Adriana Gerônimo, Lila Salú e  Louise Santana, foram eleitas com 9,8 mil votos para a Câmara Municipal da capital cearense 

Por Andressa Franco e Patrícia Rosa

A presença de mulheres negras na política institucional por si só já é marcada pela sub-representação. Em 2020, apenas 6% das eleitas para vereança e prefeitura eram mulheres negras, segundo análise da Gênero e Número, feita com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Insatisfeitas com esse cenário, muitas mulheres têm criado novas estratégias para ocupar esses espaços. Desde então, o Brasil tem visto florescer diversas candidaturas coletivas de mulheres negras. Uma delas estreou o formato como o primeiro mandato coletivo de Fortaleza, capital do Ceará: a mandata ‘Nossa Cara’, eleita com 9,8 mil votos para a Câmara Municipal.

“A pauta que levou a ceder meu nome foi a necessidade de entender que somos atravessados por violências e era preciso disputar a imagética do sujeito que sofre. Colocando a imagem desse sujeito nos espaços institucionais de poder”, defende Louise Santana, de 31 anos, que compõe a mandata ao lado de Adriana Gerônimo e Lila Salú.

Entre outras questões, também era urgente para a parlamentar a luta contra violência doméstica, da qual a própria Louise já foi vítima. “Fortaleza das Mulheres” era o slogan da primeira campanha, ao lado também de pautas como segurança, direito à vida, à escola, direito de existir. “Cinco anos depois, essas ainda são as pautas que nos movem, porque infelizmente as estruturas só aprofundam as desigualdades que nos assolam”.

Nascida na periferia da capital cearense, Louise é cristã, filha de pastores. Vinda de uma família paterna negra com origem circense, e de uma linhagem materna com ascendência indígena. Ainda criança, morou no loteamento Santa Terezinha, e observava seu avô, bombeiro hidráulico e elétrico, como uma de suas primeiras referências de articulação política. Lutando por acesso a rede de esgoto, eletricidade, escola pública do bairro. Enquanto isso, sua avó atuava como parteira nas periferias.

Louise Santana – Imagem: Arquivo Pessoal

No início dos governos petistas no país, Louise já observava com inquietação e interesse a discussão dos direitos sociais. Foi quando começou a acessar programas de repasse de renda. Aos 14 anos, voltando de um cursinho preparatório, ela e seus colegas souberam que as carteirinhas de estudante seriam invalidadas. Foi quando participou de sua primeira manifestação, em uma caminhada até a Prefeitura.

“Jogaram pedra na gente, chamaram a polícia, foi um horror. Cheguei em casa com os braços sujos de sangue das minhas amigas. Minha mãe ficou desesperada, me levou até minha vó, porque ela tinha sido militante do sindicato da saúde, ‘O que você fez com a minha filha? Colocou suas ideias na cabeça da menina!’”, lembra.

Uma vez na universidade, rapidamente se envolveu no movimento estudantil. Em 2014 se formou em pedagogia, na sequência cursou direito na Universidade Federal do Ceará. Se filiou ao PSOL em 2012, e em 2016 cedeu o nome para disputas eleitorais. 

“A gente estava vivendo o contexto do golpe de 2016, e houve uma avaliação do partido de que era preciso disputar a ocupação dos espaços institucionais. Várias mulheres negras pelo país dispuseram seu nome. Eu, Talíria Petrone, Marielle Franco, Áurea Carolina”, acrescenta Louise, que foi candidata em 2016 e 2018, no ano seguinte foi convidada para participar da chapa coletiva para vereança, eleita em 2020. 

A trajetória de Adriana, de 31 anos, não foi muito diferente. Também moradora, nascida e criada, em uma periferia de Fortaleza, a comunidade do Lago Amapá, percebeu muito cedo que a militância não era um hobby, mas necessidade. Quando criança, a casa em que cresceu com seus pais alagava todos os anos devido às enchentes. E as condições de precariedade impulsionaram seu engajamento na luta por melhores condições de vida.

Adriana Gerônimo – Imagem: Arquivo Pessoal

Assim como Louise, teve influência de grupos de jovens cristãos, onde foi impulsionada a ingressar na universidade. Fruto das políticas afirmativas para a população negra e pobre, em 2015 se formou como assistente social através do FIES. 

