Co-vereadora Gleide Davis (PSOL) e Mãe Jaciara opinam sobre intenções do projeto; oposição tenta articular ementa para barrar a denominação das Dunas para ‘Monte Santo Deus Proverá’

Por Andressa Franco*

Imagem: Felipe Iruatã

Religiosos de matriz africana, ambientalistas e moradores locais se reuniram na manhã desta quinta-feira (10) nas dunas de Itapuã, ao lado da Avenida Dorival Caymmi, em Salvador (BA), para protestar contra um projeto de urbanização da Prefeitura.

O projeto prevê intervenções que incluem a construção de uma sede, sanitários, auditório, iluminação, macro e microdrenagem, recantos e mirantes, dentre outros itens. A iniciativa tem causado indignação porque, além das intervenções no espaço, também há um Projeto de Lei, o PL 411/2021, de autoria do vereador evangélico Isnard Araújo (PL), que propõe a denominação das Dunas da Lagoa do Abaeté para ‘Monte Santo Deus Proverá’.

A execução das intervenções serão de responsabilidade da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra), através da Superintendência de Obras Públicas (Sucop). O prefeito Bruno Reis (DEM) esteve no local para assinar a ordem de serviço que autoriza as obras, com investimento de aproximadamente R$ 5 milhões. Foi recebido sob protestos, mas defendeu a urbanização e afirmou que o projeto está de acordo com as leis ambientais.

“O ato foi extremamente violento, os olhares, a forma como os políticos se posicionaram foi extremamente racista, dizendo que a gente estava fazendo carnaval, ‘oba-oba’, foi muito ruim”, declara Mãe Jaciara Ribeiro, ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum.

Mãe Jaciara Ribeiro, ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum. – Imagem: Acervo Mãe Jaciara

Durante o ato foram registradas cenas de empurrões de homens que faziam a segurança do prefeito e por alguns evangélicos presentes no local contra os manifestantes. Algumas pessoas chegaram a deitar-se no chão durante o protesto, cercando o carro do prefeito. A prefeitura diz que não houve nenhuma ação da Assistência Militar contra o grupo, e que é contrária e repudia qualquer ação de violência contra os cidadãos.

Também presente na manifestação, a co-vereadora Gleide Davis da mandata coletiva Pretas Por Salvador (PSOL) conta que havia uma movimentação muito grande de apoiadores do governo no local. Inclusive de deputados, apesar de ser um projeto municipal. Davis relata que o prefeito discursou contra a intolerância religiosa, mas enquanto isso os manifestantes foram silenciados, e ficaram do lado de fora do espaço do evento, sem acesso ao microfone.

Co-vereadora Gleide Davis da mandata coletiva Pretas Por Salvador (PSOL) – Imagem: Acervo Pessoal Gleide Davis

“A gente não estava sendo ouvido, então decidimos ir para rua tentar dialogar minimamente com Bruno Reis, porque ele não queria dialogar com a gente. Ele entrou no carro, a galera cercou o carro para tentar dialogar com ele, tentar pelo menos marcar uma reunião, e houve truculência da polícia. Foi muito estressante”, lembra.

Também presente nos atos, a vereadora Maria Marighella (PT) classificou o projeto em suas redes sociais como “aliança entre a prefeitura de Salvador, o capital ultraneolibral e o fundamentalismo religioso”.

Além das manifestações, Davis conta que outras medidas contrárias ao avanço do PL estão sendo pensadas. “Esse tipo de projeto tem meio que uma garantia de que vai ser aprovado, porque eles são maioria. E uma tática política que a gente adotou enquanto bancada de oposição é traçar ementas por dentro do projeto para que o dano seja menor”.

A co-vereadora esteve em uma reunião às 17h desta quinta-feira (10) com a Secretaria de Igualdade Racial para debater a respeito do nome “Monte Santo Deus Proverá”, considerado muito violento pela comunidade de santo. “É um nome bastante tendencioso, que debocha desse espaço”, ressalta.

