Por Catiane Pereira
O lançamento do livro “Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível”, da jornalista e pesquisadora Rosane Borges, lotou o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ), na última terça-feira (7). Em um encontro que articulou reflexão crítica, produção intelectual e ação política, a atividade integrou a circulação nacional da obra, que propõe pensar novos projetos de sociedade a partir das experiências de mulheres negras.
Mais do que um lançamento literário, o evento se configurou como espaço de debate sobre representação, visibilidade e transformação social. Ao lado de Rosane, participaram da mesa de debate a jornalista Flávia Oliveira e a ativista Jurema Werneck, com mediação da jurista Thula Pires. A programação também contou com apresentação musical de Fabíola Machado.
No livro, Rosane Borges utiliza a metáfora da costura para desmontar as tramas do racismo e do patriarcado e, ao mesmo tempo, propor novos caminhos de existência. A autora articula referências do pensamento negro feminino, da comunicação e da política para analisar o esgotamento dos modelos sociais vigentes e indicar alternativas construídas a partir de saberes e práticas de mulheres negras. A obra também mobiliza memória coletiva e ancestralidade para discutir futuro, conectando passado e presente na formulação de novas possibilidades históricas.

Durante o debate, Rosane defendeu uma compreensão mais ampla da política, para além da lógica institucional e administrativa. Para a autora, a política deve ser entendida como ferramenta de transformação simbólica e social.
“A gente precisa dizer que política não é apenas gestão. Ela é gestão? É. Mas se ela for só isso, ela se reduz. Política são formas de expansão dos imaginários, de criar horizontes do possível”, disse ela no evento.
“Imaginários emergentes e mulheres negras” também percorre temas como o papel da estética como ferramenta de transformação, a centralidade da imaginação política, a crítica às formas de visibilidade no capitalismo contemporâneo e a necessidade de construir outras epistemologias do olhar. Ao longo dos capítulos, Rosane dialoga com intelectuais e referências como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, bell hooks e Carolina Maria de Jesus, propondo uma reconfiguração profunda das formas de ver, narrar e existir no mundo.
Oficina amplia debate e aposta na imaginação radical como estratégia política e comunicacional

A programação no Rio teve continuidade na quarta-feira (8), com a realização de uma oficina de formação política voltada a mulheres negras. Inserida no contexto pós Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, a atividade buscou renovar o campo de reflexão e ação a partir das questões levantadas no livro, oferecendo ferramentas para diferentes perfis de participantes, como ativistas, educadoras, comunicadoras, artistas, lideranças comunitárias e gestoras públicas.
A proposta da formação foi ampliar repertórios de intervenção social no enfrentamento ao racismo, ao sexismo e a outras formas de opressão, como lesbofobia, bifobia e transfobia. Ao longo da jornada, foram trabalhadas estratégias de incidência política e comunicacional, com foco na criação e no fortalecimento de redes articuladas em torno dos feminismos negros e do antirracismo.
Conduzida por Rosane Borges, em parceria com a Revista Afirmativa e organizações dos territórios, a oficina também estimulou o exercício da imaginação radical como ferramenta política. A partir de dinâmicas coletivas, como a construção simbólica de uma “teia” com tecidos, as participantes foram convidadas a revisitar narrativas, tensionar estruturas e elaborar novas possibilidades de futuro, entendidas como “saídas de emergência” diante de um mundo em colapso.
Dividida em dois momentos principais, a formação abordou desde a crítica às estruturas sociais vigentes até a construção de novas gramáticas de comunicação. Entre os temas discutidos, estiveram a relação entre visualidade e visibilidade, os limites das lógicas algorítmicas e a formulação de uma “outra ortografia do visível”, além da incorporação do Bem Viver como horizonte político. O encontro foi encerrado com a elaboração coletiva de propostas de ação comunicativa emancipada.
As ações na cidade foram correalizadas pela Revista Afirmativa, em parceria com Criola, Orí, Casa das Pretas e IFCS/UFRJ, além de apoio do Instituto Cultura, Comunicação e Incidência (ICCI) e da Fundação Rosa Luxemburgo.


