Por Lecco França*

Nos últimos anos tem crescido o número de filmes brasileiros, em especial de curta-metragem, dirigido por diretores e diretoras negros, que se debruçam sobre vivências de crianças negras, grupo etário e racial historicamente pouco visibilizado no cinema, ou, quando isso acontece, muitas vezes de forma negativa e estereotipada (como a abordagem da criança pobre, favelada, que comete pequenos delitos). Vale ressaltar que, apesar de o censo nacional não levar em consideração essa faixa etária nas suas pesquisas, esse grupo representa uma parcela significativa da população brasileira. Assim, para ilustrar essa questão, três filmes foram escolhidos para esta análise, todos curtas-metragens contemporâneos, da nova safra de diretores e diretoras negros do país: Cores e botas (2010), dirigido pela paulista Juliana Vicente, A piscina de Caique (2017), dirigido pelo goiano Raphael Gustavo da Silva e Dara – a primeira vez que fui ao céu (2017), dirigido pelo paulista Renato Candido de Lima.

O primeiro conta a história de Joana, uma menina negra na década de 1980, que tinha um sonho comum a muitas outras garotas de sua idade naquela época: ser paquita, nome dado às auxiliares de palco da apresentadora de TV Xuxa Meneghel, quando apresentava o seu famoso Show da Xuxa, na Rede Globo. Entretanto, para assumir tal função, era necessário ser branca e loira, o que não correspondia às características fenotípicas de Joana, o que denuncia todo um processo racista que ainda hoje se evidencia na televisão aberta brasileira. Outro aspecto importante do filme é a representação da família de Joana, composta pelo pai, pela mãe e o irmão mais velho, que a apoiavam em todos os seus sonhos, e a condição financeira dela, de classe média, aspectos que contribuem na desconstrução de estereótipos de pessoas negras no audiovisual.

A piscina de Caíque também lida com os sonhos de uma criança. No caso de Caíque, seu desejo era ter uma piscina em casa. Enquanto isso não se realizava, diante das dificuldades financeiras de sua família, ele brincava com seu amigo na varanda de casa, jogando água no chão e deslizando sobre o piso. O garoto vivia com a mãe e o avô. Um aspecto importante do filme é a abordagem com a qual o diretor conta essa história, enfatizando o desejo de brincar, a naturalidade de ser criança, em um contexto brasileiro muitas vezes cruel com elas (como o trabalho forçado, a violência urbana e o assédio sexual). A mãe de Caíque é uma mulher solteira, que trabalha o dia inteiro para sustentar o filho e tem o apoio do pai dela, avô de Caíque, que substitui a figura paterna, realidade muito recorrente na vida de diversas crianças negras desse país. Temos de um lado, o carinho e cuidado do avô, do outro, o jeito mais rigoroso da mãe na educação do filho. Ainda no filme, Caíque lida com situações da vida adulta que muitas crianças negras acabam encarando, como falta de infraestrutura no bairro onde mora, problemas financeiros, ausência do pai e pouco contato diário com a mãe, por conta do trabalho.

O terceiro filme conta a história de Dara, uma garota negra de 10 anos, que vivia na região rural de Nova Soure, estado da Bahia, com os avós e seu irmão mais novo, na década de 1960. Seu único desejo era montar um pequeno balanço no cajueiro do sítio onde morava, mas a venda do sítio e viagem para São Paulo, onde lá estavam seus pais, impediram que realizasse esse sonho. Um aspecto importante abordado no filme é justamente o processo de migração de nordestinos para grandes cidades a exemplo de São Paulo, em busca de melhor.

Além do protagonismo de crianças negras, da leveza em que conduzem as narrativas, os filmes são delicados com a construção das personagens, com a condução dos seus roteiros e suas respectivas montagens, apresentando narrativas imagéticas que exploram a beleza das relações de carinho e afeto entre crianças e adultos, a pureza e sonhos da infância, e da forma cuidadosa com que elas lidam com seus problemas.

Os três curtas metragens já circularam em inúmeros festivais nacionais e internacionais, receberam muitos prêmios, reforçando o reconhecimento do público e da crítica especializada, e estão disponíveis gratuitamente na internet.

 

*Lecco França é professor universitário, pesquisador, escritor, cineclubista, curador e crítico de cinema. Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). E-mail: leccofranca@gmail.com.