nunca na história, acesso a muitas das tecnologias e formas de conhecimento, como a universidade. Ao mesmo tempo, novos mecanismos de silenciamento se alastram na internet, como a utilização de robôs para forjar opinião pública, e o controle dos algoritmos que pode decidir quais conteúdos serão mais expostos ou ocultados nas redes sociais. Daí, ficará a cargo das gerações futuras reconhecer os marcos que se insurgem à liberdade condicional deste contexto.

 

ERRATA: NA VERSÃO IMPRESSA DA REVISTA AFIRMATIVA ENCONTRA-SE O SEGUINTE TEXTO:

“A primeira mulher a dirigir longa metragem no Brasil, é uma mulher negra, Adélia Sampaio (…)”.

O correto, no entanto, é: “A primeira mulher a dirigir um longa metragem de ficção no Brasil, é uma mulher negra, Adélia Sampaio (…)”