Por Marry Ferreira/ Imagem: @sihim_ / Via: nappy.com

Os recentes protestos Black Lives Matter tem intensificado nas redes sociais conversas sobre as desigualdades sociais, racismo e as experiências vividas por pessoas negras nas Américas. Por muitas semanas, veículos de comunicação brasileiros focaram nos protestos por justiça por George Floyd, assim como os Estados Unidos fizeram uma extensa cobertura midiática sobre as manifestações ao redor do mundo que pediam justiça pelo afro-estadunidense assassinado pela polícia.

O que tem me chamado a atenção, no entanto, é a pouca equivalente solidariedade ou destaque por parte da mídia e dos movimentos norte-americanos sobre o que tem acontecido nas Américas, e nesse caso, em especial, no Brasil. Há algumas semanas eu participei de uma live no Instagram, e uma das perguntas que recebi foi sobre porque devemos olhar para as experiências de mulheres negras brasileiras quando falamos sobre anti-negritude nas Américas. E pra mim, a resposta é objetiva e simples: como podemos atingir liberdade plena, se todes nós não estamos livres? Como posso falar sobre libertação se minha luta não inclui a resistência das minhas irmãs e irmãos da Colômbia, Panamá, Guatemala, Brasil e de toda a Diáspora?

A discussão sobre negritude no mundo não pode ser centrada nos Estados Unidos e na perpetuação do imperialismo norte-americano que também se manifesta no apagamento de outras experiências fora do país. Olhar para o Brasil é olhar para as(os) nossas(os). É entender a história de pessoas negras que estão na resistência e em uma mobilização de décadas. É saber que a polícia não mata e criminaliza nosso povo somente nos Estados Unidos, que a luta por territórios, assim como a resistência, também acontece na Colômbia, e que essa violência institucionalizada não pode ser separada do contexto de anti-negritude nas Américas. O sistema que visa nosso extermínio é baseado nos mesmos ideais. O que muda são as estratégias, contextos e articulações.

Nessa minha jornada de eterno aprendizado sobre minhas irmãs e suas articulações na América Latina, me direciono para nossa histórica Lélia Gonzalez e seus ensinamentos sobre Amefricanidade, onde ela apresenta um feminismo anti-imperialista e decolonial, que centre nossas experiências como mulheres negras na América Latina. Criar uma solidariedade internacional que seja genuína e se articule reciprocamente, exigirá que muitos grupos estadunidenses rompam com o imperialismo norte-americano que centram suas experiências como exemplos plenos de negritudes ou movimento nas Américas.

O Brasil é a segunda nação com a maior população negra do mundo e nosso povo tem se organizado desde que nossos primeiros ancestrais pisaram nessa terra após serem sequestrados do continente Africano. E a prova disso é que estamos vivas(os) para contar. Enquanto as elites brancas tem aprendido com a pandemia do COVID19 que muitas das crises de nossos tempos não conhecem fronteiras, nós, pessoas negras, temos nos articulado solidariamente desde sempre, seja nos quilombos, favelas, periferias, através da mídia negra ou da produção intelectual de nossas mais velhas.

Meu coração ainda sente a morte de George Floyd, Nina Pop, Breonna Taylor e outros irmãos e irmãs que temos perdido aqui nos Estados Unidos. Enquanto uma mulher negra, brasileira, e atualmente morando em solo estrangeiro, me vejo sempre neste lugar entre dois países. Um lugar que tem sido de muito aprendizado, mas também de muita dor, principalmente nestes últimos meses de pandemia onde temos perdido tantos dos nossos. Assim, ao ver as mobilizações internacionais pedindo justiça por George Floyd, tenho me perguntado: onde estavam todas as hashtags internacionais quando perdemos o menino João Pedro, assassinado dentro de sua própria casa? Onde estão os veículos internacionais exigindo justiça por Miguel e lutando ao lado de Mirtes?

Uma mobilização solidária internacional e que centralize todas as nossas experiências enquanto Diáspora permitirá que outras estratégias e aprendizados sejam traçados. Aprendemos muito na troca e na pluralidade, mas perdermos quando centralizamos somente algumas experiências no lugar de expandir nossa rede de afeto, solidariedade e economia. A verdade é que, em tempos tão difíceis, nenhum de nós estará segura(o) até que todas(os) estejam.