Nós já temos tantas privações, e perderemos tantas vidas, então, por que não utilizam nossos dados pessoais na internet, já sob posse de conglomerados como Google e Facebook, para controlar o vírus, como a China tem feito?

Por Pedro A. Caribé

No meio de lives e links nos deparamos com um país onde, talvez, a maioria da população não tenha acesso à internet neste momento para falar com amigos e familiares, estudar, assistir uma série, comprar e vender coisas, e, o mais grave: conseguir o pão de cada dia.

É um país desconectado para obter os recursos de seguridade social, e a priore, a maioria destas pessoas é negra, mesmo sem dados assertivos, porque as pesquisas voltadas à questão, sob responsabilidade do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGi.BR), ignoram há anos as estatísticas raciais.

Tal apagamento digital tem muito a ver com as políticas neoliberais adotadas na década de 1990, e perpetuadas nos anos seguintes, ao manter o modelo de privatização dos serviços de comunicação.

Todavia, aqui gostaria de enfatizar uma outra dimensão da internet que temos que nos preocupar, e entender, como ela afeta e vai afetar nossa vida no futuro, e dita nossas vidas: o acesso e uso de nossos dados pessoais, ou melhor, a privacidade.

Não tenho conhecimento (ainda) de nenhum artigo ou posicionamento de alguma entidade ou político brasileiro sobre este pilar do direito à comunicação nos dias de hoje. Há um silêncio aqui sobre o caso do governo Chinês que controla o Covid-19 utilizando abertamente as informações de cada indivíduo, presente nos seus aparelhos celulares. Eles identificam os contatos que uma pessoa infectada teve, e evitam que aqueles sem garantias de estarem sem o vírus tenham contato com outras pessoas.

Creio não ser novidade para quem lê isso aqui, mas não é só na China que se sabe onde você foi, o que comeu, com quem esteve, o que comprou, e muitas coisas mais. Então, por que os EUA, e os países que utilizam as redes e aplicativos dos dois principais conglomerados, Google e Facebook, não assumem ser possível fazer o mesmo para enfrentar, talvez, a maior crise da história moderna?

Nós já temos tantas privações, e perderemos tantas vidas, então, por que não se faz o que já é feito? Vale a pena abrir mão de vez? As perguntas têm um tom de provocação, e também de dúvidas sobre a complexidade do tema.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem sinalizado apoio à cooperação com as as gigantes da tecnologiaNa Europa a cautela foi para as cucuias, e as operadoras de celular já estão compartilhando dados com as autoridades de saúde.

Nos EUA o debate avança, Apple e Google estão marchando lado a lado, e dado a palavra ao Congresso que não vão utilizar os dados com fins comerciais. Dia a dia, o tom editorial é de mais otimismo do que desconfiança, mesmo em veículos tão díspares como o Washigton Post e o Bloomberg.

No Brasil, receio que o atraso em trazer o tema para um país colonizado, inclusive nas organizações da sociedade civil, esteja mais próxima de uma dificuldade de lidar com a possibilidade de uma relação não demagógica com as lógicas dos conglomerados informacionais, e a defesa de um modelo público-estatal para internet.

Vale imaginar que tal tragédia estimule mais países a terem num futuro próximo que criar ou gerir as suas próprias redes a fim de monopolizar as informações de cada cidadão. Isso pode significar a derrocada da base econômica do Vale do Silício, e junto com ele, o complexo militar e a influência política e cultural dos EUA.

Veja, esta imaginação não significa que a ideia idílica de aldeia global vai cair por terra. A internet continuará a existir; você poderá falar com alguém da China de mil outras maneiras, e até uma rede social como o Facebook pode modificar o seu modelo de gestão, e quem sabe, vivermos menos em ambientes restritos, as tais bolhas.

Longe da imaginação, a disputa por dados pessoais está sendo travada entre os EUA e a China há algum tempo. No biênio 2018/2019 o conflito entre ambos foi disparado frente o crescimento de aparelhos móveis deste gigante asiático, como a marca Xaomi, que vêm acompanhada por novos mecanismos de gerenciamentos de dados. Já no meio da pandemia da Covid-19, o órgão regulador dos EUA, o FCC (Federal Communications Commission), liberou uma operadora de cabos subsidiária da Google a expandir-se para Ásia a fim de bloquear o acesso chinês aos mercados dos EUA .

Por fim, lavar as mãos, usar máscaras, e até ter acesso a medicação, são coisas de séculos passados para lidar com um vírus e dinâmicas demográficas do século XXI. Daí que chinos e anglo-saxões tendem a ter as suas vidas salvas, entre outras coisas, ao ter geração e gestão dos seus dados pessoais. Enquanto isso, países africanos, e no Brasil, os bairros populares e a zona rural, territórios de maioria negra, com baixos índices de conexão à internet, tendem a ter maior dificuldade de fugir da pandemia.

Somado ao apagamento digital, cabe pensar enquanto população brasileira, e negra, como lidar com o maior acesso aos nossos corpos e mentes frente a inexorável quebra da privacidade. Aos sobreviventes, um novo mundo vem por aí, e um dos desafios é assumir a governança da internet a fim de enfrentar velhos problemas como o roubo dos nossos conhecimentos, a cooptação dos movimentos políticos, e a vigilância do Estado.

Também pensar quais são os nossos valores éticos de cuidado e acesso à vida do outro que pensamos num modelo público-estatal. Só não é uma boa negar que a apropriação das tecnologias e outros bens de consumo são caminhos para construirmos uma outra globalização.