Por Elizabeth Souza
Menor estado do Sudeste, o Espírito Santo carrega em sua trajetória um dos maiores levantes de resistência negra do Brasil: a Revolta do Queimado, liderada por Chico Prego, João da Viúva e Elisiário. O episódio, que completa 177 anos nesta semana, aconteceu em 19 de março de 1849, durante o Segundo Reinado, e teve como estopim uma quebra de acordo estabelecida entre um frei italiano e pessoas negras escravizadas. O religioso prometeu cartas de alforria às pessoas negras que construíssem a igreja matriz na freguesia de São José de Queimado – atual município de Serra (ES). A igreja foi concluída; a promessa, não.
“O episódio que fica conhecido como Revolta do Queimado é um processo que é parte de um conjunto de ações que os africanos escravizados, na diáspora, construíram em busca da liberdade e da autonomia. Se inicia com uma negociação, uma tentativa de alcançar a liberdade. ”, explica Lavinia Coutinho Cardoso, historiadora, mestra em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e autora do livro “Revolta do Queimado: Negritude, Política e Liberdade no Espírito Santo”.
A revolta
Há perspectivas que apontam que essa é a maior movimentação por liberdade desde a época do Quilombo dos Palmares e também o segundo maior levante do Brasil depois da Revolta dos Malês, que aconteceu em 1835, na Bahia. Pela sua relevância e magnitude impressa na história e no tempo, o levante de Queimados é a maior revolta de resistência negra documentada no Espírito Santo.
Gregório de Bene,frei italiano que chegou ao Brasil por volta de 1844, teve forte atuação no processo colonizador estabelecido à época através da conversão dos nativos e pessoas negras escravizadas. Ao chegar em terras capixabas foi o responsável por liderar o projeto de construção da igreja matriz na freguesia de São José de Queimado, região inserida no contexto da economia açucareira. O termo “Queimado” remete às práticas da cultura da cana-de-açúcar, baseada no trabalho de pessoas negras escravizadas, submetidas a um sistema de intensa exploração.
Para a execução do trabalho que daria origem a nova estrutura religiosa, o frei precisou contar com a mão de obra de pessoas escravizadas da região. Enquanto estratégia de convencimento, prometeu cartas de alforria aos que participassem da execução da obra. O acordo foi estabelecido, e os negros iniciaram os trabalhos. Em pouco mais de um ano a igreja estava pronta. Mas a garantia de liberdade não aconteceu, pois quando cobrado o frei Gregório negou a existência do acordo, dando início ao que ficou conhecido por Revolta do Queimado.
“Assim, é possível identificar dois momentos: o primeiro, de articulação e construção de uma estratégia coletiva em busca da liberdade por meio da carta de alforria, que, no século XIX, representava juridicamente a condição de liberdade para pessoas escravizadas; e o segundo, marcado pelo rompimento desse acordo e pela eclosão do levante”, observa Lavinia Coutinho.

Lideranças
A revolta do queimado mobilizou entre 200 a 300 pessoas escravizadas que se insurgiram contra o não cumprimento da promessa de alforria. O movimento foi marcado por confrontos diretos com as forças locais, resultando em intenso derramamento de sangue. Organizados, os insurgentes buscavam não apenas a liberdade individual, mas também justiça diante de um sistema que os mantinha em condição de exploração.
“Esse levante vai permear o imaginário político, histórico e social do território do Espírito Santo, devido ao tamanho da revolta, que se estendeu para outros territórios. Então, por exemplo, a região de Cariacica (ES), que é uma cidade não tão vizinha, mas uma cidade próxima de Serra, vai receber também a influência da Revolta do Queimado”, comenta Ariel Cherxes Batista, doutorando em História pela UFES e presidente da Associação Nacional de História no Espírito Santo (Anpuh-ES).

