Por Elizabeth Souza
O chapéu, com inúmeras tiras coloridas, a gola perfeitamente bordada com lantejoulas, a lança (também chamada de guiada), que em suas mãos torna-se um instrumento de luta e bravura. Tudo no caboclo de lança é beleza, resistência e mistério. “Ele é um guerreiro indígena”, explica Manoelzinho Salustiano, de 56 anos, ao se referir a essa que é uma das figuras mais enigmáticas e icônicas do maracatu de baque solto (MBS) e da cultura pernambucana.
“O maracatu de baque solto cultua os caboclos da mata. A gente faz oferenda de mel, frutas e flores para buscar proteção”, continua Manoelzinho, destacando a ancestralidade indígena do maracatu, que é o terreiro encantado do caboclo de lança. Um diálogo com uma herança que data do final do século XIX, onde tudo começou pelos engenhos de cana-de-açúcar, na Zona da Mata Norte pernambucana. Uma história de celebração e luta escrita por pessoas escravizadas, humildes e trabalhadoras que atuavam no corte da cana, que atravessou gerações e hoje permanece viva e pulsante.
Resistência que se traduz no reconhecimento alcançado. Desde 2014, o maracatu de baque solto é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Reconhecimento conquistado junto ao maracatu de baque virado.
Maracatu de baque solto
O maracatu de baque solto (ou maracatu de orquestra) é uma nomenclatura que o diferencia do maracatu de baque-virado (ou maracatu nação) . Essas definições ganharam repercussão a partir dos estudos do musicólogo César Guerra-Peixe (1914-1993), através do livro “Maracatus do Recife”, publicado em 1955. De acordo com ele, a diferenciação surge a partir da toada, sendo o baque virado uma referência à percussão executada por conjuntos formados por mais de uma zabumba (ou alfaia). Também fazem parte desse grupo instrumentos, como: caixas, gonguê e agbê. No maracatu de baque solto, o ritmo é mais solto sendo executado com apenas uma zabumba, além de instrumentos de sopro e outros, como: caixa, tarol, gonguê e porca (cuíca rústica).

O principal personagem do baque solto é o caboclo de lança. Em seguida aparece o Arreiamá, personagem também de origem indígena responsável pela proteção do folguedo, função já sugerida pelo próprio nome, que significa “arrear o mal”. Os personagens de frente do grupo, como Catita, Mateus e a Burra, interagem com o público.
A parte musical é conduzida pela orquestra, conhecida como terno, formada por instrumentos de sopro e percussão, sob a liderança do mestre e do contramestre. Posteriormente, integra-se ao cortejo a Corte, com destaque para a Dama do Paço, que carrega a calunga (uma boneca sagrada com significado espiritual) pois representa ancestralidade e proteção.
A inserção desse último componente (a Corte) ao maracatu de baque solto – uma referência às coroações dos reis do Congo – foi feita no final da década de 1960 para atender demandas protocolares da Federação Carnavalesca de Pernambuco – FECAPE e, assim, poder participar do concurso de agremiações do carnaval do Recife.
“Atualmente o maracatu de baque solto é compreendido como uma manifestação afro-indígena, em razão da incorporação desses elementos do maracatu de baque-virado. Mas é preciso entender que o MBS é de origem indígena”, destaca Manoelzinho.

Tradição
Diretor da Associação de Maracatus de Baque Solto (AMBS), Manoelzinho – que também é artesão carnavalesco – conta que atualmente existem cerca de 100 grupos em atividade no estado de Pernambuco. O mais antigo é o Cambindinha, de Araçoiaba (PE), fundado em 15 de dezembro de 1914.
De acordo com informações do Dossiê Maracatu Baque Solto, publicado pelo Iphan, o grupo surgiu no Engenho Cotunguba, localizado em Tracunhaém, período em que o município ainda integrava o território de Nazaré da Mata (berço dos caboclos de lança). A partir da década de 1980, o maracatu passou a ser identificado como Cambindinha de Araçoiaba, local onde consolidou suas raízes mais recentes.
O caboclo de lança com mais tempo de atividade no grupo é seu Eudes Severino da Silva, que dos 66 anos de vida, dedicou 41 ao lanceiro. “Nunca brinquei em outro maracatu, só aqui. É uma boniteza muito grande”, diz orgulhoso. Seu Eudes lembra detalhadamente do dia em que foi convidado a participar do grupo.

“Eu comecei ir atrás desse maracatu, aí [o mestre da época], seu Ernesto, me chamou para brincar”, relembra, contando que logo em seguida ganhou uma arrumação de seu Ernesto. “Aí fiquei apaixonado pela brincadeira.”
A arrumação mencionada por seu Eudes diz respeito às indumentárias do caboclo de lança, que hoje em dia são compostas por: tênis, ceroulão (calça de tecido fino); fofa (tipo de calça folgada e larga, com franjas); camisa de manga comprida estampada; óculos escuro; um lenço para proteger a cabeça do chapéu; o chapéu encoberto por diversas fitas; o cravo; a lança também coberta por fitas; a gola confeccionada com lantejoulas; e o surrão, um tipo de mala de madeira levada nas costas onde ficam os chocalhos, que emitem o som peculiar que anuncia a chegada do caboclo de lança. “Já vi uma roupa completa de um caboclo pesar 40Kg”, relata Manoelzinho Salustiano.

