O II Fórum Mulheres Negras e Poder também focou na construção de estratégias contínuas para emplacar mais mulheres negras na política

Por Andressa Franco / Imagem: Encontro em Fevereiro de 2020*

Na manhã desta sexta-feira (11) se encerrou o II Fórum Mulheres Negras e Poder, que reuniu mais de 100 mulheres, incluindo candidatas e políticas eleitas, em um encontro virtual para debater o processo eleitoral de 2020 na Região Nordeste. A iniciativa faz parte do Projeto Mulher Negra e Democracia, organizado pela Casa da Mulher do Nordeste, em parceria com organizações como a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras do Nordeste. O projeto é responsável por impulsionar uma série de ações que visam a promoção da participação política das mulheres negras, entre elas, a campanha Eu Voto Em Negra.

A primeira edição do Fórum Mulheres Negras e Poder aconteceu presencialmente em fevereiro deste ano, em Recife (PE), mas, por conta da pandemia, dessa vez o evento foi transmitido pelo YouTube e também pelo Facebook, sendo o segundo dia exclusivo para inscritas e convidadas, sem transmissão ao vivo pelas redes sociais.

O primeiro dia do evento, quinta-feira (10), contou com programações nos períodos da manhã e pela tarde. A representante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Piedade Marques, abriu a transmissão destacando as dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19 e os objetivos do encontro.

A conferência abertura do Fórum foi realizada por Valdecir Nascimento, coordenadora do Odara Instituto da Mulher Negra, do Fórum Permanente pela Igualdade Racial (FOPIR) e da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). A ativista, de 61 anos de idade e mais de 40 dedicados à luta antirracista, foi responsável pela análise de conjuntura e relembrou sua fala no primeiro fórum a respeito de pressionar os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff no sentido de apoiarem as candidaturas lançadas pela campanha Eu Voto Em Negra. “Nós não conseguimos que eles fizessem isso. Esses são sinais para nós que estamos construindo um processo tão coletivo, tão popular, comecemos a perceber quem são os aliados e quem serão as barreiras que vamos enfrentar no decorrer da construção desse processo”, alerta.

Nascimento também chamou atenção para a necessidade de estruturar um projeto político de ordem mais humana e equânime. “É óbvio que as forças que sempre dominaram e conduziram essa nação não vão abrir mão desses privilégios, portanto faz-se necessário que a gente avance com qualidade, reflexão, estratégias de curto, médio e longo prazo”.

Valdecir Nascimento é coordenadora do Odara Instituto da Mulher Negra, do Fórum Permanente pela Igualdade Racial (FOPIR) e da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB)

Em falas potentes, as representantes da Coalizão Negra por Direitos, Maria José Menezes, e da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, Ingrid Farias, criticaram a estrutura partidária que, mesmo de esquerda e progressista, é liderada e investem no protagonismo de homens brancos. “Essa manutenção está dada não só no campo da direita fascista, a esquerda brasileira é extremamente branca e têm, inclusive, compreendido nos últimos períodos esses levantes do movimento de mulheres, do movimento negro e muitas vezes se apropriado desse discurso sem promover uma mudança estruturante nos seus processos internos”, avalia Farias.

Ingrid Farias, fundadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA) – Imagem: Reprodução Redes Sociais

Ao logo deste bloco, algumas candidatas do pleito 2020 como Lu Mattos (PCdoB – PE), Jandira Mawusí (PSB – BA), Biatriz Santos (PT – PE) frisaram a questão do racismo e invisibilização dentro dos partidos, e a coragem das mulheres negras que se colocaram na disputa. Elas também reforçaram o discurso da ocupação das estruturas partidárias e a necessidade de se pensar os planos políticos não apenas no período do pleito, mas desde as pré-campanhas.

Em entrevista à Afirmativa, a vereadora reeleita em 2020 em Salvador, Marta Rodrigues (PT – BA), 61 anos, discorda da leitura geral da derrocada da esquerda e interpreta os resultados do dia 15 de novembro como uma estabilização do cenário das eleições anteriores, com a diminuição de prefeituras pela maioria dos partidos.

