Por  Lecco França*

O filme moçambicano Resgate: quando o passado bate à porta (2019) é o primeiro longa-metragem dirigido pelo jovem cineasta Mickey Fonseca, uma produção independente da Mahla Filmes, produtora moçambicana da qual ele é um dos sócios-fundadores. O projeto teve início em 2012, em 2016 foi realizada uma campanha de financiamento coletivo e em 2018 foram iniciadas e concluídas as gravações. O filme estreou em Moçambique no dia 18 de julho de 2019, ocupando quatro salas de cinema, e ultrapassou cinco mil espectadores no país, em apenas quinze dias. Também já foi exibido em Angola e Portugal, e participou de festivais internacionais, como o Festival Panafricano de Cinema (FESPACO), em Ouagadougou, Burkina Faso. Aqui no Brasil, o filme foi exibido pela primeira vez ainda no ano passado, dentro da programação da Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba, em parceria com a Virada Sustentável Salvador. Eu, como um dos curadores da mostra, fiquei muito feliz em ter articulado esse lançamento, junto ao diretor e aos produtores, Pipa Forjaz e Maura Quatorze.

Em julho de 2020, Resgate entrou no catálogo da Netflix, provedora global de filmes e séries de televisão via streaming, sediada na Califórnia, Estados Unidos, que atualmente possui mais de 160 milhões de assinantes. Nos últimos anos, ela tem investido em produções africanas, em especial da Nigéria e da África do Sul, países de língua oficial inglesa. É a primeira vez que um filme dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) passa a fazer parte da programação do streaming. Aqui no Brasil, a produção tem ocupado espaço entre os dez filmes mais vistos nesta plataforma. A narrativa conta a história de Bruno, um homem recém-saído da prisão, com esposa e uma filha para sustentar, que tenta retomar sua vida após quatro anos de detenção. Ao longo da trama, ele se depara com uma série de empecilhos, como a dificuldade de conseguir emprego, sendo agora ex-presidiário, a baixa remuneração salarial e a enorme dívida financeira que sua mãe adquiriu antes de morrer. Tudo isso, aliado a antigas e questionáveis amizades, que o direcionam novamente para a criminalidade.

Nesse sentido, o filme aborda diferentes problemas comuns a grandes cidades contemporâneas, como Maputo, capital de Moçambique, principal cenário da trama, a exemplo do desemprego, da falta de habitação (por exemplo, a moradia de sua esposa é uma ocupação ou a luta dele em manter a casa da mãe, pagando as prestações de um empréstimo), banalização da violência (através da exposição de armas e agressões físicas ou opressão à mulher), desigualdades sociais (principalmente pela presença de estrangeiros), divergências étnico-raciais, falta de assistência pública (a mãe de Bruno faz em empréstimo no banco para arcar com as despesas no tratamento do câncer), aumento da ganância e da corrupção em uma sociedade já integrada ao capitalismo (referência ao dinheiro, à instituições bancárias e suas cruéis políticas de exploração dos menos favorecidos, com as cobranças de juros extorsivos) e ao sistema carcerário. Do outro extremo, a esposa de Bruno, Mia, e a tia dele, únicas figuras femininas de destaque na trama, tentam dissuadi-lo desse retorno à vida criminosa.

A partir daí, sucessivas ações malfadadas, que envolvem contratando de mercadorias e tentativas de sequestro, resultam em destinos trágicos para muitos personagens do filme. A canção “Nem tudo que brilha é ouro”, interpretada por Dinho Goco e Regina dos Santos, que encerra e sintetiza a história, após uma sequência de mortes, ressalta, justamente, a intenção do diretor em enfatizar que o crime não compensa.

 

*Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia e Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).