O debate será repassado para as vereadoras e vereadores da bancada de oposição, de onde pode surgir uma ementa contrária à denominação. Esta pode ou não ser aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), cujo presidente é Alexandre Aleluia (DEM), mesmo partido do prefeito.

“A gente fica muito refém de uma burocracia que não nos beneficia em lugar nenhum. Mas é a única coisa que está nas nossas mãos nesse momento”, explica.

Imagem: Felipe Iruatã

Para Gleide, a única forma de ter força ao pautar as religiões de matriz africana nesses espaços, é investir na representatividade política desses povos. “Nós somos uma religião de caráter político, a nossa história é política. Se a gente não começar a pensar nas representações políticas e sociais que se voltem para essa pauta, ela vai esvaziar. Vai parecer que não somos eleitores, que não temos força política, e nós somos muitos”.

“Monte Santo Deus Proverá”

O projeto está desde dezembro de 2021 na Comissão de Constituição e Justiça e Redação Final da Câmara de Salvador. Isnard Araújo defende a proposta afirmando que o parque do Abaeté é um local frequentado por evangélicos e grupos neopentecostais. E que a mudança seria uma forma de “homenagear cada pessoa que professa sua fé e realiza seus cultos no local”.

Imagem: Felipe Iruatã

No entanto, a região da Lagoa do Abaeté é marcada como um local sagrado para as religiões de matriz africana, e historicamente frequentado por seus adeptos. O local abriga ainda monumentos em homenagem à Mãe Gilda de Ogum, cujo falecimento motivou a instituição do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, e Mãe Stella de Oxóssi, quinta Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador.

“Para o povo de candomblé ali é um santuário religioso”, pontua Mãe Jaciara “Eu não sou contra o progresso chegar para comunidade, mas essa construção também vai ter impacto ambiental nas dunas. Eu acho que essa intervenção é extremamente partidária e política, tem pessoas preocupadas em se reeleger”.

Gleide lembra durante o século XIX e início do século XX, o local foi marcado pela presença de mulheres negras, escravizadas e libertas, que ganhavam a vida como lavadeiras, as chamadas ganhadeiras. O tema chegou a ganhar um samba-enredo que homenageou a força e a resistência dessas mulheres, rendendo à escola de samba Viradouro o título de campeã do Carnaval do Rio de Janeiro em 2020.

“O Abaeté tem essa importância sociohistórica para o povo do axé, existe uma raiz muito forte do culto aos orixás naquele espaço. Tanto que temos diversos terreiros de candomblé muito antigos ali em Itapuã. Salvador é imensa. Tem diversos lugares para se fazer parques temáticos para população evangélica, a gente nunca questionou isso, mas invadir esse espaço é uma tentativa de colonização”, destaca.

“A gente está tendo um esvaziamento da laicidade do estado. Eu fico muito entristecida porque a gente cresce aprendendo sobre a história do nosso povo com muita dificuldade”, continua entre lágrimas. “É apagamento cultural, racismo estrutural, religioso e ambiental também. Porque a prefeitura quer fazer um processo de urbanização nesse lugar para atrair a especulação imobiliária”.

Imagem: Felipe Iruatã

Sobre o projeto de mudança do nome do parque, a prefeitura da capital baiana divulgou nota, onde afirma que a denominação Monte Santo foi adotada provisoriamente para identificar o local, mas destaca que essa não é a nomenclatura oficial do ponto e afirma que não pretende fazer a mudança de nome.

Nas redes sociais, o Odara Instituto da Mulher Negra informou que já estão sendo articuladas novas manifestações e um Ebó Coletivo convocado pela Frente Nacional Makota Valdina. Está previsto para a próxima segunda-feira (14) um ato conjunto organizado por representantes de diversos Terreiros de Salvador em frente à Câmara Municipal de Salvador.

*Contribuiu para esta reportagem Patrícia Rosa