Ex-assessora da vereadora Marielle Franco, Danielle foi eleita em 2018 aos 27 anos com 27.982 votos

Por Patrícia Rosa e Andressa Franco

Cria do Rio de Janeiro, a deputada estadual Daniella Monteiro da Silva, de 30 anos, cresceu no complexo de favelas do São Carlos, no Morro do Zinco, zona central do Rio. Neta de nordestinos que migraram para a capital carioca em busca de melhoria nas condições de vida, Dani faz parte da primeira geração da família a acessar a universidade, e não deixa de credibilizar as lutas das gerações anteriores para que isso fosse possível. 

A jovem cursou Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ aos 18 anos, através do sistema de cotas. Durante a graduação, o grande desafio enfrentado foi justamente o de permanecer no curso. Nesse período, a estudante trabalhou durante quatro anos em empresas de call center. “Trabalhei com atendimento financeiro, bem a contradição do que eu estudava na sala de aula sobre lutas de classe”. 

Imagem: Divulgação

Foi no ambiente acadêmico que Dani percebeu a necessidade de lutar e militar pela permanência naquele espaço. “Não adianta lutar pelo aumento do valor de uma bolsa de permanência, se não lutar pela redução da passagem, pois não vai caber no orçamento. Eu participei de várias lutas e entrelaces, foram greves, ocupação de reitoria, do bandejão na universidade, já vivenciei muitas lutas e elas me levaram a me filiar ao  PSOL”, conta.

Trajetória na Política Institucional 

A parlamentar se vinculou ao  Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em 2014, antes disso fez parte das campanhas do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). Também compôs o mandato da então vereadora Marielle Franco em 2016, chegando a participar da produção “Marielle – O Documentário”, lançada em 2020. Dani é umas das três ex-assessoras de Marielle Franco, vereadora assassinada a tiros em março de 2018. As demais, Mônica Francisco e Renata Souza, também assumiram o cargo de deputadas estaduais na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

“Eu fui convidada a compor o mandato dela com um debate de juventude e periferia, que era um pouco do que minha própria trajetória vinha acumulando”, lembra. “Então era algo que estava ali na minha prática, a possibilidade de trabalhar com isso e pensar políticas para juventude periférica, nas potências comunitárias cotidianas”.

A disputa eleitoral de Dani por uma cadeira na Alerj, em 2018, nasceu desses anseios e necessidades de uma juventude atuando coletivamente para ocupar espaços. Assim, a estudante foi eleita aos 27 anos com 27.982 votos, se tornando a mulher mais jovem a ocupar uma vaga de deputada na Casa. 

Imagem: ASCOM/ALERJ

“A nossa força vinha da militância, eu me sinto muito herdeira de diversos processos que essa nova geração passou. Então começa lá em junho de 2013 com todo o ciclo de megaeventos, como o ‘não é por 20 centavos’, ‘machistas não passarão’ e ‘vidas negras importam’”, completa a deputada, que reforça ainda que sua campanha nunca foi individual. “É um desafio muito grande, obviamente eu não ocupo esse espaço sozinha, venho de uma tradição política de construção coletiva feita a muitas mãos”.

Projetos

Um dos mais recentes Projetos de Lei defendidos pela deputada, foi o PL 1.990/20, que cria o  Programa Estadual de Incentivo aos cursos sociais, populares e comunitários. A ideia é ter o incentivo do Poder Público na defesa da propagação de conhecimento por meio de uma educação popular.

No início da pandemia de covid-19, apresentou o PL 2568/2020, para determinar a suspensão de operações policiais nas comunidades e periferias do estado enquanto perdurassem os efeitos do lockdown. E em parceria com Mônica Francisco (PSOL), Renata Souza (PSOL), e mais três deputados da Assembleia, já apresentou também o PL 2891/2020, que institui o Programa Permanente de Enfrentamento ao Racismo nas Escolas.

