Por Yérsia Souza de Assis* / Foto: Acervo Instituto Moreira Salles

 

“(…) A democracia está perdendo seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquissimos. E tudo que está fraco, morre um dia.

… Os politicos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido.”

Quarto de Despejo – Carolina Maria de Jesus

 

Alguns dizem que o Brasil é um país de analfabetos. Talvez essa seja uma das mensagens mais difundidas sobre os sentidos que o termo Brasil carrega internamente e externamente. Nos acusam e também nos autoacusamos de diversas formas, utilizando em muitos momentos a semântica e sentido que a palavra analfabeto  carrega, ora alimentada pelos elementos objetivos, ora pelos elementos subjetivos. Conseguimos, talvez, extrapolar os limites e dar um sentido simbólico e subjetivo, indo além do material e objetivo – a de saber, que no Brasil vivem 11 milhões de pessoas não alfabetizadas. Somos analfabetos funcionais, analfabetos acadêmicos, analfabetos completos, analfabetos políticos, analfabetos nos modos de existir. Em alguma medida, existe fundamento nessa perspectiva de nos autonomearmos como analfabetos. Talvez as razões mais adensadas sobre isso se configuram no analfabetismo que insistimos em sustentar sobre um Brasil diante de outro Brasil.

Com isso, atividades e esforços que buscam estimular a erradicação (ou seria o questionamento?) dos analfabetismos à moda brasileira são imprescindíveis e imperdíveis. Essas iniciativas em grande medida são aglutinadoras de múltiplas ferramentas que possibilitam a criação de meios que nos auxiliem na saída desses analfabetismos que teimamos em continuar. Dito isso, considero a FLUP – Festa Literária das Periferias – uma dessas iniciativas que buscam aplacar os diversos tipos de analfabetismo que assolam o Brasil. Reforço que, assim como pensadores chaves da Educação brasileira, tal como Paulo Freire, devo apontar que analfabetismo aqui é um elemento de força material e simbólica, objetiva e subjetiva.

Sendo assim, a tarefa da FLUP é hercúlea. Melhor, Ogunesca, para usar a força do nosso panteão afro-brasileiro em vistas de nomear a missão que a FLUP se propõe. Afinal, Ogum é orixá da guerra e que busca vencer demandas. Na senda das demandas, a FLUP se organiza como uma grande articuladora em nome das transformações que devem ser feitas ao se olhar para os múltiplos analfabetismos que o Brasil acaba por investir ao manter um olhar tão distante (e desconfiado) às produções feitas na sua própria margem. Ou mesmo, na negação de investimentos feitos para a margem e junto com a margem. Mas, quem é a margem? – alguém pode perguntar. A margem no Brasil é a maioria, mar de pessoas que sustenta e organiza a vida do mínimo de pessoas que curtem a brisa do mar (e que reforça os sentidos da categoria analfabetismo). E alguém também pode perguntar: mas o mar não está para todos? E eu devolvo: mas a brisa também está? Em geral, as respostas podem ser semelhantes: entre um sim e não.

Entre o ‘sim’ e o ‘não’ são dispostas as fissuras complexas que ajudam, por exemplo, a alimentar os nossos analfabetismos. E onde também se inserem atividades como a FLUP e as suas pretensões celebrativas em torno da prosa e da poesia feitas pelas mãos do Brasil da margem, para a margem e com a margem. Neste ano, na sua nona (?) edição, a FLUP inova e radicaliza mais uma vez na tarefa de romper com os analfabestimos à brasileira instalados. Assumindo o desafio de se reinventar no universo online, a Festa Literária abraça a possibilidade de se colocar numa amplitude de interlocução direta com o Brasil – expandido seu território para além do Rio de Janeiro. Essa expansão criou diálogos entre a Festa Literária e as vozes/escritas/sensações e experiências daquelas que são dentre todos os grupos as consideradas mais analfabetas, aquelas que terão as justaposições dos analfabetismos: analfabeta funcional, completa, acadêmica, politica e no existir – as mulheres negras.

A FLUP vai conversar com essas mulheres, vai centralizar essas experiências – com finalidades de combater esses analfabetismos que o Brasil ainda assente, ainda considera e mesmo se organiza institucionalmente como uma agenda do Estado. A FLUP vai em busca dessas mulheres utilizando uma das maiores credenciais em termos de combate aos sentidos ofertados ao analfabetismo no Brasil: Carolina Maria de Jesus e sua sexagenária obra ‘O Quarto de Despejo’. Carolina e seu livro são o tema e a provocação ofertadas pela FLUP em 2020. O analfabetismo brasileiro nas suas características simbólicas colocou, por exemplo, Carolina Maria de Jesus como uma escritora sem técnica, sem robustez semântica, sem intimidade com a gramática. Quando analfabeto é o Brasil que se nega a ter letramento para ler a força que as palavras de Carolina têm, e tudo que ela ensina e mobiliza.

Carolina e sua obra são revolução. Pautadas por todas as mulheres negras que partilharam e compartilharam suas experiências nas atividades do FLUP Pensa. Essas mulheres também assistiram e interagiram com diversas outras mulheres negras nos painéis online. Essa revolução chamada Carolina movimenta e mobiliza várias das muitas Carolinas do imenso e plural Brasil. A revolução de caneta, papel ou meio digital na mão em nome da derrocada da instituição “desafalbetização”. A mobilização em nome de entender a importância da reflexão que cuide na compreensão de quem se propôs em narrar com sobriedade e extrema vivacidade a História e estórias desse país, assim como fez Carolina Maria de Jesus. E aqui, sendo resgatadas pela FLUP a partir da convergência fundamental para o diálogo: mulheres negras. Carolina, a FLUP e as mulheres negras são o exército de Ogum com espada na mão cortando todos os obstáculos que insistem em não permitir a erradicação dos nossos diversos analfabetismos.

 

Confira todas as informações sobre a Flup 2020 no site: https://www.flup.net.br/flup-2020

 

 

*Preta nagô, neta de Zé Paizinho, neta de uma Rendeira, filha de Professora, Ekédjí no Ilê Axé Omin Mafé. Doutoranda em Antropologia pela UFSC/NUER. Em 2020 foi umas mulheres negras selecionadas para o FLUP Pensa – atividade vinculada a FLUP – Festa Literária das Periferias. Neste ano, a atividade FLUP Pensa foi dirigida para laboratórios de escritas para mulheres negras de diversas regiões do Brasil. Somado a isso, as participantes e o público em geral puderam interagir virtualmente com autoras, pesquisadoras e pensadoras negras nos painéis online. Essas atividades aconteceram sobre a chave de celebração e exultação da obra sexagenária ‘O Quarto de Despejo’ de Carolina Maria de Jesus. Integra a Ong Casa de Mar; o Coletivo de Estudantes Negras e Negros Beatriz Nascimento/UFS; GERTS/UFS e NEABÍ/UFS.