O Sol é para todos: a implementação de sistemas de energia solar em comunidades do Nordeste e a busca por autonomia e acesso a energia

Comunidades rurais do Nordeste, encontram na energia solar alternativa para o desenvolvimento sustentável

Por Andressa Franco, Elizabeth Souza, Karla Souza e Patrícia Rosa

O número de instalações de energia solar cresceu 95% no Nordeste em 2022, segundo apontam os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Alguns fatores favorecem a implementação deste tipo de energia na região, como possuir os melhores níveis de insolação do país (5,9), de acordo com o Atlas Brasileiro de Energia Solar.

Para Walmeran Trindade, doutor em engenharia elétrica com experiência no tema de energias renováveis, é possível observar os impactos desses números em diversos aspectos. O professor explica que o custo da energia elétrica é um dos principais limitadores da melhoria de renda e aumento de oportunidades de trabalho em diversas comunidades rurais do Nordeste.

“Podemos citar, por exemplo, uma agroindústria de polpa de frutas. Muitas vezes há uma grande disponibilidade de frutas para produzir, tem maquinário para processar, mas no processo de armazenamento, ou seja, os freezers ou câmaras frias, esbarra no limite do custo da energia elétrica.”

O uso de sistemas fotovoltaicos, avalia Walmeran, seria um desentrave desse limitador para empreendimentos com alta demanda de energia elétrica. “É a própria natureza apontando o modelo energético mais adequado, que é o modelo distribuído, onde a energia elétrica é produzida não para ser uma mercadoria que vai para uma comercialização, mas sim para um autoconsumo, para a produção local.”

Porém nem tudo são flores, o potencial econômico desta energia tem despertado interesses de conglomerados comerciais e grandes empresas. Contaremos a seguir a história de quatro comunidades de estados do Nordeste, que na contramão desse processo, tem encontrado na energia solar caminhos para o desenvolvimento sustentável.

Sol que move águas

O Piauí concentra um dos maiores índices de radiação solar do país. É lá, no município de Paulistana (PI), que fica o Quilombo San Martin. Em 2020, a comunidade recebeu um sistema de irrigação movido a energia solar, desenvolvido por um projeto de extensão da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e financiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

A iniciativa levou o uso da energia solar para bombeamento de água. Antes da chegada da tecnologia, a comunidade plantava apenas durante os períodos chuvosos, e sofria na época da seca.

Grupo de mulheres da comunidade San Martin – Imagem: Arquivo Pessoal

Milena Martins, de 38 anos, é agricultora, técnica em agropecuária e uma liderança da comunidade. Ela lembra que os impactos vinham assim que a água acumulada pelas chuvas acabava. “Diminuía a variedade alimentar e consequentemente a saúde e a renda. Porque todo excedente da produção é comercializado tanto nas feiras, quanto para as famílias que não têm o hábito de produzir de forma escalonada e contínua.”

Apesar do projeto, Milena considera a presença da energia solar na comunidade ainda muito tímida. Passados quatro anos, continuam apenas com um poço equipado pela placa solar, atendendo cerca de oito famílias do quilombo. Ainda assim, afirma que o equipamento é fundamental.

“As famílias vêm conseguindo manter as pequenas hortas. O equipamento não supre necessidades grandes, mas consegue molhar canteiros e manter algumas culturas”. A comunidade também tem utilizado a água nos tanques para criação de peixe.

A agricultora reforça a análise do professor Walmeran sobre os altos custos, além de reclamar da qualidade da energia. “Tem pessoas que estão deixando de produzir por conta do custo da energia elétrica e da má qualidade”. 

Assim, o que a comunidade vislumbra hoje é a possibilidade do acesso à energia solar para equipar mais poços, assim como as casas das famílias. “Seria uma alternativa muito viável, tem muito sol na região. Inclusive a comunidade já fez um pedido para uma instituição, mas não tivemos sucesso. É um sonho ter essa tecnologia.”

Milena Martins, de 38 anos, é agricultora, técnica em agropecuária e uma liderança da comunidade – Imagem: Arquivo Pessoal

Walteran explica que enquanto a energia elétrica limita o desenvolvimento das atividades econômicas nessas comunidades, a autoprodução de energia favorece. Para ele, a energia solar fotovoltaica no modelo descentralizado pode ajudar muito na inclusão socioeconômica. 

“Algumas dessas comunidades ficam distantes da rede convencional. E mesmo a rede elétrica chegando lá, a qualidade é inferior. Então a autoprodução de energia favorece também o abastecimento das residências e o conforto das famílias.”

