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Com desobediência e enfrentamento ao “’cis’tema”, Thiffany Odara marcha rumo a Brasília (DF)

Conheça a Yalorixá e pedagoga de Lauro de Freitas (BA) que soma forças na mobilização para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver
Imagem: Afirmativa

Por Jamile Novaes

Na Bahia, o Movimento de Mulheres Negras dá régua e compasso para a luta por Reparação e Bem Viver. Articuladas e atuando em redes, ativistas de todas as partes do estado seguem em mobilização para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que acontecerá em Brasília (DF), no dia 25 de novembro deste ano. Através de caravanas, encontros, formações e uma série de atividades, a palavra da Marcha está sendo levada aos quilombos, universidades, terreiros, escolas e espaços virtuais para garantir que nenhuma mulher negra ficará para trás.

Direto de Lauro de Freitas (BA), na Região Metropolitana de Salvador, Thiffany Odara se junta a essa mobilização e, a partir dos espaços que ocupa, ajuda a construir os caminhos que levarão até a capital federal. Yalorixá do Terreiro Oyá Matamba, educadora social, escritora e doutoranda em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), a ativista se apropria das múltiplas identidades que compõem a sua existência para fazer coro junto às milhares de vozes que reivindicam uma sociedade livre do racismo, do machismo, da LGBTQIA+fobia e de tantas outras estruturas de opressão.

“Ser uma mulher trans não me define como um todo, porque eu tenho outras especificidades enquanto ser humano e enquanto corpo preto existente na luta e resistindo contra as opressões”, afirma.

A ativista faz parte da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA) e atua como redutora de danos para a comunidade LGBTQIA+ / Imagem: Acervo pesoal.

Embora não tenha participado diretamente da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, realizada em 2015, ela destaca que aquele foi um movimento que impulsionou a sua atuação política e lhe fez perceber que sempre esteve em marcha, se aquilombando e fortalecendo a coletividade. “A Marcha refletiu muito forte em mim esse lugar de emancipação e atuação política, porque até então eu só me via como coadjuvante. Através da Marcha, percebi que posso ser protagonista da minha própria história, porque ninguém melhor que eu para falar das minhas dores junto a outras pessoas que sentem as mesmas dores.”

Com uma trajetória dedicada aos movimentos sociais, Thiffany desenvolve ações e projetos voltados à educação, empregabilidade e redução de danos, sobretudo para a comunidade LGBTQIA+. Em 2020, lançou o livro ‘Pedagogia da Desobediência: Travestilizando a Educação’, que aborda a produção de saberes travestis na cidade de Salvador e propõe a construção de espaços educacionais onde conhecimento e acolhimento sejam garantidos a todas as pessoas. 

Na luta pela ocupação dos espaços historicamente negados às mulheres negras, Thiffany desafia as estruturas do “cis’tema” – termo que utiliza para problematizar normas e hierarquias impostas pelo sistema patriarcal e cisnormativo no capítulo “Desobedecendo o ‘cis’tema’: debatendo saberes” de seu livro. Nos anos de 2023 e 2025, foi a primeira mulher trans a disputar o cargo de ouvidora geral da Ouvidoria Cidadã da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE/BA) e atualmente exerce a função de ouvidora-adjunta do órgão.

Thiffany Odara é ouvidora-adjunta da da Ouvidoria Cidadã da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE/BA) / Imagem: Acervo pessoal.

Abrindo caminhos da Bahia até Brasília

Integrante do Comitê da Bahia Rumo à Marcha das Mulheres Negras Por Reparação e Bem Viver e ativista no Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS) – organização que compõe o Comitê Nacional da Marcha – Thiffany conta que, desde 2024, articula diálogos junto a outras lideranças do movimento de mulheres negras e dos movimentos LBTIs. A ativista contribui com a construção de conferências e reuniões ampliadas que trazem Reparação e Bem Viver para o centro dos debates sobre gênero e sexualidade.

“A luta pelo Bem Viver, para mim, tem a ver com prosperidade, com a segurança dos nossos filhos e filhas, com ocupar espaços de poder e tomada de decisão. É sobre garantir uma vida digna para todas as pessoas”, ressalta.

Em articulação com o Odara – Instituto da Mulher Negra e outras organizações do movimento de mulheres negras da Bahia, Thiffany tem empenhado esforços para abrir os caminhos das mulheres negras que marcharão em Brasília. “Temos nos articulado para conseguir ônibus junto a algumas universidades e lideranças, com o objetivo de garantir o translado das mulheres. Também temos discutido, de forma muito criteriosa, como será a logística quando chegar em Brasília”, explica a ativista.

A atuação de Thiffany Odara reafirma o caráter estratégico da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver: ocupar Brasília com organização, força coletiva e agenda política bem definida. Sua presença na mobilização fortalece a luta das mulheres negras da Bahia que, em articulações locais e nacionais, reivindicam a Reparação e fazem enfrentamento às violências, pela construção de um projeto de sociedade baseado no Bem Viver. 

No dia 25 de novembro, a voz, o corpo, as dores e as lutas de Thiffany se somarão às de milhares de mulheres negras para dar continuidade a uma história de resistência que transforma desobediência em ação política pela garantia do direito de existir com dignidade numa sociedade livre e justa para todas as pessoas.

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