Por Elizabeth Souza

Imagem: Portal Catarinas

A luta por mais mulheres na política institucional é uma realidade no Brasil, visto que o ambiente ainda é dominado por homens, em sua grande maioria brancos. No entanto, quando conseguem acessar esses postos, elas ficam reféns dos mais diversos tipos de violência e ainda não existem garantias que evitem essas situações. 

Os casos recentes envolvendo oito parlamentares vítimas de ameaças de estupro “corretivo” através de emails institucionais escancara essa realidade. Dentre os crimes, falas racistas e ameaças contra uma criança de três anos, filha de uma das parlamentares , também foram utilizadas para propagar o medo e o silenciamento 

Os ataques foram contra a deputada federal Daiana Santos (PCdoB-RS), as deputadas estaduais Rosa Amorim (PT-PE), Bella Gonçalves (PSOL-MG), Lohanna França (PV-MG) e as vereadoras Mônica Benício (PSOL), do Rio de Janeiro, Talita de Lima Barbosa (PSB), de Taubaté (SP); Cida Falabella (PSOL) e Iza Lourença (PSOL), todas duas de Belo Horizonte. Em um mesmo período de tempo foram enviadas ameaças de tentativa de estupro com o objetivo de uma“cura lésbica” das vítimas, que são mulheres LBTs e aliadas à luta LGBTQIA+. Outro modo que os criminosos encontraram de tentar intimidar  as parlamentares foi através da divulgação de dados pessoais, como endereços e informações sobre pessoas próximas. 

A vereadora por Belo Horizonte Iza Lourença também recebeu ameaças de estupro contra a sua própria filha, uma menina de apenas três anos. “Recebi seis ameaças ao todo em uma semana”, conta Iza que diz ter recebido primeiramente uma ameaça de estupro “corretivo” no mesmo período que sua correligionária Cida Falabella (PSOL), no dia 14 de agosto. No dia 18 do mesmo mês a parlamentar recebeu mais quatro ameaças que também continham teor racista. “Vou te estuprar e matar, sua macaca. Vou entrar na Câmara Municipal e atirar em todos os macacos”, foram os ataques proferidos.

“Eles fizeram uma pesquisa maior sobre a minha vida, tinha o nome da minha filha de apenas três anos, que também recebeu ameaças de estupro.”

As ameaças também foram direcionadas à deputada federal Daiana Santos, que relata ter vivenciado outros episódios de violência anteriormente . “Recebi uma ameaça de estupro “corretivo” via e-mail no dia 14 de agosto. Essa não é a primeira vez que eu sou ameaçada, já recebi inúmeras mensagens, muitas de caráter lesbofóbico, outras de morte diretamente. Inclusive, mencionando o meu endereço em Porto Alegre”, comenta a deputada se referindo ao que ocorreu durante o seu mandato de vereadora, entre dezembro de 2021 e março de 2022. A deputada estadual por Pernambuco Rosa Amorim lançou nota denunciando os crimes cometidos nas diversas regiões do país contra as parlamentares. “Diversas deputadas em todo o país vem recebendo ameaças assim como a que eu recebi, o que demonstra resquícios da política de ódio que vem sendo praticada desde o governo Bolsonaro. Não vão nos impedir de sermos quem somos ou lutar pelos nossos direitos e nem de toda a comunidade LGBTQIAPN+”

De acordo com informações da assessoria de Rosa Amorim, a petista já fez um boletim de ocorrência esta semana “para que sejam tomadas as medidas cabíveis no combate a crimes cibernéticos como este”. 

Posicionamento também partilhado pelas demais parlamentares, que afirmam permanecer na resistência por um ambiente político seguro para todas as mulheres e em busca da promoção dos Direitos Humanos. “Esse combate que a gente tem à extrema direita, a nossa atuação feminista, antirracista e pela defesa das pautas LGBTs acredito que foi o que motivaram essas ameaças, que são repletas de conteúdo misóginos, lgbtfóbicos e racistas”, diz a vereadora Iza.  

A parlamentar informa que há um inquérito aberto  pela Polícia Civil, além de ter realizado reuniões com o Ministério da Justiça, da Igualdade Racial, das Mulheres e dos Direitos Humanos para tratar o assunto.“O intuito dessas ameaças é exatamente nos intimidar e fazer com que a gente recue na política, mas não darei nenhum passo atrás, muito pelo contrário, ei de lutar por justiça. Precisamos de uma força-tarefa no Brasil para encontrar essas pessoas que nos ameaçam e desfazer esses grupos de ódio”, complementa a vereadora. 

“Ser uma mulher negra, lésbica e defensora dos direitos humanos é ser um constante alvo de violência”, pontua a deputada Daiana. A parlamentar informou ter realizado protocolo da Notícia Crime na Delegacia de Combate a crimes de Discriminação do Distrito Federal (DECRIN). Além disso, solicitou reforço de segurança para via Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal. O Ministério Público Federal também apura o caso.