Por Luana Miranda
Um dos temas mais abordados durante as eleições de 2026, seja pelos candidatos ou pelos eleitores, é a segurança pública. Principalmente nos últimos 13 anos, a extrema-direita brasileira, representada pelo bolsonarismo, tem mobilizado as polícias e as Forças Armadas do país com um discurso armamentista e, supostamente, de combate à criminalidade. É possível perceber que a estratégia tem surtido efeito. Contudo, existem muitos profissionais na linha de frente da segurança pública que estão dispostos a atuar à luz da Constituição Brasileira e que escolheram a reeleição do atual presidente como alternativa viável para o segundo turno.
“Lula é o único candidato comprometido em garantir direitos constitucionais essenciais como saúde, moradia, alimentação, redução da pobreza, respeito à liberdade (de ideias, religiosa, sexual, etc.)”, relata em depoimento anônimo, um comissário de polícia de 47 anos.
O agente ainda destaca que o presidente respeita as regras democráticas vigentes e não estimula discursos e práticas autoritárias, a exemplo do que ocorreu no dia 8 de janeiro de 2023. “Flávio Bolsonaro reunirá condições jurídicas e políticas para um eventual governo autoritário, uma vez que terá maioria na Câmara e no Congresso e poderá indicar quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF)”, lembra.
Quando questionado sobre a problemática da segurança pública, ele argumenta que o governo Bolsonaro não apresentou nenhuma proposta concreta para solucionar os desafios da segurança pública, nem mesmo em pautas frequentemente levantadas por ele, como a posse de armas. “Caso um policial precise adquirir uma arma de fogo, ele não dispõe de nenhuma linha de crédito específica”, exemplifica.
Para o policial as propostas dos governos bolsonaristas recorrem ao populismo penal e buscam apresentar soluções fáceis para problemas difíceis. “Propostas dessa natureza são formuladas até hoje por aqueles que se alinham a esta lógica, mesmo quando enfrentam obstáculos práticos para sua implementação ou esbarram em limites constitucionais”, avalia.
Propostas dos candidatos
Flávio Bolsonaro (PL) propõe duplicar os investimentos federais na segurança pública, mas não explica como e nem onde esses investimentos vão ocorrer. Propõe implantar um milhão de câmeras para a criação de um sistema nacional de reconhecimento facial, mas ignora as recorrentes falhas ocasionadas por esse mecanismo. Para combater os feminicídios, as propostas se resumem a um aplicativo digital e orientação financeira para “ajudar cada uma a conquistar a independência”. Em casos de crimes de roubo de celular e/ou crimes hediondos, a solução apresentada é o aumento e o endurecimento das penas, sem apresentar estratégias de prevenção para que deixem de acontecer e afetem a população.
As propostas para segurança pública de Lula (PT) descrevem uma tentativa de asfixia financeira do crime organizado com um arcabouço de medidas que inclui o fortalecimento dos programas já existentes e transferência de renda para os estados e municípios; propõe ainda a continuidade do Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio, que sancionou dez leis e cinco decretos, além de indicar a conclusão de 30 casas da Mulher Brasileira e 15 centros de Referência da Mulher Brasileira e também sugere a distribuição de kits para monitoramento dos agressores nos estados. Por fim, o candidato objetiva a criação do Ministério da Segurança Pública buscando fortalecer “a integração entre os entes federados, a inteligência estatal, o enfrentamento ao crime organizado, a prevenção da violência e a proteção dos direitos civis”.
Apesar de não sancionar projetos específicos para as polícias militares e civis, que são de responsabilidade dos estados, durante o atual mandato, o presidente sancionou a Medida Provisória (MP) nº 1.293/2025, que reajusta o soldo dos militares (ativos, reservas e pensionistas) das Forças Armadas, ou seja, a parcela básica da sua remuneração, em 9%. Também sancionou a MP 1.181/2023, promovendo um reajuste salarial de 18% para policiais civis, militares e bombeiros do Distrito Federal. Ainda em maio deste ano, o governo lançou o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, com um orçamento de R$ 11,1 bilhões. A proposta busca a desarticulação do crime organizado no país, para isso, investirá R$ 968,2 milhões em aportes diretos e R$ 10 bilhões para financiamentos dos estados e municípios via Fundo de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS).
“Não existe outra alternativa nesse segundo turno que não Lula como garantia da nossa democracia, da nossa soberania, da possibilidade de avançar ainda mais por justiça social. Tivemos uma vitória do fim da escala 6×1, que é a votação mais importante para a classe trabalhadora desde a redemocratização do nosso país. E foi com apoio dele, do presidente Lula”, afirma Mário Leony, delegado da polícia civil de Sergipe há 25 anos e integrante do Movimento de Policiais Antifascistas.

Militares em Brasília
Não é de hoje que a pauta da segurança pública se tornou uma isca para angariar votos. Em um levantamento realizado pela Agência Brasil nas Eleições de 2018, 961 candidatos a cargos políticos utilizaram patentes militares em seus nomes. Ainda segundo a pesquisa, cerca de 8% deles foram eleitos, incluindo o ex-presidente da república Jair Bolsonaro, que frequentemente se apresentava como capitão da reserva do Exército Brasileiro. Uma nota técnica produzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), intitulada “Presença de militares em cargos e funções comissionados do Executivo Federal”, analisou a trajetória política desse grupo entre 2013 e 2021. O estudo identificou que durante o governo do ex-presidente a ocupação de cargos e funções civis por militares aumentou em 193%, chegando a 6.157 casos.