Em sua análise, Rodrigues destaca que apesar do crescimento de negros eleitos nas Câmaras Municipais não ter sido expressivo, passando de 42% para 45% das vagas, o país teve pela primeira vez mais candidatos autodeclarados negros do que brancos. “O saldo numericamente pode não ter sido satisfatório, mas a resposta a isso não foi tão baixa como querem imputar forças políticas da direita e como a grande imprensa tenta passar, para vulnerabilizar a esquerda brasileira”, para a vereadora, o contexto mundial de 2020, que inclui a queda do presidente americano Donald Trump e os caminhos tomados no debate do antirracismo depois do caso George Floyd, também teve uma influência positiva nas eleições.

Marta Rodrigues (PT) foi reeleita vereadora em Salvador – Imagem: Reprodução Redes Sociais

 

Ameaças e Intimidações

 Erika Hilton (PSOL – SP), mulher negra, primeira vereadora transexual de São Paulo, Ana Lúcia Martins (PT – SC), primeira mulher negra eleita para compor Câmara de Joinville, Caroline Dartora (PT – PR), primeira vereadora negra eleita em Curitiba, são alguns dos nomes que sofreram intimidações a ameaças de morte para que não assumam os cargos em 2021. Talíria Petrone (PSOL – RJ), deputada federal eleita em 2018 pelo Rio de Janeiro, não pôde votar esse ano devido às ameaças, situação que relata em carta de denúncia à ONU.

De acordo com a pesquisa “Violência Política Contra Mulheres Negras”, realizada pelo Instituo Marielle Franco, mais de 70% das mulheres negras que disputaram o pleito municipal de 2020 foram agredidas durante suas campanhas. Os desafios hoje, segundo Zuleide Queiroz (PSOL – CE), 56 anos, candidata à prefeitura do Crato, no Ceará, que recebeu quase 11% dos votos válidos, passam por acompanhar essas mulheres eleitas, apoiar suas pautas no dia a dia as cobrindo tanto com solidariedade, quanto com o apoio técnico necessário para construir essas pautas, e continuar com as denúncias.

“Muitas lideranças dos direitos humanos no Brasil são mortas já há muito tempo e tem se intensificado no governo Bolsonaro. Estamos no movimento nacional, estamos fazendo notas e cards de apoio a essas mulheres independente dos partidos que elas estejam para informar a sociedade que não vamos aceitar essa intimidação”, relata Queiroz, que também é professora da Universidade Regional do Cariri.

Zuleide Queiroz foi candidata a prefeita de Crato (CE) pelo PSOL – Imagem: Reprodução Redes Sociais

 

Cotas e Autodeclaração – “Nada sobre nós sem nós”

As eleições deste ano foram as primeiras com aplicação da regra de distribuição proporcional de recursos de campanha entre candidatos negros e brancos, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Paralelo a isso, observamos dezenas de milhares de candidatos mudarem a auto declaração racial. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 36% dos candidatos alteraram a cor branca para parda e 30% de pardos para brancos. Em 2016, os autodeclarados pretos não chegavam a 45 mil, esse ano chegaram a 56 mil.

A candidata à vereança em Aracaju (SE), Gigi Poetisa (PSOL), agente de saúde de 54 anos, conversou com a Afirmativa sobre esse processo na cidade onde concorreu. “Aqui foi muito difícil. Nos partidos de direita até entendemos, mas nos de esquerda foi assustador, não sabemos que esquerda é essa. Foram muitas desculpas de que o registro de candidatura levava os dados do registro de nascimento, no entanto é a pessoa que se autodeclara. Apropriação identitária deveria ser crime inafiançável”, desabafa.

