Por Lorena Machado Gonçalves*

A crise do novo Coronavírus veio para escancarar a  profunda fenda dentro do sistema capitalista, que já se mostrava feroz para quem  sempre se encontrou às margens da sociedade. Agora com o caos em caráter mundial, o Covid-19 apresenta as fragilidades dos sistemas de pessoas que achavam imbatíveis dentro de suas redomas mantida com dinheiro e exploração de outros setores, mostrando mais uma vez as contradições desse sistema de manutenção da vida. Todas e todos  se viram forçados a mudar sua estratégia de vida, suas estratégias de negociações e suas estratégias de produção em tempos que a maior vacina contra o vírus é ficar em casa. Entregadores de serviços por aplicativos são um dos grupos elegidos para promover comodidade, infelizmente sem a preparação necessária para enfrentar o inimigo invisível.

Pesquisas estadunidenses já mostram o maior grau de letalidade do vírus em pessoas negras por conta da situação de vulnerabilidade histórica. Em estados como a Louisiana, 70% das mortes são de pessoas negras, que compõem 33% da população. Daí a grande importância de racializar os debates, entendendo de maneira objetiva os impactos da pandemia em grupos minoritários e a urgência de assistência a essas pessoas.

No Brasil, há diversas restrições para evitar aglomerações e a propagação ainda maior do vírus no país, infelizmente comandado por um presidente genocida que se move para agenciar a economia mais do que para tomar conta das vidas humanas. Por algum momento aparentemente eles esquecem que pessoas mortas não trabalham. Enquanto isso, a situação dentro das favelas brasileiras não poderia ser mais desesperadora. Além de traçar estratégias de proteção contra o vírus, há uma constante luta contra as falsas informações que chegam e se espalham de uma forma muito perigosa, realçando a importância de um jornalismo comunitário comprometido com informação acessível e de qualidade. E como fazer para que as pessoas que trabalham diretamente com a rua, com contato social fiquem dentro de suas casas? A quantidade de perguntas que emergem vão além do que posso discorrer, e aqui compartilho algumas das minhas angústias.

N’outro dia estava lendo sobre a guerra do Paraguai (1864 – 1870) e foi impossível não lembrar de diversas situações contemporâneas. Durante um período, negros escravizadas foram “libertos” pelo governo para servir ao Brasil durante esse grande conflito. É assombroso ver como essas pessoas foram elegidas para os pontos de batalha saindo diretamente de uma condição desumana  para defender um país que lhes negava o direito de ser cidadão. Um grande contingente de pessoas negras, inclusive da Bahia, foi levado para a guerra do Paraguai, uma guerra sangrenta que deixou baixas imensas em ambos os lados. Essas pessoas já viviam os horrores da escravidão e tiveram que lutar para defender aqueles que lhe sequestraram de sua terra natal, proibiram suas línguas, lhes afastaram de seus afetos e a todo custo tentaram tirar sua humanidade. Agora de maneira tão abrupta teriam que servir no campo de batalha de um lugar desconhecido, entregue a uma nova atividade a qual não tinham muitas vezes nenhum tipo de conhecimento ou instrução.

Faço aqui em uma analogia com a grande maioria dos entregadores de serviços por aplicativos nesse país, um dos novos grupos elegidos ao arriscado campo de batalha de manutenção do mundo frente ao coronavírus.

Uma pesquisa Da Aliança brasileira do Setor de Bicicletas, localizada em São Paulo,  traçou o perfil dos entregadores ciclistas de aplicativo. Essa pesquisa foi feita em 2019 e apresenta em 2020 dados que mostram vários níveis de desigualdade. Segundo a pesquisa, 99% dos entregadores são do sexo masculino, 71% se declaram negros (entre pretos e pardos), mais 50% têm entre 18 e 22 anos e 75% ficam conectados até 12 horas seguidas para o ganho mensal médio de  R$ 992, 00, valor abaixo de um salário mínimo.