Retornando às urnas, em 2026, o ICL Notícias apurou que houve uma redução de 40% na utilização de patentes entre os candidatos em relação às eleições de 2022 – de 1.050 para 630 neste ano. Contudo, os candidatos que declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma ocupação prévia como membro das Forças Armadas passaram de 63 para 82, uma alta de 30,2%. No Partido Liberal (PL), partido político do ex-presidente e do atual candidato à presidência Flávio Bolsonaro, o número de candidatos que se declararam ex-militares foi ainda mais expressivo: de sete para 21. Isso significa que um em cada quatro candidatos que alegaram tal ocupação integrava o PL.
Os números demonstram que nos primeiros anos de emergência do bolsonarismo, muitos candidatos optaram por usar patentes militares, mesmo que não possuíssem de fato essa ocupação. Mas também destacam que, o aumento da participação direta da classe militar na operação do Estado brasileiro durante o governo Bolsonarista, retomou um movimento já experienciado no Brasil durante a Ditadura Militar e que tem ganhado força a cada dia.
A Polícia e a Política
Os dados também ajudam a compreender as consequências do apelo à segurança pública, mas não dão conta de explicar a origem do fenômeno, em especial, a aderência direta das polícias, ligadas principalmente à atuação administrativa dos estados e dos municípios. Para Mário Leony, as duas principais bases para esse problema são: a doutrina propagada durante a formação dos policiais – definidos como auxiliares das Forças Armadas, e o alinhamento ao imperialismo estadunidense.
O comissário de polícia, nossa fonte anônima, destaca que as intervenções estrangeiras devem ser um ponto de atenção para a população brasileira no momento de decidir o voto, sobretudo as movimentações dos Estados Unidos. “É preciso lembrar que recentemente o Brasil tem sido objeto de cobiça em razão de nossas terras raras, cuja utilização em informática [fabricação de produtos de alta tecnologia, transição energética e defesa militar, produção de ímãs permanentes de alta potência, telas de eletrônicos, baterias, turbinas eólicas e carros elétricos] é indispensável, bem como nossos mananciais, que são fundamentais para o funcionamento de data centers.”
Mário Leony relembra que as interferências estrangeiras colaboraram para o golpe da ditadura civil-militar em 1964 e é uma constante histórica no país, que sofre diversas tentativas de pôr em xeque a soberania nacional. “E hoje em dia não há mais tanques de guerra que promovam uma ditadura, são as redes sociais que manipulam o eleitorado. Isso é gravíssimo!”, reflete.
De acordo com o estudo “Política e fé entre os policiais militares, civis e federais do Brasil”, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 55% dos policiais militares (PMs) ativos nas redes sociais interagem com ambientes ligados ao bolsonarismo; desses, 22% se relacionam com o bolsonarismo radical. Os cargos mais afetados são os de praças e oficiais. Com relação às polícias civis e federais, o estudo apresenta percentuais baixos, sendo respectivamente menos de 10% e 15% de interação.
Delegado Civil do Departamento de Combate a Homicídios e de Proteção à Pessoa, Mário Leony é um homem gay de 52 anos, que começou a militância dentro das estruturas policiais há 10 anos, e entendeu que precisava se opor ao pensamento militarista e totalitário não só na delegacia, mas também na política. Filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), já disputou algumas candidaturas. Hoje é o primeiro suplente de vereador pela Federação PSOL Rede e, neste ano, chegou a disputar o cargo de deputado federal. Mas não obteve êxito.
“Essa vinculação das polícias com as forças armadas faz toda essa doutrinação que a gente vê acontecer. Porque as Forças Armadas existem para garantir a defesa do nosso país em caso de guerra e calamidades. Mas em relação à segurança pública nos estados e nos municípios, a realidade é outra. A nossa função é mediar conflitos”, explica.
A desmilitarização das polícias é uma pauta que ainda enfrenta dificuldades de ser debatida tanto em escala civil quanto em escala militar. De acordo com Marcelo Costa, homem negro de 52 anos e policial militar há 32 anos, o grupo que mais se opõe à desmilitarização são justamente os cabos e soldados, patentes mais baixas das corporações e os mais afetados pela doutrina militar.
“Eles pensam que com o final dessa militarização eles passam a não ser superiores ao resto da população. Isso é dito dentro dos cursos, então, a partir daquele momento você é superior aos civis”, declarou.

Para Marcelo Costa, atualmente na reserva da Polícia Militar de Alagoas e militante do Movimento Policiais Antifascistas, a falta de identificação com a classe trabalhadora dificulta que os policiais enxerguem os benefícios promovidos pelos governos progressistas, em especial, o último mandato do presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva.
“Quando tem uma manifestação, por exemplo, essas forças acabam se desconectando do trabalhador. Por isso que onde eu vou eu faço questão de dizer que somos trabalhadores da segurança pública”, argumenta.
Alternativa viável: Lula!
Os posicionamentos do comissário, do delegado Mário Leony e do policial Marcelo Costa não são isolados. Muitos profissionais da segurança pública enxergam um caminho de melhorias sociais a partir da reeleição do atual presidente. Mas a menção pública a isso pode, em certa medida, ir de encontro às diretrizes das instituições às quais servem. No caso de PMs, por exemplo, está quase vedada a manifestação político-partidária pública de profissionais em atividade. Medidas como essas acabam por restringir manifestações públicas da categoria em diferentes instituições, inclusive fora do ambiente de trabalho.
“As leis estão aí para serem respeitadas e a gente quer mostrar o nosso lado, dizer que dentro da segurança pública existe um viés também de discussão progressista. A gente quer um campo democrático, podendo criticar inclusive esse mesmo campo. É muito melhor nós vivermos uma democracia podendo dizer o que quiser, do que vivermos uma ditadura”, conclui o policial militar Marcelo Costa.


