Por Lauana A. Flor*
Há um projeto em curso que une a extrema-direita e a bancada evangélica para manter as mulheres submissas, sem voz e confinadas a um padrão estético e social limitado. Mas o cenário das eleições acende um alerta e um chamado. Como resposta, precisamos retomar as urnas e os púlpitos, transformando-os em espaços de disputa real. A dignidade se constrói a partir do chão da vida, com uma precisão ética que não aceita recuos.
Movimentos como a Associação Mulheres EIG (Evangélicas pela Igualdade de Gênero), exercem um forte papel de controle social e político no enfrentamento ao machismo, ao racismo e à misoginia que se fantasiam de fé. Além disso, essa atuação combate a crescente LGBTfobia alimentada por lideranças religiosas e político-partidárias no cenário atual.
Neste contexto, é de se notar que a extrema-direita e a bancada evangélica fundamentalista seguem à risca o rascunho da teologia de uma nota só. É fundamentalismo religioso adotado como método ao pinçar versículos bíblicos de forma isolada, com péssimas traduções e sem qualquer contextualização, para silenciar as mulheres por meio da pauta de costumes. E isso não pode ser chamado de doutrina religiosa. É uma escolha.
Nessa trágica predileção que estrategicamente se apresenta como irrefutável, a interpretação distorcida de Gênesis 2:18 – “E disse o Senhor Deus: não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele” (ACF) – costuma ser usada para justificar o controle do corpo e da vida das mulheres. Contudo, sob os critérios das teologias bíblicas e da crítica textual contemporâneas, esse trecho não aponta para a submissão ou para o auxílio servil. Seu sentido real é de parceria e mutualidade, reforçando que não existe hierarquia nas relações humanas e afetivas. No mesmo recorte de texto, em hebraico, o termo usado é Ezer Kenegdo. A palavra Ezer significa socorro, força ou resgate, sendo o mesmo termo aplicado na Bíblia para falar do socorro que vem do próprio Deus. Já Kenegdo significa face a face, ou seja, igual.
São conhecidas várias outras interpretações literalistas e incoerentes naturalizadas como expressões doutrinárias. São também igualmente refutadas. Não é diferente do que ocorre com a leitura enviesada da carta do Apóstolo Paulo em I Coríntios 11:3, cuja interpretação tradicional mantém estagnada a figura do homem como “cabeça”. Essa construção acrítica reforça uma tragédia cultural que nega a igualdade do Evangelho e apaga a liderança das mulheres na história do cristianismo antigo. O foco frequentemente esquecido nesse versículo e nos seguintes sugere, na verdade, a interdependência e a igualdade de dignidade entre os gêneros diante de Deus.
Esse assentamento teológico patriarcal cobra um preço alto e mensurável. Longe de ser um debate inofensivo restrito às denominações religiosas, a sacralização da hierarquia de gênero funciona como um verniz religioso que legitima o abuso e silencia as mulheres dentro de suas próprias comunidades e em vários outros espaços.
Tais mentalidades precisam ser devidamente criticadas sob a perspectiva do direito à religião e à liberdade religiosa. Além disso, é urgente promover subsídios teológicos em favor da laicidade do Estado que fortaleçam o arcabouço jurídico de proteção às crianças, aos adolescentes e às mulheres visto o complexo campo sociorreligioso brasileiro.
De fato, essa infeliz teologia da submissão, ecoada em muitos púlpitos e nos microfones do Congresso Nacional, cobra o seu preço em sangue e muita dor. Os números da violência doméstica nos ambientes de fé são devastadores. Não é sem razão que levantamentos recentes de diversos matizes estão avaliando cenários também a partir das pertenças religiosas. De acordo com a pesquisa Visível e Invisível, promovida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Datafolha (2025), 42,7% das mulheres evangélicas relatam já ter sofrido violência por parte de um parceiro ou ex-parceiro ao longo da vida – superando os índices registrados entre as mulheres católicas. Além disso, quase metade dessas mesmas mulheres evangélicas (49,7%), vivenciam relacionamentos marcados por controle psicológico excessivo e vigilância.
O agravante ganha contornos dramáticos nos dados revelados em 2025 pelo Instituto de Pesquisa DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV): 53% das mulheres brasileiras buscam socorro inicial nas igrejas, mas esse índice salta para impressionantes 69% quando o recorte envolve apenas as evangélicas. Quase sete em cada dez mulheres buscam amparo em seus pastores antes de acionar o sistema de justiça institucional.
O conservadorismo religioso, infelizmente, aproveita-se dessa busca por refúgio para silenciar as vítimas, empurrando-as à reclusão. Há consideráveis e admiráveis exceções de integridade pastoral, mas muitos pastores e lideranças machistas orientam as vítimas ao jejum e à oração em favor do agressor e pela manutenção do vínculo ao casamento em vez de direcioná-las imediatamente a uma delegacia de polícia.
