Por Daiane Oliveira

Imagem: Paula Fróes/CORREIO

Se você é mulher e já deu o azar de cruzar o caminho do bloco “As Muquiranas” na folia carnavalesca de Salvador, certamente já conhece a sensação que vou descrever. O ano era 2018, ou 2019, não importa muito a data exata, já que todo ano é a mesma coisa. Saía da Mudança do Garcia com minha amiga, chovia naquela segunda-feira, quando fomos ao Campo Grande olhar as atrações. Sabíamos que era dia das Muquiranas, mas não imaginávamos o horário.

Quando avistamos os associados do bloco, travestidos de mulher portando aquelas pistolinhas coloridas abastecidas com uma água de procedência desconhecida e muita raiva das mulheres, não tínhamos mais como fugir. Era mais fácil esperar o bloco passar e seguir em direção ao Politeama, nosso destino. A primeira sensação de quem já ouviu muitas histórias e já sofreu importunação sexual por parte de um associado é, preciso sair daqui, me esconder e é assustador quando não há para onde fugir. Encostamos em um tapume e ficamos.

Minha amiga estava com capa de chuva, um erro de quem pretendia ficar com a roupa seca, o que a tornou um alvo mais acentuado da violência das Muquiranas. O que se seguiu foram jatos e mais jatos de água de todos que passavam, sem que nenhum respeitasse o “pare” e “não faz isso”. Alguns miravam exatamente no rosto ou em partes íntimas, com um nítido interesse em causar constrangimento. Tinham as agressões verbais de alguns que tentavam chegar mais perto e como não estávamos próximas das cordas se limitavam a jogar água e proferir palavras desagradáveis, violentas. Até agradecemos que não dava para eles encostarem na gente, outra prática conhecida de violência daqueles homens travestidos. O trio seguiu e conseguimos, encharcadas, sair daquele local.

Foi uma das piores sensações da minha vida. Impotência, medo e diante de tantos risos e conivência de quem apreciava a cena. Qualquer reação poderia causar uma violência ainda maior, como foi possível ver neste ano, quando os homens encurralam uma mulher que questionava o disparo das pistolas d’água.

Estamos em 2023, mas ainda tem homens que acham divertido sair em um bloco travestido de mulher para importunar, agredir, violentar mulheres e promoverem cenas deploráveis de LGBTfobia. O bloco que nasceu em 1965 para “amigos se divertirem”, já surgiu com uma ideia ultrapassada, o que só piorou ao longo dos anos. Com passagem livre pelo circuito da folia, sem serem abordados e questionados pelos agentes da polícia (vale dizer que muitos policiais saem no bloco ou são simpatizantes), as Muquiranas seguem promovendo cenas e comportamentos criminosos na contramão de quem busca alegria e diversão.

O bloco “As Muquiranas” em nota, ou carta aberta, publicada nas redes sociais com comentários fechados, ano após ano, informa que não compactua com violência e até coloca a responsabilidade da proibição das pistolas d’água nas autoridades do poder público. A carta aberta diz que haverá banimento dos envolvidos na quebra da estrutura de um ponto de ônibus, mas não diz que vai colaborar com as autoridades e expulsar ou desassociar os envolvidos em casos de violência e importunação sexual. Faz todo sentido, afinal para essa sociedade até o ponto de ônibus tem mais valor do que a vida, o corpo, de uma mulher… Essa última frase contém uma embalagem extra de ironia, pois nem sei como lidar com isso.

É inquestionável que o machismo, sexismo e a misoginia, presentes em nossa sociedade, não foram criados pelo bloco, mas quem não se coloca contra as violências compactua com elas. Cabe ainda reforçar que diante dos inúmeros casos e denúncias de mulheres, como eu, que já foram vítimas dos homens travestidos, a pistola d’água é só um dos artifícios de quem se esconde atrás de uma roupa de mulher para atacar corpos dissidentes. Como não generalizar e tratar como isolado, algo tão comum, diário e constante entre diversos associados do bloco? As Muquiranas, enquanto bloco e organização, não podem só dizer “não somos responsáveis” e “se virem, mulheres”. Essa última frase é uma interpretação pessoal do trecho da carta aberta que diz “não podemos controlar o comportamento das pessoas”. 

Em 2021, inclusive, o empresário Luciano Paganelli, um dos diretores do bloco As Muquiranas, usou seu perfil no Instagram para escrever mensagens homofóbicas. Paganelli publicou a imagem da campanha publicitária do governo da Holanda que celebrava 50 anos dos direitos da união entre casais do mesmo sexo biológico no país. A postagem, ao lado de uma foto da capa da Playboy de dezembro de 2000 com a ex-loira do Tchan, Carla Perez, seminua abraçada por um homem vestido de Papai Noel e a frase: “Tempos sombrios. Papai Noel da Minha geração | Papai Noel nessa geração de merda.”

Como se fosse pouco, Paganelli postou a seguinte frase lamentável e que mostra muito sobre a visão do gestor do bloco: “Primeiro foi Jesus Cristo. Depois o super homem. Papai Noel, o bom velhinho!! Agora dá o rabo. Na próxima Páscoa, o coelhinho vai virar biba-boneca-menina. Se preparem!! Você que está lendo essa mensagem. Você poderá ser o próximo.” 

Diante da repercussão, a nota das Muquiranas, em 2021, informava que o bloco não compactuava com violências e que os comentários eram opinião pessoal de alguém ligado ao bloco. Só esqueceram que opinião é achar uva passa no arroz bom, LGBTFobia é crime mesmo.

Mas, diante da nota de 2021 e da carta aberta depois desse Carnaval de 2023, qualquer semelhança é coincidência. O bloco segue tentando individualizar as ações, isolar, se manter isento na medida do possível e fica muito fácil seguir sem se responsabilizar enquanto até quem está na gestão usa o termo “biba-boneca-menina” para criticar uma campanha que marca 50 anos da liberdade de casamento entre pessoas do mesmo gênero biológico 

Os mesmos homens que passam o ano inteiro desrespeitando a “bicha preta” nas comunidades, são os que irão incorporar um estereótipo caricato para desrespeitarem a todos que encontram pelo caminho.

Certamente esse texto vai gerar um comentário do tipo “mas eu não sou assim” e “nem todos os homens”, então ele não é para você. Não usem dessa estratégia para enfraquecer e seguir silenciando as vozes das mulheres que não aguentam mais serem vítimas, conhecerem vítimas, acolherem vítimas das Muquiranas. Homens que são associados das Muquiranas, queremos respeito! Bloco “As Muquiranas”, queremos bem mais do que “adesivo” dizendo “respeite as mulheres”!