O Programa Bem Viver entrevistou uma das organizadoras do recém-laçado livro “Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras”

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução Redes Sociais

Em junho deste ano, uma parceria entre a Fundação Rosa Luxemburgo com Mulheres Negras Decidem e Instituto Marielle Franco, com edição da Oralituras, resultou na publicação do livro “A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras”.

A obra reúne textos inéditos e não inéditos de diversas pensadoras negras de diferentes épocas e regiões do país, e reflete sobre um modelo político que aprofunde bases para a democracia e a igualdade social. Benedita da Silva, Erica Malunguinho, Vilma Reis, Talíria Petrone, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros e Marielle Franco são alguns dos nomes que assinaram os textos.

Pegando carona nesse lançamento e na agenda do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado no dia 25, o Programa Bem Viver da Rádio Brasil de Fato, entrevistou na última quinta-feira (15) a cientista social Ana Carolina Lourenço, uma das organizadoras da obra, junto com Anielle Franco, irmã de Marielle e diretora executiva do Instituto Marielle Franco.

O livro foi organizado no primeiro semestre de 2020, e Lourenço explica que a ideia surgiu a partir de 2015, com a Marcha das Mulheres Negras.  Outro aspecto que reforçou a ideia foram às eleições de 2016 e dos novos formatos de mandatos de mulheres negras, o que daria a percepção de que o ativismo de mulheres negras também estava girando em torno da política institucional. O objetivo é mostrar que a história das mulheres negras em torno da política e da condução do Estado, é longeva.

“No início existiam muitas conversas assim ‘isso não é uma novidade, a gente está nesse debate desde os anos 80, desde o início da República’, então ele [o livro] tem como ideia principal fortalecer um pouco e visibilizar essas narrativas, de que o ativismo de mulheres negras sempre disputou a condição do Estado nação, da política institucional, e por mais que ainda haja uma baixa representatividade, ela não é fruto da falta de disputa das mulheres negras, é fruto de uma série de outros problemas estruturais.”, pontua.

De acordo com dados do IBGE e TSE, são 28,7% as mulheres autodeclaradas negras no Brasil, mas apenas 3% delas ocupam as prefeituras, 5% dentre as escolhidas para assembleias municipais legislativas na última eleição, 2% do Congresso Nacional e 1% na Câmara dos Deputados Federais.

O título da coletânea, ela explica, utiliza o termo “radical” na ideia do seu sentido original, ou seja, buscar entender a raiz dos problemas. É desta forma que a obra mostra a atuação das mulheres negras na política: se voltar para pensar a raiz de questões como educação, acesso à informação, violência policial e justiça socioambiental.

A cientista social também comenta que a ideia do livro era não ser muito longo, mas que pode ser uma série continuada, porque vê essa radical imaginação política das mulheres negras como uma temática em constante atualização.

“A gente está em um momento de dizer: é fundamental que a diversidade de vozes, pessoas, orientações ocupem a política, mas não só porque é importante que a democracia seja diversa, mas porque a grande verdade é que as mulheres negras, como principais beneficiárias de políticas públicas do Brasil, e principais executoras de muitas delas quando a gente pensa na ponta, vão levar para política institucional uma capacidade de deliberação que está ausente, que vai inovar a política brasileira, ser capaz de responder a problemas da saúde, da educação básica, da agenda de justiça socioambiental, não apenas a agenda da população negra”, defende.

Para acessar o livro, o ebook está disponível nas páginas da Rede Nacional de Mulheres Negras na Política, da Fundação Rosa Luxemburgo, e da editora Oralituras. O Movimento Mulheres Negras Decidem distribuiu a versão física para quem preencheu um formulário durante um período, mas o formulário não está mais disponível. A publicação está disponível gratuitamente para download (https://url.gratis/QOM5C).