As principais lideranças do movimento foram: Chico Prego, João da Viúva e Elisiário. Este último apontado por Lavínia Coutinho como um dos principais articuladores do movimento. Embora não haja documentos que o identifiquem explicitamente dessa forma, essa interpretação é construída a partir de leituras observadas pela historiadora por meio dos escritos de Afonso Cláudio de Freitas Rosa – autor de “Insurreição do Queimado”, publicado em 1884 -, que teve acesso ao processo criminal da época, hoje indisponível para os pesquisadores. Elisário é descrito por Afonso Cláudio como um “negro pernóstico”, expressão que carregava um sentido pejorativo, mas que pode ser reinterpretada como indicativa de inteligência, eloquência e capacidade de liderança. “Se ele fosse branco, ele seria mencionado como inteligente, eloquente, mas como era negro, ele era pernóstico”, aponta Lavínia.
Nesse sentido, enquanto o frei Gregório de Bene organizava os recursos e viabilizava a obra, Elisário atuava na base, arregimentando a mão de obra e estabelecendo redes de mobilização. Sob a justificativa de cumprir o acordo que garantiria as cartas de alforria, ele incentivou a participação coletiva, o que possibilitou a rápida construção da igreja. “Posteriormente, na hora da inauguração da igreja em que é cobrada ao frei a carta de alforria e ele fala que não prometeu, se cria o conflito. Surge então a figura do Chico Prego e de João da Viúva que vão ser os braços de guerra, que lideram a revolta”, complementa a historiadora.
Aisha Keto
Outro nome de destaque na Revolta do Queimado é Aisha Keto Korowe Detokumbo, também conhecida como Benedita Torreão. Considerada uma das heroínas do levante, sua existência é registrada em documentos oficiais da época, como uma carta do então presidente da província, José Inácio Accioli de Vasconcelos. Além disso ela aparece em registros sobre pessoas negras presas em decorrência da revolta, conforme menciona Ariel Cherxes, ao citar os estudos históricos do pesquisador e historiador capixaba Clério José Borges de Sant’Anna, autor do livro “A Mulher Heroína do Queimado, Aisha Keto Korowe Detokumbo, Benedita Torreão, Princesa que veio de além mar”.
De origem africana, Aisha seria uma princesa nagô capturada e trazida ao Brasil pelo tráfico transatlântico, sendo posteriormente escravizada no Espírito Santo.
“Seu nome carrega significados ligados à sua trajetória: ‘Aisha’, associada à ideia de vida; ‘Keto’, referente ao povo africano ao qual pertencia; e ‘Korowe Detokumbo’, indicando sua travessia forçada pelo mar”, detalha Ariel.
Já “Benedita Torreão” corresponde ao nome que recebeu ao ser comprada pela família Torreão. “Destacar a importância de mulheres negras em um movimento [como o de] Queimado, é mostrar, inclusive, a pluralidade desse evento histórico”, frisou.
Repressão
De acordo com relatos trazidos por Lavínia, a revolta durou dois dias. “Quando a milícia sobe para vir para a Serra, vem matando todos os negros e negras que encontraram no caminho. Existia um medo muito grande da população, de uma revolta coletiva, e que ela tomasse conta da província”. Enquanto o frei Gregório de Bene é expulso da província do Espírito Santo, em 20 de março de 1849, as lideranças do movimento são capturadas e posteriormente executadas. “O Chico Prego vai ser capturado e enforcado no dia 11 de janeiro de 1850. João da Viúva, conhecido como João Monteiro, é condenado à morte e executado também”, destaca Ariel Cherxes.
Por sua vez, Elisiário Rangel consegue escapar da prisão com a ajuda de um carcereiro e fica conhecido como “Zumbi da Serra”, em referência ao líder quilombola Zumbi dos Palmares. “A história oral fala que ele viveu até bem velho lá no Mestre Álvaro, no sertão da Serra”, revela Lavinia. “Há quem diga que o espírito de Elisirário ronda a serra do Mestre Álvaro e isso se dá inclusive como uma relação à Nossa Senhora da Penha [padroeira do Espírito Santo]”, complementa Ariel.
Legado
177 anos depois de uma das principais revoltas antiescravagistas do Brasil, o Levante do Queimado segue vivo na memória coletiva por meio de diferentes formas de reconhecimento e preservação histórica. Na cidade da Serra, o Centro Cultural Elisiário Rangel, localizado em São Diogo e fundado em 2016, homenageia uma das lideranças da revolta. O espaço abriga diversas atividades sociais e culturais. Já Chico Prego é lembrado por uma estátua de 3 metros de altura construída pelo artista Genésio Jacob Kuster e inaugurada em 2006, erguida nas proximidades da Igreja Matriz da Serra, região próxima à Serra do Mestre Álvaro, onde se atribui sua execução em 1850.

João da Viúva permanece presente na tradição oral e cultural, sendo frequentemente reverenciado nas rodas de Congo do município, como aponta o historiador Ariel. O Sítio Histórico e Arqueológico de São José do Queimado, localizado em Serra-Sede, constitui um dos principais marcos materiais da memória da revolta, preservando os vestígios da ruína da igreja cuja construção esteve na origem do conflito. Em 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou o tombamento definitivo do espaço.

“É importante que a população negra reconheça seu lugar de pertencimento: este país também lhes pertence. Tudo o que está de pé no Brasil carrega a marca do trabalho e da contribuição do povo negro, das edificações e construções materiais às formas de pensamento”, reitera Ariel Cherxes.
“Não devemos esquecer que o movimento negro no Brasil começa com a luta por emancipação, por cidadania, desde que nossos ancestrais foram sequestados e botaram os pés no Brasil. Essa luta existe e é muito importante que a gente tenha conhecimento e que valorizemos ela”, conclui Lavínia Coutinho.


