A família do intérprete de herói da Marvel foi responsável pela escravização de 250 barbadenses entre 1700 e 1800. O ator é alvo de campanha por pagamento de indenização

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução ABC news

Na última quarta-feira (4), o embaixador de Barbados na Caricom e vice-presidente da força-tarefa de Reparações, David Comissiong, se manifestou através de nota a respeito da repercussão da Campanha de Reparação de Barbados. O movimento tem como objetivo obter reparações pela escravidão, através de indenizações por parte dos seus herdeiros, e ganhou destaque essa semana por ter a família do ator britânico Benedict Cumberbatch, de 46 anos, como possível alvo.

A nota foi divulgada em um artigo no site Barbados Today, onde Comissiong escreveu que a imprensa internacional distorceu o pronunciamento oficial e que “até o momento, nem [a comissão de reparações da Comunidade do Caribe] nem Barbados aprovou oficialmente uma reclamação de reparações contra esta família europeia [Cumberbatch]”. O embaixador explicou ainda o caso do parlamentar conservador britânico Richard Drax na operação para obter reparações pela escravidão.

Segundo ele, a investigação da Força-Tarefa entendeu que a família Drax apresenta um caso único, tendo chegado a Barbados em 1627 e acumulando quase 400 anos de presença ininterrupta no país caribenho como proprietários e operadores de plantações.

“A Força-Tarefa Nacional de Barbados sobre Reparações acredita, portanto, que os fatos históricos pertencentes à família Drax são mais do que claros para apoiar uma reivindicação de Reparações.”

Passado escravagista da família Cumberbatch

O ator britânico Benedict Cumberbatch pode ser condenado a pagar indenização devido ao passado escravagista da sua família. Seus familiares compraram escravizados para as plantações de algodão e açúcar dos séculos 18 e 19, assim, pode ser cobrada do astro dos filmes da Marvel uma indenização aos descendentes destes escravizados.

Ao jornal britânico The Telegraph, o secretário-geral do Movimento Caribe pela Paz e Integração, David Denny, afirmou que “todos os descendentes de proprietários de plantações brancos que se beneficiaram do tráfico de escravizados devem pagar indenizações, incluindo a família Cumberbatch”.

Segundo informações do Telegraph, o sétimo bisavô do ator, Abraham Cumberbatch, comprou a plantação Cleland em St. Andrew, em 1728. A propriedade recebeu 250 escravizados barbadenses até que a Inglaterra abolisse a escravidão em suas colônias na América, em 1833, apesar da transição gradual, que estendeu a escravização até 1840.

Na época, quando a plantação foi forçada a fechar, o governo britânico ofereceu uma compensação pela perda de “propriedade humana”. A família Cumberbatch foi beneficiada no valor de 6.000 libras, quantia que, segundo os cálculos do jornal The Thelegraph, equivale nos dias de hoje a 3,6 milhões de libras, ou seja, R$ 6,5 milhões de reais.

Até 2021, Barbados ainda era mantido como colônia. A ilha só se tornou independente em novembro daquele ano, quando foi declarada República na presença do então príncipe Charles e também da cantora Rihanna, natural do país. A rainha Elizabeth II foi removida como chefe de Estado, a bandeira do Estandarte Real do Reino Unido foi baixada, e Barbados empossou sua primeira presidente e ergueu o novo Estandarte Presidencial.

Desde então, o Reino Unido ainda não ofereceu um pedido formal de desculpas ou restituição.

Príncipe Charles e atual presidente de Barbados, Sandra Mason, na cerimônia de independência do país – Foto Toby Melville

“Não é como se eu estivesse lucrando com o sofrimento”

Benedict Cumberbatch já falou publicamente sobre o passado da sua família. Em 2007, ele foi um dos protagonistas do filme Jornada pela Liberdade, onda dá vida ao futuro primeiro-ministro do Reino Unido, William Pitt. O longa apresenta o personagem de Cumberbatch como um aliado do protagonista, também branco, pela abolição da escravidão na Grã-Bretanha.

Durante a promoção do filme, disse ao Daily Mail que viu o papel como uma “espécie de pedido de desculpas” pela atuação de sua família no tráfico de escravizados. Já em entrevista ao jornal escocês Scotsman, em 2007, mencionou apenas um tataravô distante.

“Processos de reparação estão em andamento nos tribunais americanos. Tenho amigos envolvidos na pesquisa dessa cicatriz na história da humanidade e falei com eles sobre isso. A questão de até que ponto você deve estar disposto a expiar é interessante. Quero dizer, não é como se eu estivesse lucrando com o sofrimento – não é como se fosse dinheiro nazista”, disse o ator indicado duas vezes ao Oscar.

O passado escravagista da família de Cumberbatch também voltou à tona em 2014, quando Stecey Cumberbatch, uma comissária da cidade de Nova York e neta de imigrantes caribenhos declarou ao New York Times ser “parente” do ator britânico por meio do comércio de escravos. Os antepassados da comissária eram escravos da plantação de Barbados e adotaram o sobrenome de seus proprietários depois da abolição.

Em 2015, o intérprete do herói Doutor Estranho admitiu que sua mãe, Wanda Ventham, já o havia aconselhado a não usar o sobrenome Cumbarbatch profissionalmente, para não atrair o interesse da mídia em caso de uma possível campanha por reparação.

Avança o debate sobre reparação racial

A Força-Tarefa Nacional de Barbados sobre Reparações vem na esteira do debate sobre reparação racial e formas de exercê-la, que tem ganhado força nos últimos anos e sido uma das principais demandas dos movimentos negros em fóruns internacionais.

Na primeira semana de dezembro de 2022, aconteceu em Genebra o Fórum Permanente das Nações Unidas para as Pessoas Afrodescendentes. O mecanismo foi criado em 2021 após uma resolução da Assembleia Geral e em decorrência da Década Internacional dos Afrodescendentes, que termina em 2024. Ele busca melhorar a vida das pessoas negras que, há séculos, sofrem com racismo e com o legado da escravidão no mundo.

Em mensagem de vídeo para o encontro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que reconhecer os erros do passado e buscar justiça e reparação é fundamental e acredita ser preciso “reverter as consequências duradouras da exploração colonial, inclusive por meio de justiça reparatória.”

O chefe de Direitos Humanos da ONU, Volker Turk, defendeu que a elaboração de uma Declaração das Nações Unidas sobre a promoção, proteção e pleno respeito aos direitos humanos dos afrodescendentes é vital para uma resposta mais efetiva ao racismo sistêmico e à discriminação racial.

O órgão consultivo tem 10 membros, que trabalham com o Conselho de Direitos Humanos, em Genebra. O grupo como função angariar avanços para a inclusão social, política e econômica, trabalhando para que os afrodescendentes vivam sem discriminação e para que tenham seus direitos respeitados.