As eleições gerais de 2026 se aproximam. No dia 4 de outubro, a população brasileira irá às urnas para eleger o presidente da República, governadores/as, deputados/as estaduais e federais e senadores/as. Mais uma vez, porém, um velho problema se impõe: o poder continua concentrado nas mãos dos mesmos grupos sociais. A política institucional segue marcada pela predominância de homens cisgêneros, brancos e heterossexuais nos principais espaços de decisão.
Apesar do Brasil ser um país plural, são os mesmos rostos e perfis que continuam historicamente ditando as regras. Quem hoje decide os rumos do país não representa o povo brasileiro em sua pluralidade.
E essa falta de representatividade não é apenas simbólica. Ela produz consequências concretas na vida da população. Nosso Congresso recebeu o apelido de inimigo do povo. Deputados e senadores, no geral, além de não ter cara de Brasil, refletem em suas decisões a manutenção de benefícios para pequenos grupos políticos oligárquicos e empresariais. Isso não é uma coincidência, e aparece quando projetos que interessam à maioria da população – marcadamente por grupos minorizados – permanecem engavetados, enquanto pautas de interesse das elites políticas e econômicas avançam com rapidez.
O sistema político brasileiro é estruturado e foi pensado para que os grupos historicamente excluídos não consigam chegar lá. O resultado é o reforço de uma engrenagem que desde a república velha mantém os mesmos sobrenomes, com raras exceções, nos espaços de poder e decisão.
Enquanto isso, mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, LGBTQIAPN+, com deficiência e moradores das periferias e zonas rurais enfrentam barreiras históricas para acessar estes espaços. Os números ajudam a dimensionar essa desigualdade. Levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em parceria com o coletivo Common Data, mostra que, apesar de uma década de mobilização dos movimentos negros e feministas e de mudanças na legislação eleitoral, os avanços na representatividade seguem tímidos.
Embora as pessoas negras representem mais de 56% da população brasileira, elas corresponderam a apenas 44,2% dos eleitos nos pleitos municipais de 2024. No Congresso Nacional, a presença de parlamentares negros passou de 20% em 2014 para 26,2% em 2022, crescimento insuficiente para refletir a composição racial do país. A situação é ainda mais desigual para as mulheres negras: em 2024, elas representaram 34,2% das candidaturas, mas apenas 6,3% das candidatas negras conseguiram se eleger, o equivalente a 7,2% do total de eleitos. Esses números evidenciam que o racismo e o sexismo seguem estruturando o acesso aos espaços de poder, mesmo após uma década de políticas voltadas à ampliação da participação política.
Enquanto isso, os movimentos negros, indígenas, feministas e LGBTQIA+ são pejorativamente apontados como “identitaristas” por lutarem para quebrar a engrenagem de séculos de desigualdades, exploração e violências. E apesar de tudo, nós, das maiorias minorizadas, “ainda estamos aqui”, mesmo que para alguns sirvamos apenas para ilustrar fotografias e peças de campanha, ou para legitimar supostas defesas por diversidade.
A recente Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reafirmou que essa resistência também é construção de futuro. Ao defender um projeto político baseado na Reparação e no Bem Viver, a mobilização demonstrou que é possível construir outras formas de fazer política, comprometidas com a justiça social, racial e de gênero, a democracia e a transformação das estruturas que sustentam as desigualdades.
É justamente de lutas como essa que surge a campanha Quero Me Ver no Poder, partindo da compreensão de que disputar a representação política é disputar o projeto de sociedade que queremos. Criada em 2020 pela Plataforma dos Movimentos Sociais por Outro Sistema Político, a campanha chega à sua 4ª edição reforçando o compromisso de enfrentar a sub-representação política e fortalecer a presença de grupos historicamente excluídos dos espaços de decisão. A campanha conta com a idealização e apoio do INESC e parceria técnica e política da Revista Afirmativa.
As eleições de 2026 recolocam no centro do debate uma pergunta que não pode mais ser adiada: quem tem o direito de decidir os rumos do Brasil? Enfrentar a sub-representação política significa questionar estruturas históricas de exclusão e ampliar as possibilidades de participação de quem, por séculos, esteve à margem dos espaços de decisão. A campanha Quero Me Ver no Poder nasce desse compromisso.
Uma democracia que não reflete a pluralidade de seu povo permanece incompleta, e transformar essa realidade exige que a representação política deixe de ser privilégio de poucos para se tornar um direito efetivamente compartilhado. Podemos mudar essa história!


