Por Luana Miranda e Patrícia Rosa
O que acontece depois que a Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver ocupa as ruas da capital do país? Ela povoa imaginários, transforma a sociedade e vira filme. Na noite desta terça-feira (14), a cidade de Salvador (BA) recebeu a primeira exibição do documentário “Juntas pelo Bem Viver: Vozes da Marcha das Mulheres Negras”, produção cinematográfica que aborda a Marcha histórica que reuniu mais de 300 mil mulheres no dia 25 de novembro de 2025, em Brasília (DF).
O evento aconteceu no Cinema Glauber Rocha, e contou com a participação de ativistas e lideranças do movimento de mulheres negras. A programação teve início com a apresentação do estudo “Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil”. Uma pesquisa sobre a trajetória construída entre as edições da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver (2015) e a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver (2025), destacando os avanços, desafios e disputas por direitos.
A primeira edição reuniu cerca de 100 mil mulheres em Brasília (DF). Após uma década de mobilização e articulação política, o movimento voltou às ruas da capital federal. O documentário foi produzido para dar visibilidade a esse movimento político organizado e protagonizado pelas mulheres negras.
O longa foi realizado pela Coalizão de Mídias Negras Feministas – formado por veículos como AzMina, Gênero e Número, Alma Preta, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia. O filme ainda conta com a participação de nomes como a ativista Valdecir Nascimento, que esteve na articulação das duas marchas, a ativista e jornalista Juliana Gonçalves, e Keise Helena, estudante de Ciências Sociais, que, em 2025, participou da mobilização pela primeira vez.
“Eu acredito que essa história documentada vai virar um legado para o próprio movimento político de mulheres negras do Brasil. Ver esse cinema lotado, em uma terça-feira em Salvador, é a prova de como as pessoas estão esperando esse momento para seguir na luta construindo o novo Brasil”, declarou, Marília Moreira, diretora institucional do Instituto AzMina.
“Nenhum avanço foi por acaso”
O estudo, realizado por Gênero e Número, Observatório da Branquitude e Oxfam Brasil, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras, descortina o que mudou na vida das Mulheres Negras nos últimos 10 anos. A pesquisa reúne diferentes bases de dados, e os analisa a partir da perspectiva teórica das mulheres negras da academia e dos movimentos sociais. A partir dessas evidências, o documento tem como objetivo fortalecer a incidência política de mulheres negras na construção de caminhos para o Bem Viver.
Dividido em seis capítulos, o documento apresenta informações pertinentes aos direitos das mulheres negras nas seguintes áreas: Participação Política e Poder; Educação; Trabalho e Autonomia Econômica; Terra, Moradia, Cidade e Justiça Ambiental; Autonomia Reprodutiva, Saúde e Vida; Vida, Segurança e Justiça.
De acordo com Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, o estudo mostra que as mulheres negras ampliaram a presença nas universidades e conquistaram novos marcos legais nas áreas de igualdade racial e do cuidado. Em contrapartida, continuam sendo o grupo mais afetado pela precarização do trabalho e, na saúde, permanecem como as principais vítimas de mortalidade materna. E, apesar de crescer na representação política, as mulheres negras ainda têm a menor taxa de sucesso eleitoral.
“A principal conclusão desse estudo, é que nenhuma das conquistas, nenhum dos avanços que a gente teve foi por acaso, ou simplesmente por vontade do Estado. Mas foi porque as mulheres negras estavam na linha de frente lutando por esse direito. E que todos eles [direitos] nasceram da organização política das mulheres negras”, concluiu.
Durante a mesa de debate que abriu o lançamento da pesquisa e a exibição do documentário, Naiara Leite, diretora executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra, destacou o impacto da Macha de Mulheres Negras para a produção de imaginários, construção de futuro e na constituição do que é ser negro no Brasil. Para a ativista, a Marcha é um movimento revolucionário: só no ano passado, foi responsável pela construção de mais de 216 comitês criados pelo Brasil e mobilizou 47 países do mundo.
“A gente se apaixona todos os dias por nós. A gente se reencontra e reencanta o mundo com o que nós estamos produzindo. Mesmo que o mundo diga todos os dias qual é o nosso lugar, a gente está dizendo ao mundo que no lugar que ele escolheu, nós não vamos ficar. E isso é algo que só as mulheres negras são capazes de fazer”, ressaltou.