As teologias ecotransfeministas e antirracistas denunciam essas leituras convenientemente cristalizadas pelo patriarcado, pois qualquer teologia que pregue a submissão feminina deturpa a mensagem dos Evangelhos. É diante desse cenário de omissão e perigo que a Associação Mulheres EIG se levanta como uma força necessária de controle social e denúncia. Ao sugerir pautas para o debate público e fiscalizar as estruturas do Estado, o movimento expõe como a violência doméstica e a violência política de gênero caminham de mãos dadas, alimentadas por discursos parlamentares que usam o nome de Deus para justificar a opressão.
A EIG cobra políticas públicas reais contra o feminicídio, bem como o combate às violências religiosas e espirituais. Afinal, todos os corpos são territórios sagrados, e o corpo de uma mulher evangélica não pertence ao marido, ao pastor e nem aos deputados e senadores da bancada evangélica.
Não diferente de outros momentos, nas próximas eleições, a resposta das mulheres de fé virá de forma certeira. Mulheres cis, travestis e trans, sejam evangélicas ou de outras pertenças religiosas, não aceitam mais o voto de cabresto comandado por lideranças misóginas. Votar contra a extrema-direita tornou-se um ato de fé e de sobrevivência para as mulheres negras, quilombolas, indígenas, gordas, neurodivergentes, PCDs e periféricas. Ter fé e o voto na candidatura de mulheres defensoras dos Direitos Humanos e em outros candidatos que coloquem o Bem Viver acima dos interesses dinheiristas e egocentrados é primordial para a nossa democracia. Esse é, também, um passo fundamental na garantia e na manutenção dos direitos de crianças e adolescentes e na defesa de nossa Casa Comum.
Que as mulheridades já despertas do torpor continuem firmes, fazendo seus intelectos, teologias e lideranças transbordarem as comunidades de fé que tentam silenciá-las. A união entre a espiritualidade livre e a justiça social mostra que as evangélicas estão prontas para derrubar os altares do fundamentalismo. Nem nas igrejas, nem no Congresso Nacional, nem nas urnas: a submissão não cola mais. A fé agora rima com voto, justiça e emancipação.
Atenção: Em caso de emergência ou de violência em andamento, ligue imediatamente para a Polícia Militar (190). Para denúncias, orientações e informações sobre a rede de apoio, disque o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), que funciona 24 horas por dia de forma gratuita e anônima.
*Bacharela em teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestra e doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. É membra fundadora e Conselheira de Ética da Associação Mulheres EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero.
Este artigo integra a 4ª edição da campanha Quero Me Ver no Poder, iniciativa da Plataforma dos Movimentos Sociais por Outro Sistema Político com apoio do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), construída em parceria técnica e política com a Revista Afirmativa.
Fontes consultadas
ASSOCIAÇÃO MULHERES EIG. Cartilha de Enfrentamento e Mobilização Nacional pelo Feminicídio Zero. Salvador: Associação Mulheres EIG, 2025
ASSOCIAÇÃO MULHERES EIG; COMUNA DO REINO; OBSERVATÓRIO PARTICIPATIVO DA DESINFORMAÇÃO. Mulheres com Deus: caminhos para uma vida abundante e segura. Rio de Janeiro: Fundo Elas, 2026. Disponível em: https://www.mulhereseig.org.br/_files/ugd/3fddf7_fac21ff43d3343df83e3fb9fef8e2c02.pdf. Acesso em: 30 jul. 2026.
ASSOCIAÇÃO MULHERES EIG; KOINONIA PRESENÇA ECUMÊNICA E SERVIÇO. Cartilha do curso de Escuta Ativa e Empática: “Mulher, vai tudo bem contigo?”. São Paulo: EIG/Koinonia, 2020. Disponível em: https://kn.org.br/wp-content/uploads/2020/09/Escuta-Ativa-EIG-Koinonia.pdf. Acesso em: 30 jul. 2026.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada Online. Versão Almeida Corrigida Fiel (ACF). Disponível em: bibliaonline.com.br. Acesso em: 22 ago. 2026.
BRASIL. Senado Federal. Instituto de Pesquisa DataSenado; OBSERVATÓRIO DA MULHER CONTRA A VIOLÊNCIA (OMV). 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. Brasília: Senado Federal, 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/omv/pesquisanacional. Acesso em: 22 ago. 2026.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP); INSTITUTO DATAFOLHA. Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil. 5. ed. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/publicacoes/visivel-e-invisivel-5ed/. Acesso em: 22 ago. 2026.
VILHENA, Valéria Cristina. Uma igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas. 2. ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2016.