“Como minha comunidade é uma ocupação urbana, que sempre passou por problemas de ameaça de despejo, acabei me integrando na luta pelas ZEIS (Zona Especial de Interesse Social)”, pontua Adriana, que associa seus 11 anos de militância por moradia com a sua maternidade. “Quando minha primeira filha nasce [11 anos] é o marco da construção do plano diretor aqui na cidade. Quando a segunda nasce [4 anos] é quando começa a construção dos PIRF’s (Plano Integrado de Regularização Fundiária)”.

Com o nascimento da segunda filha, passou a integrar a militância por creches e educação pública de qualidade, luta indispensável para o feminismo negro. Depois de passar mais de um ano na fila de espera por uma vaga para a criança, se deparou com uma creche sucateada e com condições precárias quando finalmente conseguiu. 

A terceira integrante da mandata, é Lila Salú, de 32 anos, educadora popular, cantora, compositora, instrumentista, além de militante pelos direitos da população LGBT.

Apesar de os deveres, decisões, e salário serem divididos entre as três, é Adriana que ocupa o cargo oficialmente, visto que o Brasil ainda não se adaptou burocraticamente à essa inovação eleitoral. Assim, embarcaram no projeto, inspiradas por experimentos que já haviam dado certo, como a Bancada Ativista em São Paulo, e as Juntas, co-deputadas por Pernambuco. 

Lila Salú – Imagem: Theyse Vianna
Projetos

Conscientes das pautas que pretendiam defender, um dos trabalhos iniciais da mandata foi a proposição do Dossiê da Mulher Fortalezense. Onde, explica Louise, o poder público destina contratação de pessoal para encontrar, mapear e entender quem são e como estão as mulheres de Fortaleza. E assim, construir políticas públicas de inclusão para essas mulheres.

Outra proposta foi de um projeto de lei que prevê a empregabilidade de pessoas trans da capital cearense. Em que as empresas e os órgãos conveniados com a Prefeitura destinem uma porcentagem para inserção de pessoas trans no mercado de trabalho. 

“Um dos nossos projetos prevê a construção de um mini polo de convivência com academia ao ar livre e espaço para crianças no Conjunto Palmeiras II. Uma periferia de Fortaleza bastante esquecida pelo poder público”, cita Louise, que também destaca a participação das parlamentares no fortalecimento da reabertura e da contratação de pessoal para o Centro de Referência LGBT do estado, o Centro Janaína Dutra. 

Adriana lembra também do PL Despejo Zero protocolado pela mandata, e feito em conjunto com os movimentos de moradia da cidade. “Os projetos não são nossos, são da cidade, dos movimentos sociais. Crescemos vendo o vereador asfaltando rua, tapando buraco, e a gente queria mostrar que o vereador poderia fazer muito mais que isso”.

Desafios

Para as três mulheres, o grande desafio da mandata é o reconhecimento e legitimação por parte dos colegas. “Nossa presença é questionada de maneira silenciosa”, desabafa a professora. “Através da nossa exclusão em comissões que solicitamos participar, o que dificulta a apreciação de nossos projetos no plenário para serem destinados à comissão”.

Entre os obstáculos que fazem parte da atuação no espaço da institucionalidade, Adriana salienta a dificuldade que encontram às vezes nos próprios territórios, para que a população entenda a ideia coletiva de fazer política. 

E uma das iniciativas da mandata entre as idéias de nova política, é quebrar com os altos salários, para além da divisão entre elas, doando uma parte todo mês. A doação do primeiro ano de mandato foi para um fundo coletivo, que se tornou edital de apoio às atividades socioculturais já desenvolvidas por territórios periféricos e que não tem financiamento público. 

