Por Crislayne Zeferina*

Os desafios que as comunidades periféricas vêm enfrentando nos últimos tempos ressaltam as desigualdades sociais e econômicas de forma nítida. Falar do COVID 19 nas periferias tem sido um desafio que os coletivos e as organizações sociais resolveram encarar. Uma vez que pensar no povo e no vírus é pensar em combater a fome, e rápido, pois a fome não espera a burocracia do poder público.

O número de pessoas contagiadas pelo vírus no Território do Bem só cresce. O Território do Bem composto por nove bairros em vulnerabilidade social na cidade de Vitória capital do Espírito Santo. Os ativistas sociais preocupados com mais de 31,5 mil habitantes buscam, todos os dias, um território humanizado e alimentado.

As dificuldades apresentadas por moradores/as das periferias se perpetuam em todas as comunidades periféricas do Brasil. É sempre o mesmo relato: “não temos água, não tenho alimentação, o gel é caro, não tenho internet, não tenho TV e não posso ficar sem trabalhar meus filhos tem fome”. Para muitos isso é um absurdo, mais para outros isso é a realidade. Vivemos no mesmo país, muitas vezes no mesmo bairro e não notamos que a rua de trás da nossa está sem os acessos que conseguimos ter.

O Brasil é um país desigual, onde as pessoas em vulnerabilidade, moradoras das periferias e pretas movem a economia, mas não fazem parte do benefício que é gerado. O que essas famílias recebem são migalhas de uma pátria que esqueceu dos seus filhos que moram nos morros.

Entender essa realidade neste momento de crise é um dos principais fatores para entendermos que a vida viva, é uma vida alimentada e cuidada. A política de assistência e habitação nunca foi tão necessária em um país que o número de pessoas em condições de extrema pobreza só cresce. Como os coletivos vão ensinar higiene de mãos para uma população que não tem acesso a água encanada?  Como falar de cuidados básicos de saúde se não há nesses espaços condições mínimas de sobrevivência? Como pensar em estudar em casa se muita gente não tem acesso a internet e muito menos um local adequado para estudar? Como pensar em isolamento social se moramos em uma casa pequena com mais de dez pessoas? Como pensar em isolamento se temos que alimentar nossas famílias? Dá para lavar as mãos sem água?

Acredito que nesse momento em que o tempo é inimigo e a burocracia impede a rapidez é preciso que pessoas ajudem pessoas e isso se dará somente com a coletividade, o aquilombamento, a empatia, a construção de redes e a solidariedade, pois assim conseguiremos diminuir o número de violações que gritam nos becos e nas vielas das nossas comunidades.

 

 

*Negra, Jovem, Pedagoga social. Primeira Mulher Negra Favelada que Preside o Conselho Municipal de Juventude de Vitória representando a sociedade civil, Conselheira do Conselho Estadual de Juventude, Presidenta do Fórum Estadual de Juventude Negra do ES – FEJUNES, Coordenadora Nacional da Juventude da Nova Frente Negra Brasileira – NFNB, Líder da Pastoral da Criança no Território do Bem,  integrante do coletivo Crias Daqui, idealizadora e membra do coletivo beco,  Membra do Br Cidades, Articuladora e mobilizadora de projetos sociais para as periferias, gestora de projetos sociais para as comunidades periféricas e fomentadora de criação de coletivos periféricos. Meu nome social deriva da rainha Zeferina, que foi uma mulher quilombola de Salvador que lutou pelo fim da escravidão, para ela o quilombo era um princípio libertador, a mesma foi organizadora de grandes guerras para o fim da escravidão.