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Entenda a onda de violência contra comunidades indígenas após o segundo turno das eleições

Lideranças indígenas Guarani Kaiowá apontam crimes por motivação política e denunciam homicídios, atropelamentos, ameaças e suspeitas de contaminação da água. A casa de uma liderança espiritual de 90 anos foi incendiada
Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Por Luana Miranda

Após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, uma série de ataques às comunidades indígenas Guarani Kaiowá aconteceu no Mato Grosso do Sul. Na última quarta-feira (28), o Ministério Público Federal do estado (MPF/MS) instaurou um inquérito para investigar os crimes cometidos na região. As apurações foram iniciadas após as denúncias encaminhadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) aos órgãos federais responsáveis, os relatos descreviam homicídios, atropelamentos, ameaças e suspeitas de contaminação de água. 

O caso mais recente ocorreu na quinta-feira (29), quando a casa da indígena e líder espiritual Guarani Kaiowá, Ñandesy Roberta, de 90 anos, foi incendiada. O crime aconteceu na cidade de Tacuru (MS), às 6h da manhã, e destruiu os instrumentos sagrados usados nos rituais de povos indígenas da região. Ñandesy já sofria constantemente com racismo e intolerância religiosa. 

Lideranças indígenas afirmam que os crimes possuem motivação política. Segundo nota emitida pelo MPF/MS, todos os detalhes das acusações ainda estão sendo apurados a partir de frentes regionais de investigação nos municípios do Sul do estado. Os registros dos crimes tiveram início ainda no sábado (24), quando atropelamentos foram registrados na rodovia M-289 entre as cidades de Coronel Sapucaia e Amambai (MS). O objetivo era intimidar os indígenas para que não fossem votar. 

Na ocasião, um homem indígena e morador da Aldeia Taquaperi, identificado como Valdenildo da Silva, de 25 anos, morreu. Uma van da Secretaria de Saúde da prefeitura fazia o transporte de pacientes, passou por cima do corpo de Valdenildo, que foi abandonado na estrada sem nenhum tipo de assistência. Com a colisão, o automóvel pegou fogo. O motorista e os passageiros conseguiram sair do veículo antes do incêndio começar e não tiveram ferimentos. 

No domingo (25), outros atropelamentos a indígenas ocorreram na mesma região. Ainda na noite do domingo de eleição, uma família inteira foi assassinada em Naviraí (MS). Segundo as informações divulgadas pelo MPF/MS, o procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida instaurou uma investigação para averiguar as denúncias dos homicídios.

Na apuração, lideranças das comunidades Kurupi e Mborevi, localizadas na região onde o crime aconteceu, negaram ataques a seus integrantes. Ainda segundo a polícia e órgãos jurídicos do município, o caso divulgado como assassinato de uma família indígena foi, na verdade, uma tentativa de duplo homicídio motivado por desentendimento familiar e interpessoal, não havendo motivações políticas. A checagem das identidades identificou que nenhum dos envolvidos possuía histórico de pertencimento indígena. 

De acordo com declaração do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) a Agência Brasil, ao menos cinco casos de assassinatos de indígenas nesse período estão sendo investigados. O crime de Naviraí não foi confirmado como motivação política.

Ainda no Mato Grosso do Sul, o município de Tacuru  segue sob investigação por denúncias de ameaças que incluíam o envenenamento da água consumida pelos indígenas da região. Um servidor público foi afastado devido a circulação de áudios, no domingo (25), em que sugeria o envenenamento da água consumida na Aldeia Sassoró por votarem no candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No estado, Flávio Bolsonaro recebeu 59,60% dos votos válidos.

Ainda em informações divulgadas pela Agência Brasil, o coordenador do departamento jurídico da APIB, Ricardo Terena, afirmou que as comunidades indígenas da região dependem de caminhão-pipa, já que a água na localidade é de difícil acesso. Por conta da circulação dos áudios, muitos indígenas pararam de consumir a água distribuída pelo município. Segundo apuração do portal G1, o prefeito da cidade, Rogério Torquetti (PSDB), afirmou que o funcionário em questão trabalhava dirigindo um caminhão-caçamba e não era responsável pela distribuição de água. 

O prefeito alega que o funcionário já foi afastado das funções e um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para investigar a conduta dele foi aberto. A PF segue investigando o caso para apurar se houve alguma tentativa concreta de envenenamento. As  demais ameaças e intimidações também estão sendo investigadas pela PF, que foi acionada pelo Ministério dos Povos Indígenas. 

A APIB acionou o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal , o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em uma mobilização conjunta para investigar os casos e proteger as comunidades afetadas. 

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