Gigi Poetisa se candidatou pelo PSOL em Aracaju (SE) – Imagem: Reprodução Redes Sociais

 

As medidas tomadas por Gigi e demais candidatas negras foram denunciar candidatas e candidatos brancos que se autodeclararam como negros, além de pedir retratação e a devolução do financiamento partidário destinado às cotas raciais e a redistribuição do recurso. A frase que Poetisa sempre repete resume a questão: Nada sobre nós sem nós.

“Precisamos aquilombar nossos corpos, nossos pensamentos e nosso povo, estamos nos Movimentos sem nos movimentar ideologicamente. Esse é um diagnóstico do analfabetismo político que acompanha o nosso povo, precisamos deixar de servir aos senhores e senhoras das casas grandes. Mas não é nossa culpa, é preciso fortalecer nossa base para enegrecer o sistema. O processo de transformação é lento mesmo, o formato político desse sistema nos espaços de poder ainda é de cooptar nossos irmãos com CCs – cargos cuja nomeação cabe ao prefeito -, vejo muitos deles com medo de perder seus cargos, ainda assim preferem viver atrás das portas dos gabinetes do que libertar nosso povo desse sistema onde o racismo estrutural nos mata todos os dias”, completa Poetisa, que já carrega 36 anos de militância no movimento negro em sua trajetória.

 

Dividindo experiências

Sob a mediação da comunicadora Manina Aguiar, candidatas de diversas cidades do Nordeste compartilharam um pouco da sua experiência durante a campanha eleitoral no segundo bloco do Fórum.

A candidatura coletiva Pretas Juntas, que ficou na primeira suplência do PSOL para a cadeira de vereadora no Recife (PE), até o momento não foi chamada para nenhuma conversa com o partido. As “co-candidatas” Elaine Silva e Débora Aguiar fizeram falas emocionadas sobre a campanha.

Compondo o Coletivo de Mães Independentes, mulheres que foram à justiça em busca da possibilidade de cultivar cannabis para medicar seus filhos de forma independente, segura e econômica, Elaine se faz uma voz ativa no debate da maternidade. Sendo essa a primeira eleição da qual participou, ela conta ter se emocionado com a oportunidade de estar nas comunidades e conversar com os eleitores e eleitoras ouvindo principalmente mulheres, mães e pretas periféricas.

Débora Aguiar também fez um balanço das adversidades e bons momentos pelos quais a candidatura das duas vivenciou. “Passamos por processos de segregação, questionamentos sobre a nossa inteligência, poucos recursos e silenciamento, mas também passamos por processos de muita vitória, que foi ter 2.965 pessoas que acreditaram no nosso projeto político, a gente não abriu mão do debate racial, antiproibicionista, da periferia, do debate materno e fazer isso acarretou processos de dor, mas também de muita vitória e confiança do povo com a gente”.

Em uma proposta antirracista para além do discurso, todas as pessoas brancas que trabalharam na campanha das Pretas Juntas foram voluntárias, enquanto todas as pessoas pretas foram remuneradas.

Entre relatos que pautavam desde a construção de uma campanha com linguagem diferente da linguagem política padrão até a importância do espírito da juventude nos espaços políticos, o evento se encerrou com perspectivas de estratégias para o futuro, com a intenção de construir um movimento de ocupação de mulheres negras nos espaços de poder, e a importância de se manter unidas.

“A expectativa é romper com a branquitude e aquilombar nos partidos de esquerda, voltar pra base dos 4 P’s: povo, preto, pobre e periférico. Realizar formação política com o nosso povo, usar a arte, a cultura e afrocentrar o debate político dentro e fora dos partidos. Começar já a ‘tomar de assalto’ a direção dos partidos ao qual estamos filiadas e filar nosso povo. 2022 será desafiador por ser uma disputa estadual”, projeta Gigi Poetisa.

O último momento do Fórum, na manhã desta sexta (11), foi dedicado exclusivamente à discussão de estratégias para manter as mulheres negras que foram eleitas no poder com o apoio necessário e incentivar a candidatura de outras.

 

* A imagem destaque é de Fevereiro de 2020, quando ainda não havia pandemia e as medidas de distanciamento social