Cem anos de escuridão

Comunidade composta por 43 casas, situada sobre dunas móveis, entre o Rio São Francisco e o mar, em uma área de preservação ambiental, e que até o ano de 2023 convivia com a falta de energia elétrica. Poderia muito bem ser a descrição da fictícia Macondo, do clássico Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, mas estamos falando do Quilombo Pixaim, localizado em Piaçabuçu, em Alagoas.

Na tentativa de mudar essa realidade, tentou-se utilizar a energia elétrica por meio de baterias, mas não houve êxito pela baixa duração. Sem a eletricidade, a pescaria se manteve como uma das únicas atividades econômicas da comunidade. 

O Quilombo Pixaim, Piaçabuçu (AL), viveu quase um século sem energia elétrica. Realidade que muda com a chegada da energia solar – Imagem: Arquivo Pessoal

Esta realidade muda com a chegada da energia solar. Em agosto de 2023, o projeto E+ Comunidades Solares, da companhia energética Equatorial Alagoas, implementou paineis solares nas casas, acompanhados de geradores, pontos de energia e uma geladeira. A tecnologia fotovoltaica possibilitou a autonomia energética.

“A energia solar é uma benção que chegou para nós. Foi uma coisa muito boa porque antes a gente vivia como pessoas invisíveis, parece que o governo não olhava para essa comunidade”, reflete Maria Angelita Santos Calixto, artesã que produz esteiras e que vive há 56 anos em Pixaim. 

Maria Angelita Santos Calixto, artesã que vive há 56 anos no Quilombo Pixaim comemora a chegada da energia solar – Imagem: Arquivo Pessoal

Angelita conta que uma das principais dificuldades sem energia, era a preservação de alimentos, que era feita com técnicas utilizando o sal e o sol.  Angelita vislumbra um amanhã mais próspero e sustentável para todos os seus vizinhos. Ela, que agora tem uma geladeira e um liquidificador, deseja adquirir uma TV.

No semiárido, Comitê luta pela implementação de energias renováveis 

No estado da Paraíba, ativistas socioambientais preocupados com a compreensão e promoção de uma fonte de energia solar renovável e descentralizada para a comunidade local, fundaram em 2014 o Comitê de Energias Renováveis do Semiárido (CERSA), sediado na cidade de Sousa. 

O Comitê integra a Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil, e tem o apoio do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social, e de instituições como a organização alemã Misereor e a Cáritas Brasileira.

Além de trabalhar com a implementação do sistema fotovoltaico na região, os ativistas atuam na capacitação das organizações das comunidades paraibanas. “A nossa maior vitória desses nove anos que a gente vem atuando, não foram os 45 sistemas instalados, mas sim os movimentos sociais e as comunidades terem a compreensão e assumirem essa luta”, afirma César Nóbrega, um dos fundadores do Comitê.

César Nóbrega, um dos fundadores do Comitê de Energias Renováveis do Semiárido (CERSA) – Imagem: Arquivo Pessoal

Dona Vânia Lúcia Alves, de 45 anos, agricultora e coordenadora da Unidade de Beneficiamento de frutas da comunidade de Poços de Baixo, na zona rural de Teixeira (PB), é uma das impactadas junto com sua organização pelo trabalho do Comitê. Frente à Cooperativa, que é gerida por mulheres, ela viu a associação de fabricação de polpas de frutas, fundada em 2009, aumentar os lucros com a instalação das placas de energia solar.

“A chegada da energia solar foi uma conquista importante, diminuiu os custos com energia elétrica, incrementou o processo de beneficiamento, sobretudo, no que se refere à redução do custo de produção, possibilitando investir em outros setores da Unidade de Beneficiamento”. A agricultora ainda acrescenta a importância da iniciativa para o desenvolvimento social, sustentável e integrado.

Outro fruto do trabalho do Comitê é a Cooperativa de Compartilhamento de Energia Solar Bem Viver, construída no Centro de Educação Popular e Formação Social, em Matureia (PB). A cooperativa foi inaugurada em janeiro de 2023 e contém 22 associados, entre acadêmicos, professores, engenheiros e ativistas de movimentos sociais. O engenheiro florestal José Anchieta é um dos coordenadores da cooperativa e membro do CERSA, e conta que entre as ações desenvolvidas pelo grupo, está a instalação de um sistema de energia no assentamento Novo Horizonte, no município de Várzea (PB).

Sol que brilha para as Margaridas

A cozinha coletiva As Margaridas está localizada no Assentamento Oziel Pereira, no município de Remígio, também na Paraíba. O nome é uma homenagem à trabalhadora rural e sindicalista paraibana Margarida Maria Alves, uma mulher negra assassinada covardemente em 1983 a mando de latifundiários. “Tem uma frase dela que a gente gosta muito e que nos representa: ‘É melhor morrer lutando do que morrer de fome’”, conta Adilma Pereira, assentada e coordenadora da equipe composta apenas por mulheres.

