Redação Afirmativa
Talvez você não tenha visto no noticiário ou lido na timeline das suas redes sociais, mas o comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) que liderou a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro (RJ) foi recentemente promovido ao posto mais alto da Polícia Militar.
Marcelo Corbage, apontado como um dos principais responsáveis pela megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025, foi promovido a coronel por ato de bravura. A ação deixou 122 mortos e consolidou mais um capítulo da política de guerra implementada nas favelas fluminenses.
A promoção não é um fato isolado. Ela carrega uma mensagem política, institucional e simbólica sobre quais práticas o Estado brasileiro escolhe reconhecer, premiar e transformar em exemplo. Um ponto de questionamento é: por que essa promoção não foi divulgada amplamente na mídia hegemônica?
Quando um comandante é promovido após liderar uma operação marcada por números incompatíveis com qualquer parâmetro democrático de segurança pública, o Estado sinaliza que a letalidade segue sendo compreendida como eficiência contra corpos negros e favelados.
Mais do que isso: a promoção acontece meses depois da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovar a recriação da chamada “gratificação faroeste”, mecanismo que de 1995 a 1998 concedeu bônus salariais para policiais civis envolvidos na morte, chamada de “neutralização”, de suspeitos durante operações. Décadas depois, a proposta retorna com nova roupagem burocrática, mas preservando a mesma essência: transformar corpos mortos em critério de produtividade estatal.
Embora o governador Cláudio Castro tenha vetado a medida posteriormente, o simples fato da proposta ter sido aprovada por ampla maioria na Alerj revela muito sobre o projeto de segurança pública em curso no Rio de Janeiro.
As operações mais violentas da história do Rio de Janeiro têm CEP, cor e classe social definidos. Jacarezinho, Vila Cruzeiro, Alemão, Penha, Fallet-Fogueteiro. Em comum, territórios historicamente abandonados pelo poder público e tratados como zonas permanentes de exceção (e execução).
Ainda assim, o que veio depois não foi responsabilização, investigação profunda ou revisão das práticas policiais. Veio promoção.
No discurso oficial, fala-se em combate ao crime organizado, apreensão de armas e enfrentamento às facções. Mas o debate público não pode ignorar uma pergunta fundamental: qual é o limite de um Estado que transforma chacinas em vitrine de eficiência? Em qualquer democracia consolidada, uma operação com 122 mortos provocaria crise institucional, investigações independentes e questionamentos severos sobre uso proporcional da força. No Rio de Janeiro, o saldo vira medalha, promoção e tentativa de gratificação.
Isso produz efeitos concretos sobre a vida da população negra.
O impacto dessa lógica não se restringe às estatísticas. Ele atravessa o cotidiano de mães que enterram filhos, crianças que crescem sob helicópteros blindados, escolas fechadas por operações e moradores submetidos à rotina do medo.
Enquanto isso, setores políticos seguem apostando no endurecimento policial como plataforma eleitoral, mesmo diante das evidências de que operações letais nunca resolveram a crise da segurança pública, vide 94% dos brasileiros classificando suas cidades violentas, enquanto apenas 47% se sentem seguros no bairro onde moram, segundo pesquisa encomendada pelo Instituto Sou da Paz e realizada pela OMA Pesquisa.
Publicado na última terça-feira (19), o levantamento revela que apenas 20% da população concorda com a afirmação “bandido bom é bandido morto”. Além disso, 82% dos entrevistados são favoráveis ao uso de câmeras corporais nas fardas policiais e 65% acredita que “é preciso uma polícia melhor e mais preparada”. A pesquisa ouviu 1.115 pessoas em 40 municípios de todas as regiões do país em novembro de 2025.
A promoção de Marcelo Corbage não pode ser analisada apenas como um ato administrativo interno da Polícia Militar. Ela representa a consolidação de uma política de segurança baseada na lógica do inimigo, na militarização dos territórios negros e na legitimação da morte de pessoas negras como ferramenta de gestão social.
Se a sociedade naturaliza promoções após chacinas e tolera projetos que remuneram mortes, o risco é aprofundar ainda mais a distância entre democracia formal e realidade concreta nas periferias brasileiras. Porque quando o Estado decide premiar quem mata, o alvo já tem cor.