Tradição e compromisso que seu Eudes já vê alcançar outras gerações de sua família. O neto, Enzo Gabriel da Silva, de apenas quatro anos, também é um dos caboclos de lança do Cambindinha. “Eu me alegro muito, isso é muito importante porque eu vou ficando mais velho e outra geração vai chegando.”
Além do Cambindinha, o Cambinda Brasileira, do Engenho Cumbe, Nazaré da Mata (PE), também é um maracatu de baque solto de referência, sendo o segundo mais antigo do estado, fundado em 1918, e o que tem mais tempo de atividades ininterruptas.
Mulher guerreira
Apesar da poesia e beleza encantadora que hoje representam o caboclo de lança, o passado dessa figura imponente é marcado por episódios de violência, onde os caboclos de diferentes maracatus eram rivais e se enfrentavam nas ruas com suas lanças. “Não se brincava pensando na beleza do carnaval, mas no enfrentamento”, frisa Manoelzinho. Uma exibição de poder e “virilidade” que talvez tenha colaborado com o obsoleto entendimento de que caboclo de lança era “coisa de homem”.
Há bastante tempo, a paz está selada entre os maracatus, abrindo espaço para a arte e o respeito. Da mesma forma, a compreensão ultrapassada e machista de que mulheres não poderiam ocupar o lugar de caboclas de lança vem perdendo força. Transformação que abriu as portas para que outros grupos surgissem, como o maracatu Coração Nazareno. Ele é o único de baque solto formado totalmente por mulheres. O grupo foi fundado em 2004 pela Associação das Mulheres de Nazaré da Mata (AMUNAM).

Uma de suas integrantes é a recifense Leila Bomfim, de 63 anos, que atua no Coração Nazareno desde 2023 e vem vivenciando uma das experiências mais prazerosas de sua vida.
“Em 2018 eu conheci os Xukurus, onde fui trabalhar minha ancestralidade. Lá o cacique Chicão usa muito a expressão ‘em cima do medo, coragem’. Passei a usar também, porque mesmo com medo é preciso ter coragem e partir pra cima porque não dá pra recuar”, enfatiza Leila.
Protetor do baque solto
Ancestralidade essa que Leila não deixa de relacionar ao caboclo de lança. “É um personagem que diz muito da força da caboclaria, é força e poder. É um/a guerreiro/a que está ali para proteger [a sua Corte]”, menciona.
Explicando como se desenha o princípio de proteção no chão do terreiro do baque solto, Leila detalha:
“Tem o front onde vai a mestra cabocla, e mais duas caboclas nas laterais, da esquerda e da direita. [Além disso, tem] as filas com as demais caboclas. E atrás tem uma que protege o estandarte [que representa o maracatu] porque é desonroso as/os cabocla/os deixarem outras pessoas entrarem em sua Corte, é quase um desrespeito.”

As manobras do caboclo também falam sobre sua história. O movimento da lança para cima e para baixo, demonstra a bravura de quem sabe proteger o seu povo como em uma batalha. As caídas, os passos e manobras com as pernas e pés, enquanto isso, olhos e ouvidos sempre atentos. “A principal manobra do caboclo de lança é um toré indígena, que se chama corrupio: o maracatu vem em cortejo, mas quando ele chega no local da apresentação é feita uma roda”, explica Manoelzinho.
O compromisso espiritual
Mesmo sendo considerado o “cartão postal do carnaval”, como bem definiu Manoelzinho Salustiano, a vida de um caboclo de lança é marcada por segredos e responsabilidades espirituais que muitas pessoas não conhecem e que são passados de geração a geração. Ele é filho mais velho de um dos grandes nomes da cultura de Pernambuco: Mestre Salustiano (Salu).
“No domingo de carnaval logo cedo, o caboclo de lança vai para um riacho tomar seu banho de limpeza, quando não tem o riacho – porque tão acabando com a natureza – aí se toma um banho de ervas de limpeza [dado por uma rezadeira] e então se pode brincar os três dias de carnaval tranquilo”, conta Manoelzinho.

Preservação
No brilho intenso do Caboclo de Lança não há artifício, há permanência. O maracatu de baque solto nasce da vida de gente simples e segue existindo como forma de resistência coletiva, sustentada pela memória e pela luta cotidiana de quem nunca deixou a brincadeira cair em meio às dificuldades e falta de apoio. É essa herança, transmitida pelos mais velhos e acolhida pelos mais jovens, que garante continuidade ao que foi aprendido no corpo, no passo e no silêncio da escuta. Por isso, mais do que espetáculo, o maracatu exige respeito: aos mestres, às histórias escritas e não escritas, aos nomes e sentidos que o tempo não inventou, mas revelou.
“A única preocupação que eu tenho hoje é a informação, para não destoarem nossa história, pra gente não se tornar um espetáculo. A espetacularização é muito perigosa para uma cultura de resistência”, alerta Manoelzinho Salustiano.
Outro incômodo do mestre é a utilização do termo “maracatu rural”, pelo qual o baque solto também é conhecido. O termo foi introduzido socialmente na década de 1960 a partir da antropóloga norte-americana Katarina Real, em referência à região a qual o maracatu de baque solto pertence, como informa o dossiê do Iphan. “Por que o [maracatu de] baque virado não é chamado de urbano?”, questiona Manoelzinho. “São essas coisas que precisam ser pesquisadas com mais cuidado, é preciso escutar os mestres mais velhos, um dos erros é não ouvi-los, e eles estão partindo.”


