Por Luana M. Souza*/ Imagem: Joel Raedle (AFP)

 

Enquanto é decretado no mundo estado de calamidade devido a pandemia da covid-19, que tem matado milhares de pessoas, algumas questões tem me feito revisitar os pensamentos da intelectual negra brasileira, Lélia Gonzáles, que esteve atenta às inúmeras questões que permeia a trajetória negra no país e denunciava o regime opressivo que ataca homens negros e silencia mulheres negras. Não sou infectologista, epidemiologista, nem nenhuma profissional da saúde. Sou mulher negra, jornalista e pesquisadora, razões que me levam a escrever a partir dessas identidades que atravessam a minha existência.

Para começar gostaria de escurecer o fato de que, apesar de as recomendações dos órgãos de saúde primarem pelo isolamento social como medida primordial de prevenção e controle à proliferação da doença, sou uma das/os muitas/os negras/os que fazem parte dos grupos de profissionais “essenciais” que precisam estar nas ruas, trabalhando e, consequentemente, acompanhando tudo de perto (ou quase isso). Por outro lado, assisto o desespero de inúmeras/os irmãs/os que, além de se preocuparem com mais uma doença que ameaça suas vidas – assim como o Estado que segue na sua cola –, precisam lidar com a dor de não ter o que comer e o grito do guri clamando por um pouco de alimento que sacie sua fome. Enquanto isso, do outro lado, moradores de bairros nobres usufruem da quarentena em seus apartamentos lotados de alimentos estocados. Para uns, as lives, contas pagas e o home office asseguram a tranquilidade de não precisar sair de casa. Ao contrário da realidade que cerca milhares de negras e negros dependentes do trabalho informal e doméstico. O que sobrou em seus lares foram o desemprego e o risco de contrair a doença.

Trago essas questões porque recentemente, quando atuava como repórter de rua, entrevistei uma mulher negra que aguardava a sua vez na fila de uma instituição de saúde que distribuía cestas básicas para familiares dos seus pacientes. A intenção da entrevista era expor a importância da solidariedade neste momento de aflição. Em sua fala, a mulher explicou que estava ali porque desde que havia sido despedida por seus patrões devido ao isolamento social, não conseguiu mais nenhum “bico” de faxineira (o que garantia o sustento da sua família). Desde a demissão, sem benefícios ou coisa alguma que assegurasse o pão na sua mesa, sua vida tem sido acordar e ver seus filhos pedindo algo para comer enquanto a geladeira permanece vazia. Falava com lágrimas nos olhos, tentando entender porque aquela situação estaria acontecendo consigo.

Esta mulher, assim como muitos outros irmãos, é exemplo de que o racismo não dá sossego, nem em um momento como este no qual a pandemia e os discursos em torno dela tentam nos dizer que a doença ataca qualquer ser humano, independente de raça e classe social – maquiando a realidade de exclusão da população negra, como já apontava Lélia em 1984. Ao questionar “cumé que a gente fica?”, a intelectual brasileira denunciava o descaso com as mulheres negras numa sociedade racista e excludente. Reproduzo este questionamento para tentar encontrar respostas para a fome que assola as crias dessa mãe e de tantas outras pretas que estavam aguardando uma cesta básica na fila da instituição. Uma fome que carrega na ausência de recursos financeiros a bagagem do racismo que se reinventa e se aproveita de situações como esta para fazer a manutenção do seu regime genocida.

E cumé que a nossa gente fica?

Estar diante do caos que se instalou no Brasil em um contexto político que não favorece quase ninguém, apenas uma minúscula parte da população conservadora, racista e privilegiada, obriga-nos a pensar estratégias de enfrentamento aos males que fortalecem ainda mais as dores que a nossa gente carrega, afinal, “a primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo é que todo mundo acha que é natural. Que negro tem mais é que viver na miséria” (GONZÁLES, 1984). Mas, o que e como pensar qualquer coisa quando sequer se tem estruturas mínimas para sobreviver?

Para reforçar ainda mais a minha escrita trago dados divulgados pelo Ministério da Saúde comprovando que o coronavírus é mais letal para a população negra. Embora a pesquisa aponte que negros representam cerca de 1 em cada 4 pacientes internados com problemas respiratórios provocados pela doença, o mesmo estudo mostra que nós estamos mais propensos à morte frente ao vírus. E nem quero me debruçar na reflexão sobre a primeira vítima, uma mulher negra, trabalhadora doméstica que contraiu a doença de seus patrões e estes permanecem vivos.