Escolhida para ocupar a cadeira de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, Dani passa por desafios diários neste cargo. “É uma das comissões mais importantes da Casa, não é fácil ser reconhecida nesse lugar. Ser uma das 70 deputadas do estado do Rio de Janeiro é incomodar e ocupar o lugar de muita gente”, ressalta.

Foi ocupando essa cadeira que a parlamentar acertou um encontro com os presidentes da Comissão Direitos Humanos e Minorias da Câmara e do Senado, para discutir a morte do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, de 24 anos, assassinado em um quiosque na Praia da Barra da Tijuca. A proposta era debater a situação dos refugiados congoleses no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro. Um projeto da deputada que está sendo desenvolvido desde o ano passado com a colaboração de diversas entidades dos direitos humanos, prevê a criação de um dossiê anual dos refugiados no Rio.

Imagem: Rafael Wallace

E é como “totalmente falido” que Dani define o estado que hoje representa. “O Rio de Janeiro é um estado totalmente desequilibrado. Como aquela senhora que veio de família real, tem um título da nobreza, mas não tem dinheiro e chega nos lugares dando carteirada, falando que já foi da realeza. O Rio é exatamente isso, uma senhora ex-nobre, falida”. Entre os problemas enfrentados pelo estado, a parlamentar destaca, na arrecadação tributária, o histórico de inadimplência no pagamento dos servidores públicos. “É uma terra de vários caciques. Muita gente querendo mandar e paramos onde estamos: endividados, falidos, com vários políticos presos, indiciados e  investigados”, explica.

O fato de se tratar do estado de origem do presidente Jair Bolsonaro (PL), para Dani, é algo que reflete na política nacional e no aumento do conservadorismo no Rio de Janeiro. Considerando a própria eleição do ex-governador Wilson Witzel (PSC) a expressão de um bolsonarismo muito forte no estado. 

Para a deputada, o presidente não tem um plano de desenvolvimento para o país. “Despreza a maior parte da sua população, despreza a população LGBTQIA+, quilombolas, índios, negros e negras, além de adotar uma postura xenofóbica com as regiões Norte e Nordeste”.

“Eu represento essa coletividade”

A diversidade do movimento de mulheres nos diferentes nichos da sociedade é um tema constante na atuação política de Dani. “Você tem desde o movimento de dentro das favelas e periferias, que é como o centro ligador das comunidades, até o movimento da classe média, que buscam espaços e oportunidades. Mas não existe um único movimento de mulheres”, explica trazendo como exemplo sua própria trajetória na Alerj, onde percebe que mulheres tanto do espectro político da direita como  da esquerda acabam passando por incômodos semelhantes, a começar pela falta de escuta dos deputados. 

Imagem: Rafael Wallace

Sobre a ocupação dessa diversidade de mulheres  no parlamento, a jovem afirma que há uma crescente de mulheres na Câmara de Deputados. Em 2018, a bancada feminina na Câmara dos Deputados passou de 51 para 77 mulheres, das quais apenas 13 são negras. A primeira mulher indígena também foi eleita para o Congresso Nacional neste último pleito. Esse número, no entanto, representa apenas 15% das 513 cadeiras da Casa. O que mantém o Brasil muito abaixo da média na América Latina, que é de 28,8% de mulheres parlamentares nas Câmaras de Deputados ou Câmaras Únicas. 

Até 2018, o Brasil ocupava a 154ª posição em ranking de participação de mulheres no Parlamento elaborado pela ONU Mulheres em parceria com a União Interparlamentar (UIP) em 2017, que analisou 174 países. O ano de 2022 é uma nova oportunidade de melhorar esses números.

“Eu represento essa coletividade. A luta por direitos do Rio de Janeiro, o direito à moradia, contra a violência policial, são diversas lutas. Não é só um corpo que tem um gênero e uma  tonalidade de pele ocupando um espaço, não é uma lógica instrumentalizada. Existe um arcabouço coletivo, uma democracia representativa, que pode e deve representar essa coletividade”, finaliza.