Symmy Larrat é a primeira travesti a presidir a ABGLT e a responsável pelo programa Transcidadania; Tarciana Medeiros é negra, nordestina, lésbica e trabalha no BB desde 2000

Por Andressa Franco

Imagem: Marcello Casal Jr./Divulgação

Na última segunda-feira (2), a presidenta da ABGLT – Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexo, Symmy Larrat, de 44 anos, anunciou através das suas redes sociais o convite recebido do Ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida, para comandar a Secretaria Nacional LGBTQIA+ do governo Lula (PT).

Larrat foi a primeira mulher trans a ocupar a cadeira de coordenadora-geral de Promoção dos Direitos LGBT, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, durante o governo Dilma Rousseff (PT). É também a primeira travesti no cargo de presidenta da ABGLT. Agora, se torna secretária nacional no governo federal, em uma pasta inédita.

“Sei do imenso desafio que será essa tarefa e do que o momento histórico exige de nós e espero dar as respostas necessárias e que nossa população precisa.”, escreveu Larrat. Ela também agradeceu “a toda militância do campo popular que compõe o bloco de resistência no Conselho Nacional Pooular LGBTI […] ao próprio Silvio Almeida, que deposita toda confiança na minha pessoa e claro, a TODA militância da ABGLT, que segura ao comando de Heliana Hemeterio e Gustavo Coutinho. Sigamos vives!”

A secretária foi parabenizada por nomes como a cantora Gaby Amarantos, também paraense, pela primeira deputada federal trans de Minas Gerais, Duda Salabert (PDT), pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), e muitos outros.

Symmy Larrat nasceu em 25 de fevereiro de 1978 em uma família ribeirinha e católica no município de Cametá (PA), também é jornalista formada pela Universidade Federal do Pará, onde foi aprovada aos 17 anos. Militante desde a década de 1990, integrou o movimento estudantil, mas deu início à sua trajetória como ativista em comunidades eclesiais de base na região Norte do país.

Ela enfrentou tentativas de “cura gay” por parte da família, e mesmo depois de conquistar o diploma de ensino superior, se prostituiu ainda em Belém, época em que amadureceu seu compromisso com a militância.

Na época da faculdade, fazia performances como drag queen, já devido à inquietação em relação à própria identidade. Foi quando começou a pensar em fazer a transição de gênero, embora soubesse que no Brasil, a expectativa de vida de uma travesti é de 30 anos, e que 90% trabalham na informalidade, na maioria das vezes na prostituição, conforme dados do IBGE.

“Uma cena marcou muito: cheguei para me prostituir e uma outra mulher falou: ‘bom, se você que tem um diploma e que é militante está aqui, então não tem mais chance pra gente’”, contou. “Depois disso eu percebi que estar ali era doloroso para mim, porque eu sabia da minha capacidade. A partir disso eu vi que precisava buscar uma outra trajetória, não só por mim mas por todas nós”.

A partir de então, Larrat passou a organizar a parada do orgulho LGBT e fez parte da fundação do Movimento LGBT do Estado do Pará. Foi quando atravessou um processo interno de aceitação e assumiu sua identidade para a mãe enquanto travesti, que então entendeu “que tinha uma filha”.

Na política, Symmy começou atuando na comunicação da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), e aproveitou a oportunidade para implantar no Pará uma rede estadual LGBT e construir o projeto de nome social, dando visibilidade ao Conselho LGBT do Pará.

O trabalho foi vitrine para que Symmy fosse convidada a coordenar o programa “Transcidadania” em São Paulo durante a gestão de Fernando Haddad (PT) como prefeito, entre 2014 e 2015. Se trata de um projeto pioneiro, bem sucedido e reconhecido internacionalmente, focado no estímulo à escolarização e introdução ao mercado de trabalho formal da população trans.

Em seguida, Symmy se torna a primeira mulher trans a ser eleita presidenta da ABGLT, maior organização do gênero na América Latina e Caribe. Também já esteve na sessão de direitos humanos da ONU enquanto representante do governo do Brasil. Para Symmy, o momento político é de vigilância para que os avanços conquistados até aqui não sejam derrubados, e de voltar as energias para as “microrrevoluções”.

Em 2018, Symmy foi eleita pelo Guia Gay São Paulo uma das LGBT mais influentes do Brasil. Em 2021, recebeu o Prêmio Jorge Lafond, concedido pelo Distrito Drag.

Nova presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, é negra, lésbica e nordestina

Ainda em 2022, no dia 30 de dezembro, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (13), anunciou como nova presidente do Banco do Brasil, Tarciana Paula Gomes Medeiros, de 44 anos. Assim, pela primeira vez o Banco será presidido por uma mulher, desde que foi criado, em 1808.

Nordestina, negra, lésbica e defensora das causas da comunidade LGBT, Medeiros está há três anos no cargo de gerente executiva do Banco. Em 2021, ela era responsável pela diretoria de clientes do banco, determinando estratégia comercial, planejamento, gestão e desenvolvimento de ações para interações com clientes em canais digitais.

De origem humilde, a paraibana de Campina Grande começou a trabalhar aos 10 anos de idade como feirante. Na década de 1990, foi professora antes de entrar no BB.

Medeiros é bacharel em Administração de Empresas e pós-graduada em Administração, Negócios e Marketing. Ela iniciou sua carreira na instituição desde 2000, na agência de Posto da Mata (BA), em 2002 já ocupava o primeiro cargo de gestão. De 2013 a 2018, ela assumiu a função de Superintendente Comercial da BB Seguros, parte do conglomerado do banco, e uma das maiores empresas da área de seguros na América Latina. Em 2018, ocupou o cargo de executiva na Diretoria de Empréstimos e Financiamentos do Banco. As informações são do portal iG Queer.

Entre as expectativas para sua gestão, está uma possível investigação em relação ao ex-ministro da Economia do governo Bolsonaro (PL), Paulo Guedes. Isso porque, em 2020, o Banco do Brasil cedeu para o Banco BTG Pactual uma carteira com 3 bilhões em créditos “perdidos”, ou seja, quando os empréstimos concedidos são considerados difíceis de serem quitados. Guedes é fundador e sócio do BTG Pactual.