Essas questões só nos mostram que a experiência negra em território brasileiro ainda é marcada pelo controle social que, à sua forma, determina quem deve/pode aderir ao isolamento social e quem deve morrer, aquilo que Achille Mbembe chamou de necropolítica. É uma realidade comum em diversos países onde as desigualdades raciais ainda persistem na sociedade. E como proteger a nossa periferia da proliferação desse vírus se até saneamento básico é negado a nossa gente? Quando e quem vai isolar o racismo e nos deixar respirar aliviados? Creio que as respostas para essas perguntas caminham distantes da nossa realidade, tendo em vista que ainda vivemos em um país que se preza à vergonhosa falácia da democracia racial. E a pandemia, por sua vez, tem reforçado ainda mais a vulnerabilidade de pessoas negras.

Neste contexto, resgato uma frase que sempre trago comigo, quase um mantra: “ainda temos muito a aprender com os nossos ancestrais”. Sempre que repito essas palavras é porque reconheço, no terreno pisado, o quão difícil é distanciar os nossos corpos dessas armadilhas implantadas pelo sistema colonialista. A nossa existência continua servindo como mercadoria barata e romper com essas estruturas significa derramar mais sangue. E quem vai pagar a conta no final? Quantos corpos no chão serão precisos para que o mundo enfrente, além dessa pandemia viral, a pandemia racial que se une a tantas outras para continuar nos fazendo vítimas?

Não dá para fazer vista grossa ao trabalho coletivo que muitos irmãos têm realizado a fim de ajudar quem mais precisa nas suas comunidades. Esses corres que tenho observado ao longo do meu trabalho e dia-a-dia nas ruas mostram que aprendemos muito bem sobre irmandade, acolhimento, sobre cuidar dos nossos. Contudo, ainda são medidas que agem apenas como um paliativo para uma ferida que é muito maior e a cicatrização depende de um medicamento que não está em nossas mãos, tampouco a nosso alcance.

Entretanto, possuímos uma das armas potentes que pode desestruturar esse cenário de opressão: a nossa voz. Sabemos, melhor do que ninguém, que em determinados contextos o silêncio é ensurdecedor para os nossos. Mas, ao erguer a voz, como reitera bell hooks (2019), estamos resistindo às facetas das opressões que nos condenam ao pior que há no mundo. A fala ativa nos conduz à transformação, é quando deixamos de ser objetos e passamos a ser sujeitos da nossa própria narrativa. Não sei até que ponto o eco das nossas dores conseguiria desestabilizar nossos opressores. Talvez, não consigamos avançar mais do que conseguimos com o coronavoucher e outras medidas reparadoras nesse cenário. Porém, sigo acreditando no poder da coletividade e nos corres diários, por nós.

Por fim, quero dizer que este texto é, sobretudo, o compartilhamento de inquietações e perguntas que têm norteado a minha “não quarentena” e, quiçá, esteja longe de conseguir as respostas exatas. Entretanto, torço para que sirva de reflexão, principalmente para quem pode desfrutar do isolamento social sem sentir fome e sem ter sua existência ameaçada pelo descaso. Que o nosso SUS resista a ponto de acolher os nossos. Que os nossos sobrevivam à pandemia e, como sempre, às mazelas do racismo e outros ismos que têm se cruzado e feito sangrar ainda mais.

 

* Jornalista. Mestranda em Cultura e Identidade (UFBA). Filha do Recôncavo Baiano, das águas de Cachoeira. Atualmente, mora em Salvador onde estuda e trabalha como repórter. É uma das escritoras do livro Negras Crônicas, publicado em 2019 pela Editora Villardo, e autora de “Na Contramão do Afeto: histórias e trajetórias de mulheres negras”, um livro-reportagem apresentado como trabalho de conclusão de curso na graduação e que será publicado em outubro de 2020 pela Editora Pinaúna.

 

 

Referências citadas

https://www.abrasco.org.br/site/noticias/saude-da-populacao/letalidade-da-covid-19-na-populacao-negra-pauta-debate-sobre-raca-e-desigualdade-social-na-imprensa/46775/

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/11/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luis Augusto. ANPOCS, 1983. (ciências sociais hoje, nº 2).

hooks, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. São Paulo: Editora Elefante, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. 3. ed., São Paulo: n-1 edições, 2018.