Respeito e conhecimento são pautas importantes para o combate da bifobia

Por Daiane Oliveira e Patrícia Rosa

Ilustração: Sindy Barros

Marina hoje tem 29 anos, aos doze começou a sentir atração por meninas e meninos, mas a garota cresceu em uma igreja evangélica de Salvador. No seu lar, não tinha espaço fora da heteronormatividade conservadora: “Como eu fui para a igreja evangélica muito cedo, o período da adolescência, que é uma época que você descobre muita coisa eu passei indo para a igreja e acabei ignorando isso e mesmo frequentando a igreja eu sentia essa atração por meninas, mas não me permitia pois eu acreditava que aquilo era errado”. 

Marina, é um nome fictício, pois ela vive em meios a tabus, a jovem está em um período de descoberta e quebrando os estereótipos que carregava, para se conhecer melhor. Ela só começou a repensar na idade adulta, por só agora ter a liberdade de se permitir a pensar a sexualidade, “mas ainda é uma questão difícil de reconhecer e conversar sobre o assunto.”

Os estereótipos e estigmas que cercam a vivência da comunidade bissexual ainda é uma realidade. Apesar de ser a terceira letra da sigla LGBTQIAP+, bissexuais relatam que ainda sofrem com violências que podem ser fruto da desinformação e desconhecimento sobre o que é a bissexualidade. Apesar dos avanços no debate dos Diretos LGBTQIAP+, ainda existe desconhecimento e bifobia, como denuncia a comunidade bissexual. 

Para o criador de conteúdo Nick Nagari, de 25 anos, não-binário e bissexual, o entendimento da sua sexualidade veio há 8 anos e não foi uma jornada fácil. “Sabia que não era lésbica e que a heterossexualidade não me cabia muito,  mas ao mesmo tempo não sabia que existia uma outra maneira de de ser, então ficava ali tentando caber nessa caixa. Quando descobri a possibilidade tudo mudou, porque aí eu consegui me identificar com alguma palavra e com alguma comunidade”, explica.

Nick Nagari é criador de conteúdo e não binário (Imagem: Arquivo Pessoal)
A Sociedade desconhece o conceito de bissexualidade

Para Nick a bissexualidade não é vista como orientação sexual própria. “A nossa sociedade ela é toda estruturada de uma forma binária. Então a gente tem o homem e a mulher, o hétero e o homo e todo mundo que foge desses binários, fica nesse não lugar.”

Para a jornalista e apresentadora Val Benvindo a bissexualidade é encarada como uma fase, ou indecisão “parece que é sempre um período um lugar de transição”. Val vivencia a interseccionalidade em torno da sua orientação sexual e as dificuldades na convivência com a invalidação da liberdade dos sentimentos. “São muitos atravessamentos nesse quesito, sendo mulher, preta, bissexual, sendo tudo isso é óbvio que são camadas de preconceitos, de questões e pessoas que não acreditam nas nossas competências, é bem pesado, bem puxado.”

Val Benvindo é jornalista e apresentadora (Imagem: Arquivo Pessoal)
Mulheres bissexuais fetichizadas  a invalidação da sua orientação sexual

Em uma sociedade monossexual, heteronormativa e patriarcal, os julgamentos fazem parte dos estigmas. Para Val,  a objetificação dos corpos e a ligação com a promiscuidade é um grande problema. A jornalista acredita que a educação e o conhecimento são caminhos para mudar essa realidade.

“As nossas presenças educam assim, a minha existência ali falando sobre sobre a minha sexualidade de uma forma muito natural ajuda também a normalizar ainda mais esses olhares, a entender que as nossas presenças são reais.”

Para a criadora da rede de relacionamento Afrodengo, Lorena Ifé, ser uma mulher bissexual é um lugar de preconceito. Ela analisa que nas suas relações, principalmente com homens, a sexualidade é colocada no lugar de perversão.

“Eu já tive pessoas que recusaram namorar comigo porque eu sou bi, homens, né? Eu já ouvi propostas absurdas quando me assumi bissexual, então eu eu nunca falo abertamente pras pessoas”. A criadora ainda relata o preconceito da comunidade lésbicas, “elas não gostam das bis, então eu me relaciono muito mais com mulheres bissexuais.”

Lorena Ifé é a “mainha” da rede de relacionamentos Afrodengo (Imagem: Arquivo Pessoal)

Diálogo e convivência para o aprendizado do respeito a sexulidades, desde criança

O entendimento da sexualidade de Lorena se maturou depois da maternidade, ela tem um filho de 7 anos, e se entende como bissexual há 6 anos, mesmo tendo ficado com mulheres antes de ser mãe.

A relação entre a maternidade e a bissexualidade é tranquila para mãe e filho, já que ela tem um cotidiano de diálogo aberto sobre o mundo LGBTQI+. “Ele entende super, já mostrei exemplos,  ele tem uma das avós que é lésbica, já conviveu com companheiras dela, também tem tio que é gay”. Lorena fala que a  conversa aberta e a convivência faz com que o garoto entenda e respeite o mundo LGBT.