Por Jamile Novaes
Em entrevista recente ao programa RedCast, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) disparou absurdos racistas e misóginos que reafirmam sua atuação contrária aos direitos da população negra, das mulheres, da comunidade LGBTQIA+ e de qualquer grupo social que não seja composto por homens brancos cisgêneros e heterossexuais.
Em dado momento da entrevista, ao contar uma história da época em que cursava Direito, o deputado bolsonarista defendeu que estereótipos existem e associou pessoas “pardas e negras” à criminalidade. “Você vai pensar num bandido e talvez venha aquilo que tá na sua mente mesmo… Até a representação da própria esquerda sobre isso são pessoas pardas ou negros. Aí você tá querendo dizer que minha cabeça é preconceituosa pelo primeiro pensamento que eu tive?”, questionou.
Embora não surpreenda a mais ninguém, as falas de Nikolas são extremamente perigosas vindas de um parlamentar cuja função é propor e aprovar leis em um país onde 56,4% da população é composta por pessoas negras, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O argumento do deputado se apoia no conceito equivocado de determinismo biológico, que defende que os genes humanos são definidores absolutos de características e comportamentos sociais. Durante muito tempo, esse conceito foi a base do movimento eugenista, que buscava promover o branqueamento da sociedade brasileira através da miscigenação, do incentivo à imigração de estrangeiros brancos e da esterilização em massa das mulheres negras e indígenas.
Mesmo que a pseudociência eugenista tenha perdido força no país, a ideia de que pessoas negras seriam naturalmente inferiores, menos inteligentes e propensas ao crime ainda é a base de sustentação do racismo institucional que opera sobre corpos negros e viola direitos humanos básicos. É essa crença que nos empurra para os piores indicadores de desigualdades, limita os nossos acessos e nos coloca na mira de uma polícia sedenta por sangue negro.
Não é a primeira, nem a segunda e, provavelmente, não será a última vez que Nikolas se utiliza do seu cargo e visibilidade pública para propagar discursos discriminatórios que ferem a dignidade humana e abrem espaço para ataques massivos contra mulheres cis e trans e pessoas negras. Ora, se um deputado devidamente eleito e empossado, com a responsabilidade de fiscalizar o governo e defender os interesses da população, se sente à vontade para ofender, ridicularizar e disseminar ódio, sem sofrer consequências, o que impede um cidadão comum de fazer o mesmo?
A única e perigosa diferença é que Nikolas tem à sua disposição as ferramentas institucionais que lhe permitem intervir de forma direta nas condições de vida da população. É mais preocupante ainda observar que ele não é o único parlamentar que perdeu o pudor em adotar condutas criminosas e lutar contra os direitos de maiorias vulnerabilizadas.
Ser racista, misógino e transfóbico não deveriam se tornar “estereótipos” de um parlamentar, mas essas práticas têm se repetido com tamanha frequência que cabe questionar a normalização do preconceito e da violência no interior das instituições políticas brasileiras. Enquanto esse tipo de postura não for enfrentada com a devida seriedade, a sociedade seguirá pagando o preço pelo retrocesso e pela conivência institucional que permite que as opressões operem em favor de um projeto político nocivo e, muitas vezes, letal.