Adilma Pereira é coordenadora da equipe da cozinha coletiva As Margaridas – Imagem: Elizabeth Souza

O espaço onde hoje funciona a cozinha foi conquistado em 2019 através do Procase (Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Cariri, Seridó e Curimataú) e  surgiu com o intuito de fomentar a autonomia feminina na região. “ É daqui onde tiramos nossa renda sem precisar se humilhar para ninguém”, destaca Adilma. 

Nesse espaço, as mulheres produzem alimentos, como doces, bolos e tapiocas que são orgulhosamente distribuídos para vários locais da região, como as escolas através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Restaurante As Margaridas, onde o grupo de mulheres também vende seus alimentos na região – Imagem: Elizabeth Souza

Em meio ao crescimento das demandas, foi necessário adquirir novos equipamentos e aumentar o consumo de energia, o que antes era um problema. “Aqui usamos máquinas pesadas como liquidificadores e batedeiras industriais, além de filtros, freezers”, explica a coordenadora. Com a instalação das placas de energia solar, o valor da fatura caiu consideravelmente, o que tem possibilitado o investimento em outros maquinários. 

A busca pela energia renovável na localidade foi uma resposta preventiva do Movimento Sem Terra (MST) em meio às investidas empresariais que têm seus olhos voltados para o Polo da Borborema, onde está localizado o município de Remígio. A região tem se tornado um grande atrativo para a implementação das chamadas fazendas solares, o que tem colocado áreas de assentamento em risco.

Placa de energia solar na cozinha As Margaridas – Imagem: Fátima Fonseca
Fazendas solares

Nem tudo são flores em relação à energia solar. Dados obtidos pelo Canal Solar, em parceria com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), indicam que o Brasil possuía 5.141 fazendas solares em abril de 2023, esse número em 2020 era de 861.

Fazenda Solar – Imagem: Reprodução Portal Solar

Para José Anchieta, o uso desse modelo em grande escala pode gerar desequilíbrio ambiental, além de fazer com que famílias sejam removidas dos seus locais de origem. “Essa energia não fica para gente, essa energia vai para as grandes redes. As comunidades locais ficam com os prejuízos dos impactos ambientais. É praticamente uma nova apropriação das terras dos agricultores pelo capital”, reflete o ativista.

José Anchieta é engenheiro florestal e um dos membros CERSA – Imagem: Arquivo Pessoal

Um exemplo disto aconteceu em 2022, em Campina Grande (PB), que fica a cerca de 35 km de Remígio. Dilei Aparecida, Coordenadora do tema das energias renováveis na região Nordeste pelo MST, comenta sobre uma empresa de consórcio civil de Campina Grande, que em parceria com uma empresa espanhola, tentou se apropriar de áreas de assentamento para devastar a região e construir 7 quilômetros de placas de energia solar no território. “Para nós é muito claro que essas fazendas de energia solar, na verdade são usinas”, assevera Dilei. 

Em troca do território, a empresa ofereceu às famílias assentadas um contrato que prometia  algo em torno de R$ 2 mil reais. A partir daí, foi iniciada uma busca por soluções com o objetivo de trazer a energia solar para dentro das localidades, mas através de uma dinâmica que respeitasse a agricultura familiar.

“Fizemos debates com as famílias para que entendessem a situação e estivessem munidas de informações e fomos atrás de parceiros que nos ajudassem, foi aí que conhecemos o Cersa (Comitê de Energia Renovável do Semiárido)”, comenta Dilei. Através dessa parceria entre Cersa e MST, foi elaborado um curso de capacitação para jovens, no Centro de Formação Elizabeth e João Pedro Teixeira, espaço formativo do MST em Lagoa Seca (PB). 

Foi dessa forma que o projeto alcançou o assentamento Oziel Pereira, onde fica a Cozinha As Margaridas, culminando com a instalação da placa em setembro de 2023. Uma corrida contra o tempo na luta pelo território. 

“As grandes empresas que têm buscado instalar as usinas de energia solar deixam um rastro de destruição envolvendo apropriação da água para lavar as placas, apropriação da terra, destruindo o bioma da caatinga e contribuindo com o processo de erosão”, explica Dilei. 

“Nós não somos contra a energia solar, somos contra o uso irresponsável que vem atrelado ao desmatamento, o aquecimento da região e a utilização irresponsável da nossa água. Estávamos ficando só com os prejuízos e eles com o lucro”, finaliza Adilma.

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