Em tentativa de conter a tragédia, vários estados recebem pacientes amazonenses e coletivos locais se mobilizam com arrecadações

Por Andressa Franco / Imagem: Agencia Brasil

Na última quinta-feira (21) o estado do Amazonas completa uma semana vivendo o colapso que gerou o caos mais significativo da segunda onda da pandemia de Covid-19 no Brasil até o momento.

Apesar da onda de otimismo geral pela chegada da vacina no estado, muitos especialistas têm alertado para o fato de que o início da vacinação não significa o fim da pandemia, o medo é que a situação do Amazonas se repita em outros estados devido ao período de férias e verão que podem gerar aglomerações e, consequentemente, contágio.

Em novembro do ano passado, as atenções do país foram voltadas para o norte também em meio a outra crise, o apagão no Amapá, quando, por três semanas, 13 dos 16 municípios do estado vivenciaram um blecaute que gerou tensão em todas as instâncias, e principalmente nos hospitais que precisaram funcionar à base de geradores. Mais uma vez a região vivencia mais uma calamidade pública que tem como consequência a perda de muitas vidas.

Foi na última quinta-feira (14) que o alerta crítico foi anunciado com o Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) informando que estavam perdendo pacientes, não só de Covid, mas também internados por outros motivos e que também precisavam do oxigênio. O HUGV, administrado pela Universidade Federal do Amazonas e que foi visitado pela equipe do Ministério da Saúde dias antes do colapso, estava funcionando justamente como uma alternativa para desafogar o sistema de saúde do estado devido aos altos números de casos de coronavírus.

O problema logo se estendeu para as outras unidades de Manaus, como no Hospital 28 de Agosto, que também informou estar nas últimas horas de oxigênio, gerando desespero na população. Importante lembrar que nenhum dos hospitais do interior do estado tem Unidades de Terapia Intensiva, dependendo inteiramente da capital amazonense.

Com um extenso currículo na área da saúde, Luiz Antônio Nolasco, que foi gestor municipal no SUS em 3 cidades no país e gestor federal no Ministério da Saúde  na área de planejamento, não foi surpreendido. “Infelizmente, uma situação desastrosa, mas possivelmente evitável. O Ministério da Saúde tem um corpo técnico capaz e comprometido. O mesmo, certamente, ocorre na gestão do SUS no Amazonas e Manaus. Contudo, o que me parece óbvio é a não consideração por parte dos tomadores de decisão acerca do que recomenda as boas práticas de planejamento e gestão. Certamente, como pode ser encontrada nos meios de comunicação, uma série de avisos, alertas, relatórios foram feitos e desconsiderados ou ainda negligenciados por decisores, tanto no nível local quanto nacional. A consequência disso é desastrosa. Não há o que amenizar”, pondera Nolasco.

Luiz Antônio Nolasco, ex-gestor municipal e federal do SUS

Luiz Antônio também é enfermeiro de Saúde Pública pela Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ), especialista em programação de serviços de saúde e mestrando em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Fiocruz) e ex-coordenador do Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde (2005).

 

Resposta das Autoridades

A justificativa do governo do Amazonas para o colapso no sistema de saúde foi o pico de consumo do oxigênio nesse novo aumento do número de contaminados pela segunda onda da pandemia. Um pico de fato muito superior ao de abril, quando, segundo o estado, foram 30 mil metros cúbicos por dia de consumo de oxigênio, tendo agora atingido 76 mil, uma quantidade muito maior do que as principais fornecedoras do Amazonas podem produzir.

Apesar de serem esperadas aglomerações em todo o país durante as festas de final de ano, o governador amazonense Wilsom Lima (PSC) revogou o decreto de fechamento do comércio durante 15 dias depois de muita pressão e manifestações de empresários e comerciantes, com suporte de muitos apoiadores do governo Bolsonaro.

Em entrevista à GloboNews o ex-Ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, que estava à frente da pasta no início da pandemia, revelou ter alertado o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para a situação do sistema de saúde de Manaus, e que havia a possibilidade da falta de oxigênio, como aconteceu parcialmente na Itália. Caso semelhante é o da Força Nacional do SUS, grupo formado em 2011 por profissionais de saúde, que enviou diariamente relatórios técnicos informando a situação das unidades de saúde de Manaus para o Ministério da Saúde. Uma das razões das intensas críticas ao atual Ministro Pazuello é justamente o fato de desde o dia 08 de janeiro esses relatórios terem começado a apontar e prever o problema da escassez crítica de oxigênio.

Para evitar que mais pacientes morressem por asfixia, a primeira medida que o governo do estado apresentou foi uma força tarefa em parceria com o governo federal pra transportar cilindros de oxigênio de outros estados, que foram levados pelos aviões da FAB. Também foi anunciada a transferência de 235 pacientes para hospitais universitários de outros estados e até o momento mais de 130 pacientes foram transferidos, além dos 60 bebês que foram transferidos para São Paulo.

Também foi feita a transferência de alguns pacientes de quadros clínicos, não graves, para a rede estadual de saúde de Goiás, na intenção de liberar leitos e oxigênio.

Apesar de alvo constante de críticas do governo federal, a Venezuela também se movimentou para realizar a doação de um carregamento com 136 mil metros cúbicos de oxigênio, que chegaram a Manaus na noite da última terça-feira (19).

