Por Angela Figueiredo*

Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Hoje é um dia para comemorar! Precisamos celebrar as vitórias de Danrlei de Oliveira Moreira, vencedor do prêmio Lélia Gonzalez de artigos para alunos/as de graduação na Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Elaine Borges de Souza, que obteve menção honrosa do mesmo prêmioe também de Luana Souza, vencedora do prêmio Mulher Imprensa na categoria jornalista revelação. Os três fizeram a graduação na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), instituição onde exerço a função de professora, modéstia à parte. Essas são histórias vitoriosas, que teriam sido impossibilitas, principalmente, pelo modo como a intersecção entre o racismo, o sexismo e outras categorias de opressão afetam as trajetórias educacionais e profissionais de homens e mulheres negras. O reconhecimento sobre as competências, habilidades, vocações e talentos desses jovens negros/as sequer teriam sido iniciadas, muito menos reconhecidas, se não fossem a expansão e a interiorização das universidades públicas realizadas nos governos federais do Partido dos Trabalhadores (PT), então liderado pelo ex-presidente Lula, e pela implementação da reserva de vagas para alunos e alunas negras, através do sistema de cotas.

A UFRB é exatamente o resultado da política de ampliação das universidades e já nasceu com o sistema de cotas. Localizada no Recôncavo da Bahia, esta universidade é multicampi. O Centro de Artes Humanidades e Letras (CAHL) fica em Cacheira, onde os três premiados estudaram na graduação, uma cidade conhecida historicamente por sua importância econômica durante o período colonial, marcado pelo cultivo da cana-de-açúcar, e se destaca por sua forte e expressiva cultura negra. A UFRB é proporcionalmente a universidade pública federal com o maior número de alunas/os autodeclaradas/os pretas/os e pardas/os e os resultados da democratização do acesso à educação superior estão aí para quem quiser vê-los!

Como a maioria das/os estudantes negras/os, provavelmente esses três jovens são os primeiras de suas famílias a fazerem o curso universitário, rompendo assim um ciclo que perpetua a pobreza e que delega aos homens e mulheres negras os espaços subalternizados no mercado de trabalho. Mas hoje não quero falar das mulheres negras de uma maneira generalizada, eu quero falar de duas mulheres, jovens, negras, lésbica e heterossexual, sujeitas encarnadas em suas histórias, sofrimentos e vitórias, mulheres negras que eu realmente vi de perto.

Para começar, quero destacar que as duas escolheram tratar em suas pesquisas acadêmicas de conclusão de curso, os famosos TCCs, de temas que afetam diretamente o seu cotidiano. Elaine Borges de Souza abordou a trajetória de mulheres negras lésbicas periféricas, como ela, ressaltando o modo como a recusa/rejeição dos pais em aceitar as identidades sexuais de “lésbica” ou “sapatão” tem consequências nas subjetividades, nas personalidades, nos afetos e, inclusive, na trajetória escolar e profissional dessas mulheres, pois muitas são obrigadas a sair de casa cedo e ingressar no mercado de trabalho precocemente, interrompendo, na maioria das vezes, os estudos e sendo inseridas de maneira precária no mercado de trabalho.

Elaine Borges de Souza obteve menção honrosa do prêmio Lélia Gonzalez de artigos para alunos/as de graduação na Associação Brasileira de Antropologia (ABA) – Imagem: Arquivo Pessoal

Já Luana Souza, no seu TCC, tratou do tema da violência contra as mulheres e do afeto ou desafeto que interfere em suas vidas quando ainda são muito jovens, mas também daquelas que permanecem no ciclo da violência. Ela narra as histórias de dor, amor e superação de mulheres de Cachoeira e se inclui como uma delas, considerando que não achava justo falar das outras e não falar de si mesma. Na contramão do afeto é o título do lindo livro resultante de sua pesquisa, publicado em 2021.  

Luana Souzavencedora é vencedora do prêmio Mulher Imprensa na categoria jornalista revelação – Imagem: Divulgação

A escolha por tratar de temas de pesquisa que falam de si tem sido uma marca importante dessa geração de jovens pesquisadoras/es negras/os, que nas suas experiências acadêmicas estão pressionando pela transformação na produção do conhecimento nas universidades. Não somente o gênero, a raça e a classe que são fatores preponderantes, mas também a sexualidade, são elementos determinantes na configuração dessas novas sujeitas na produção do conhecimento.

Essas histórias pessoais se articulam com um movimento coletivo de estudantes negras/os orientadas/os por uma visão do feminismo negro, expresso na demanda por enegrecer a universidade e descolonizar o conhecimento, em que pressionam os professores e professoras a incorporarem na bibliografia dos cursos ministrados autores e autoras negros/as e africanos/as. Elas e eles reconhecem a geopolítica do conhecimento, que historicamente privilegiou e reproduziu o conhecimento hegemônico e eurocêntrico, e rejeitam a continuidade de práticas epistemicidas.

Parece contraditório, mas ao colocar no centro as suas histórias, elas e eles têm contribuído de diferentes formas para a compreensão de realidades que antes eram silenciadas, e assim têm ampliado perspectivas epistemológicas. De fato, nem mesmo os maiores opositores às cotas foram capazes de imaginar essas transformações da perspectiva da produção do conhecimento e do reposicionamento dos sujeitos e sujeitas negras.

*Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), coordenadora do Coletivo Angela Davis e integrante do Fórum Marielles.