“A gente sabe que não vai mudar o mundo, mas eu acredito que com articulação política, projetos de leis e comunicação alinhada com os movimentos sociais, a gente tem muito o que vencer”, projeta esperançosa

Mandata Nossa Cara – Imagem: Reprodução
Não nos basta ser mulheres negras. Nem toda ocupação física, atende a ocupação programática que queremos

Para Louise, falar de representatividade não se limita à questão do sujeito físico, mas também do sujeito social. Sendo assim, preza que a presença das mulheres negras, periféricas, LBT’s nos espaços de política institucional, seja marcada por um projeto para a sociedade. “Para nós, as mulheres negras que não têm um programa político que altere as questões sociais, étnicas e de gênero do nosso país não nos interessa e não será defendido. Não é a representatividade pela representatividade”. 

Já Adriana lembra que são as mulheres negras que vivenciam a cidade em todas as suas opressões, diferente da maioria das pessoas que ocupam a política institucional, representada por homens brancos, que muitas vezes são filhos e netos de políticos. 

“Sabemos como funciona o SUS porque somos as maiores usuárias. Sabemos como funciona a política de assistência, porque somos as chefes de família cadastradas no Bolsa Família. Sabemos como é a política de habitação, porque em Fortaleza as mulheres que chefiam família estão em maior número na fila de espera para os programas habitacionais. Se somos maioria enquanto usuárias das políticas públicas e sociais e minoria na condução dessas políticas, a conta tá errada”, ressalta.

Cenário Atual

A Mandata Nossa Cara dentro da Câmara Municipal de Fortaleza é uma realidade, mas para Louise não é suficiente. A professora vê como necessária a construção de estratégias para ampliar a participação de mulheres negras nesse espaço. “Não é responsabilidade somente nossa a ocupação desses lugares, mas também de quem já está lá. E no Ceará hoje o campo progressista tem dificuldades de criar estratégias para a permanência de mulheres negras nos espaços de construção política”, afirma.

Dificuldade essa que passa pelo entendimento de que as mulheres negras em sua grande maioria são mães, periféricas, muitas delas evangélicas. O que torna necessário aprender a dialogar com essas mulheres. “Não é interessante que a gente reivindique uma diversidade quando essa diversidade busca alcançar apenas a nós”.

O Ceará é governado hoje por Camilo Santana (PT), reeleito em 2018, e, para Louise, apesar de se tratar de alguém filiado a um partido de esquerda, existem dificuldades a se considerar. “Ele tem alianças muito diretas com um grupo político bastante antigo aqui do nosso estado, que são os Ferreira Gomes. E isso gera uma nebulosidade de entendimento de quem serão os nomes sucessores dessa política”, analisa.

Atenta às disputas eleitorais deste ano, a co-vereadora consegue ver concentrada no estado uma polarização que se assemelha ao cenário de polarização nacional. Citando, por exemplo, o pré-candidato ao governo do Ceará Capitão Wagner (PROS), a quem o presidente Jair Bolsonaro (PL) já declarou apoio.

“Eu acredito que a tarefa coletiva do campo progressista hoje é derrotar o Bolsonaro”, declara Louise, que vê no ex-presidente Lula (PT) a maior chance de fazer isso através das eleições, mas não sem reavaliar erros de governos passados. “Não podemos cometer o mesmo erro de colocar na cadeira da presidência uma pessoa que seja capaz de leiloar as terras indígenas como aconteceram nos governos petistas”.

Adriana, que acompanha de perto a pauta da moradia, observa a luta dos movimentos sociais afundar, e lamenta o déficit habitacional de Fortaleza. De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) junto à Ecconit Consultoria Econômica, o Ceará é o quarto estado do Nordeste, que lidera o déficit habitacional no país, neste levantamento, com 335.370 unidades. 

A assistente social também chama atenção para outro dado preocupante no estado: a segurança pública. O Ceará terminou 2021 com 3.299 Crimes Violentos Letais e Intencionais, a soma de homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, ocupando a quarta posição em comparação aos demais estados. Os números são da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). 

“A maioria são jovens negros, meninas negras, são casos de feminicídio, assassinato de mulheres trans. E nas últimas eleições a gente teve um crescimento gigantesco nas candidaturas de militares e policiais”, avalia Adriana. “Para 2022 a gente precisa ganhar corpos, mentes, reconstruir a esperança nas pessoas, mas nós, mesmo da esquerda, nos cortamos desse trabalho, que precisa de muita paciência, metodologia pedagógica”.