Apesar de todas essas medidas, Luiz Antônio não acredita que a crise vai atingir todos os manauaras igualmente. Para ele, negros, pobres e indígenas serão ainda mais prejudicados. “O princípio da equidade, tão fundamental na constituição do SUS, existe como estruturante na organização da atenção à saúde exatamente porque temos como base que não se trata de maneira igual aquilo que é diferente. Esta diferença tem aspectos de gênero, cor/étnico, geracional e social, para ficar nos mais conhecidos”, explica Nolasco. “Certamente as periferias, os grupos sociais vulnerabilizados, as comunidades indígenas estarão entre os mais atingidos. Aquilo que se dizia no início da pandemia, de que ela igualaria a todos, não se sustenta. As camadas privilegiadas da sociedade, ainda que acometidas pela doença, têm muito mais recursos e possibilidades do que a população negra, indígena e periférica. Isso em qualquer cidade do nosso país”.

Para controlar o número de casos e não sobrecarregar ainda mais o sistema de saúde, a justiça cancelou as provas do Enem no estado, que foram adiadas para os dias 23 e 24 de fevereiro. Também foi decretado um toque de recolher com exceção dos serviços considerados essenciais.

 

Mobilização Local

Não demorou para que coletivos e movimentos locais começassem a se mobilizar para conter o impacto da tragédia em curso, foi o caso da Coletiva Banzeiro Feminista.

“A gente está tentando dar uma resposta enquanto sociedade civil a um colapso programado, agendado, com hora marcada e com o aval do Estado brasileiro, com o aval do presidente Jair Bolsonaro, com a omissão e o aval também do govenador Wilson Lima e de tantos outros governantes que tinham ciência porque foram avisados que as pessoas iriam morrer”, comenta a historiadora e mestranda em Sociedade e Cultura pela UFAM, Aline Ribeiro, uma das fundadoras da coletiva.

“As pessoas aqui no Amazonas não estão morrendo de Covid, estão morrendo por falta de oxigênio. Não é uma inflamação que chegou em um nível que não tem o que fazer, a gente sabe o que tem que fazer”, desabafa a militante. “Chegam mensagens dizendo que tal unidade de atendimento só tem autonomia de oxigênio para mais 40 minutos, as empresas estão colapsadas também, não conseguem atender a demanda, e a gente tá falando de pessoas que têm condições de dar R$1.000,00 em um cilindro de oxigênio e a gente sabe que a grande maioria do nosso povo não tem, é por isso que a gente tá se arriscando, se organizando, fazendo o que pode pra tentar salvar algumas dessas vidas”.

Segundo Ribeiro, até os hospitais particulares estão fechando atendimento antes das 18h, sobrecarregando ainda mais o hospital público e passando uma imagem de que apenas o SUS tá colapsando. “Todo o sistema de saúde do Amazonas está em colapso, se a gente cair e quebrar o braço ali agora é aqui que a gente vai ficar, e se a gente conseguir atendimento no hospital corre risco de pegar Covid e morrer daqui há 15 dias sem conseguir respirar”, relata.

Coletiva Banzeiro Feminista em ação de arrecadação de bombas de oxigênio

A Coletiva Banzeiro Feminista é um dos movimentos que está organizando vaquinhas, arrecadações, depósitos em conta corrente, e com isso tentam ajudar a comprar as balas de oxigênio ou outros insumos. De acordo com Ribeiro, as balas de oxigênio estão sendo encontradas no valor de R$1000,00, mas às vezes é possível encontrar alguns lugares que ofertam em um valor mais baixo. Para isso, é preciso madrugar nas filas, onde muitos chegam a desmaiar devido ao tempo de espera.

“A gente conta também com uma invisibilidade tremenda sobre nossos corpos enquanto mulheres da Amazônia, enquanto pessoas da Amazônia, o Amazonas tá morrendo ofegante. As vidas amazonenses importam e a gente pede ajuda”, acrescenta.

Outro grupo que também está envolvido nas mobilizações é o Coletivo Difusão, que desde o início da pandemia vem trabalhando em ações voltadas para o eixo cultural, mas que tornou a interromper seus projetos devido à intensidade da segunda onda de Covid-19.

Coletivo Difusão no Festival Até o Tucupi de Negritude 2020

Michele Andrews, além de produtora cultural, ativista e militante do movimento negro, feminista e da cultura, integra o Coletivo Difusão e listou algumas das ações que conseguiram desenvolver. Por exemplo, estão integrando uma rede de articulação de combate à Covid chamada Amazonas Pela Vida, onde listam instituições, grupos, coletivos e lideranças comunitárias que estão precisando além dos EPIs, de oxigênio, de recursos de combate à fome. Assim fazem a arrecadação e direcionam para os grupos.

“A pandemia criou uma rede de empatia e solidariedade por algumas pessoas e essas pessoas ajudam, mas agora na segunda onda a gente identificou que só a sociedade civil não vai dar conta, a gente precisa de um esforço dos parlamentares”, explica Andrews. “Estamos em estado de emergência, a cada minuto que a gente não se articula, não arrecada, alguém está passando fome ou sem oxigênio ou sem sabão pra lavar a mão. É importante fortalecer o SUS porque no final a privatizada não vai te aceitar mesmo com o Ministério Público entrando lá e falando que tem que abrir as portas da UTI da privatizada para atender alguém do SUS, não vai, é o que está acontecendo aqui em Manaus”.