Por Lecco França*

Imagem: Reprodução Netflix

Qual a sensação de um jovem negro ao ver um corpo morto de um semelhante em vias de ser dissecado? Quantos jovens negros desaparecem diariamente no Brasil, deixando suas famílias desoladas? Quantos jovens negros conseguem adentrar em cursos tradicionais de Ensino Superior em universidades públicas brasileiras? Essas são as principais questões que conduzem a narrativa do longa-metragem M8 – Quando a morte socorre a vida (2019), dirigido pelo consagrado cineasta paulista Jeferson De e disponível no Netflix.

Com roteiro de Jeferson De e Felipe Sholl, baseado no romance homônimo de Salomão Polak, a trama conta a história de Mauricio, interpretado por Juan Paiva, jovem negro que ingressa no curso de Medicina, através da política de cotas implantadas em todo o país durante o governo da presidenta Dilma Rousself. De acordo com o estudo feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), em 2010, apenas 8,4% dos estudantes do curso de Medicina eram negros, com um singelo aumento, em 2018, para 24,6%, o que revela o contexto de racismo estrutural que ainda se configura na sociedade brasileira.

Na faculdade, o protagonista depara-se e tem que enfrentar o racismo institucional internalizado em espaços segregadores como esse e nas pessoas que os circundam, na sua maioria, pessoas brancas e de classe média. Durante uma aula prática de Anatomia, por exemplo, em que os estudantes precisam dissecar corpos, Maurício, único negro na turma, não esconde seu desconforto ao se deparar apenas com corpos negros que serão utilizados ao longo do semestre, para depois serem descartados na vala pública da prefeitura como indigentes. Então, motivado por essa angústia e por questões espirituais, ele vai investigar a história de um desses corpos, identificado como M8, jovem negro interpretado por Rafael Logam, que tinha uma vida e uma família que o procurava. Nesse sentido, o filme proporciona uma reflexão diferente sobre a morte, ao articular isso com o espiritual e a ancestralidade.

Segundo o Atlas da Violência, divulgado em 2020, pessoas negras representaram 75,7% das vítimas de todos os homicídios no Brasil em 2018. Muitos desses corpos, quando não encontrados, são expostos incessantemente pelos meios de comunicação tradicionais, principalmente programas policiais sensacionalistas. Entre os sujeitos negros vitimados no filme, desconhecidos ou conhecidos publicamente, estão M8, cujo corpo ansiava por um enterro digno como forma de dar paz ao seu espírito; e também Marielle Franco, ativista assassinada em 2018, cujo crime ainda não foi solucionado com a devida punição dos envolvidos, e cuja imagem dela aparece estampada em um grafite na rua em que Mauricio passa todos os dias. Isso mostra que a exposição à violência do racismo independe de estar vivo ou morto.

A história se passa no Rio de Janeiro, cujos espaços sociais e étnico-raciais da cidade são bem demarcados, como a zona sul e a zona oeste. Nesse contexto, o filme apresenta diferentes formas de violência das quais são expostas a Maurício, a depender dos locais onde ele transita: agressão policial, discurso preconceituoso da mãe de sua namorada branca, olhares suspeitos da empregada e do porteiro negros no prédio de um bairro nobre, tudo isso na zona sul, além da perseguição do colega branco na faculdade, e até mesmo racismo dentro do ônibus. Como suporte e apoio emocional, do outro lado, tem-se a mãe de Maurício, Cida, interpretada brilhantemente pela atriz Mariana Nunes, uma mãe atenciosa, dedicada e que respeita o tempo do filho para falar de suas emoções, ou o desinteresse dele de ir ao terreiro, mas que sabe ser incisiva, quando necessário, ao reivindicar seu direito de fala. Ainda no elenco, participações especiais de atores e atrizes negros, como Ailton Graça, Zezé Mota, Rocco Pitanga, Lázaro Ramos, Lea Garcia e Alan Rocha.

Com fotografia de Cristiano Conceição e montagem de Quito Ribeiro, o filme constrói uma narrativa muito coerente com doses de drama, em especial nas cenas de diálogo entre Cida e Maurício, e de suspense, através do jogo de claro-escuro nas cenas de pesadelos de Maurício e nos seus encontros com M8.

 

*Professor universitário, pesquisador, escritor, cineclubista, curador e crítico de cinema. Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). E-mail: leccofranca@gmail.com.