Depois de dois anos sem a festa mais rentável para os informais, o drama que começou no cadastramento termina em relatos de condições de trabalho precárias

Por Andressa Franco*

Imagem: Reprodução Toda Bahia

Depois de dois anos sem Carnaval, a festa de rua chegou ao fim nesta terça-feira (21). Os foliões não eram os únicos ansiosos para a retomada do evento, mas também, e talvez principalmente, os trabalhadores e trabalhadoras que tiram seu sustento da festa.

Durante o período de cadastramento para trabalhar no carnaval, os trabalhadores chegaram a acampar nas imediações da sede da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) em Salvador (BA) com medo de não conseguirem se cadastrar pela internet.

Ambulantes acampados na Semob – Imagem: Arisson Marinho CORREIO

Uma vez que os circuitos tiveram início, a situação se tornou ainda mais precária. Durante a passagem do trio da Timbalada na capital baiana, por exemplo, os cordeiros decidiram abandonar seu posto, e a banda foi vaiada. O vocalista, Denny Denan, tentou se explicar afirmando que o mesmo havia acontecido com Ivete Sangalo e mais outros quatro artistas.

“Acho que os cordeiros combinaram alguma por** aí e eu não sei o que foi que aconteceu”, disse. “[…] o que eu quero que os senhores saibam é que a banda Timbalada não tem nada a ver com isso. A organização da Timbalada fez o melhor de si pra ter o melhor conforto pra vocês. Eu aceito as vaias e puxo pra mim a responsabilidade”.

Conforto esse que não inclui os trabalhadores. No caso, nem mesmo condições mínimas de trabalho. Entre os relatos, reclamações sobre o tratamento que recebem da organização, falta de equipamentos, de banheiro, e até discriminação dos próprios foliões. Além de longas jornadas, chegando por volta das 13h, esperando o trio sair às 19h e voltando para casa por volta das 2h. Isso com abadás sendo vendidos de R$ 200 a R$ 4.200.

No caso do bloco de Ivete Sangalo, a superlotação foi uma das principais críticas. Vídeos que circularam na internet mostram a dificuldade dos profissionais de conter a multidão, e em alguns momentos do circuito as cordas acabaram caindo.

Revolta dos cordeiros: redução da água e na qualidade dos alimentos

A “revolta” dos cordeiros não é sem razão. O valor da diária mínima paga para os profissionais que trabalharam no Carnaval de Salvador foi divulgado no dia 14 de fevereiro pelo Ministério Público do Trabalho da Bahia (MPT-BA). O valor mínimo estabelecido foi de R$ 60, incluindo o valor do transporte, sujeito a variações a depender do bloco. Em comparação a 2020, o reajuste foi de apenas R$ 7.

Muitos acabaram desmaiando ou passando mal durante o trabalho. Um levantamento do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) investigou a situação de mais de 17 mil cordeiros na cidade e constatou uma redução da entrega de água e na qualidade dos alimentos ofertados em comparação a anos anteriores. Quanto aos catadores de latinha, 60 foram atendidos pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) apenas na última segunda-feira (20).

Ambulantes relatam prejuízo

No fim das contas, o resultado relatado por muitos dos ambulantes foi de um sacrifício, que começou no acampamento para o cadastramento, e não compensou.

“Eu gastei mais de mil reais, aqui na Boca do Rio foi carnalixo, uma falta de respeito com a gente”, desabafou a ambulante Cristina em entrevista ao Bahia Meio Dia.

Dona Denildes também falou à reportagem. Mulher negra e mãe de seis filhos, a ambulante chegou a pedir um empréstimo e investiu cerca de cinco mil reais para trabalhar no carnaval da Boca do Rio. Mas com a falta de estrutura no carnaval do bairro, restaram dívidas ao invés dos esperados lucros depois de dois anos sem a festa.

“A feijoada que eu fiz pra vender eu tive que dar, foram 37 espetinhos jogados fora, não tenho como repor, pois foram tirados no cartão e perdi tudo”, lamenta.

É preciso destacar que se trata de uma categoria composta majoritariamente por pessoas negras. De acordo com dados de 2017 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, dos 13 milhões de desempregados no país na época, 8,3 milhões (63,7%) eram negros. Como resultado do desemprego, 67% dos ambulantes no país também são negros.

Os microdados da PNADC divulgados em novembro de 2022 pelo IBGE revelam que o quadro não mudou. Dos 39,1 milhões de trabalhadores na informalidade, cerca de 24 milhões (61,3%) são negros.

*com colaboração de Patrícia Rosa