Com a pandemia do coronavírus e a recomendação preventiva de ficar em casa, muitos desses aplicativos e entregadores passaram a receber uma demanda maior, sendo expostos a um maior trânsito de pessoas consequentemente a um maior perigo. Essa tendência da “uberização do trabalho” não é nova, cada vez mais capta “colaboradores” que estabelecem uma relação totalmente informal e sem vínculos empregatícios com as empresas, que expõe a variados riscos quem por falta de opção elege como fonte de renda essa prestação de serviço.  Essas pessoas trabalham em um sistema que as condiciona a ficar o tempo todo ligadas ao aplicativo, colocando a sua vida em risco ao utilizar o celular e a bicicleta  ao mesmo tempo.

Retomando o paralelo com a Guerra do Paraguai, não posso deixar de observar como o tempo promove uma mudança de meios, porém, com os mesmos hábitos e os mesmos corpos tombados. Por detrás da comunidade de home office na espera da sua entrega em casa, há seres humanos trabalhando. Quem auxilia essa massa de jovens, em sua maioria negros, quem faz com que essas pessoas tenham um mínimo de segurança, álcool gel, ou condições mínimas para que as entregas sejam realizadas?

Dentre muitas angústias geradas por esse contingente de problemas na realidade brasileira, é afligente dizer “fique em casa” para pessoas que não tem uma, ou dizer “lave bem as mãos a todo momento” quando não há nem água suficiente para beber. É também angustiante saber que pouca coisa mudou sobre quem são os recrutados para defender um país que não demonstra menor apreço pelas vidas, pelas suas potências. Que nega seus legados, suas produções e toda contribuição para o desenvolvimento desse país, em absolutamente todos os nichos. Aflige-me a constante negação de energia criativa de quem sempre sobreviveu contra as estatísticas, se reinventando a cada dia, tudo isso em nome de um projeto econômico cruel e hierarquizado, e que mais uma vez se mostra insustentável.

O Brasil nega o mínimo de cidadania aos mais pobres, é cruel que esses sejam os primeiros a serem sacrificados, como prega os que querem que tudo volte a perfeita falsa normalidade. Para esses entregadores, há pouca ou nenhum tipo de assistência num trabalho que já era precarizado e inseguro. A “lei do algoritmo”, que já os fazia refém antes, aprofunda mais os seus mecanismos para continuar a explorar uma classe. Trata-se de jovens negros que, com poucas alternativas de manutenção de suas vidas e já ameaçados por um estado omisso, agora se encontram ainda mais vulneráveis e a serviço de um suposto progresso do país que ainda lhes nega o mínimo. As plataformas de serviços apresentam um mágico discurso de flexibilização e comodidade, mas a que custo e de quem?

No meio de situação onde valas comuns estão sendo abertas e grande carreatas com carros do ano pede que trabalhadores voltem a se espremer em ônibus lotados, fica claro que trabalho com dignidade nunca foi projeto para os entregadores e nem pra quem faz esse país se mover, nós, das margens.

 

*Lorena Machado Gonçalves é soteropolitana, tem 22 anos, é Bacharel em Humanidades pela UFBA e cursa Serviço Social na mesma Universidade. É pesquisadora bolsista na área de Psicologia do Desenvolvimento Humano com foco em adolescentes e jovens adultos pela UFBA. Entusiasta de temas ligados a direitos humanos e estudos de gênero e raça.

 

Foto de destaque: Tiago Queiroz – Estadão

Fontes consultadas:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/guerra-do-paraguai-da-senzala-ao-front-de-batalha.phtml

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141995000200015

http://aliancabike.org.br/wp-content/uploads/2020/04/relatorio_s2.pdf

http://aliancabike.org.br/pesquisa-de-perfil-dos-entregadores-ciclistas-de-aplicativo/

https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/03/19/como-o-coronavirus-vai-impactar-o-mundo-das-entregas-online.htm

https://www.brookings.edu/blog/fixgov/2020/04/09/why-are-blacks-dying-at-higher-rates-from-covid-19/

https://www.nytimes.com/2020/03/19/nyregion/coronavirus-nyc-delivery-workers.html

Documentário GIG- a uberização do trabalho

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/04/15/O-impacto-do-racismo-estrutural-nas-mortes-por-covid-19