Há 13 anos trabalhando com população em situação de rua, Lucas relaciona justiça social ao racismo, conta a dinâmica da ONG SSA Invisível e seu olhar sobre a pandemia depois de dois anos

Por Andressa Franco e Patrícia Rosa

No último domingo, dia 20 de fevereiro, foi o Dia Mundial da Justiça Social. A data foi proposta pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Assembleia Geral, e é celebrada desde 2007. O objetivo é a reflexão sobre o enfrentamento da pobreza, da discriminação, do desemprego e de qualquer outra forma de exclusão ou marginalização. Ou seja, chama atenção para a busca de uma sociedade comprometida com a garantia dos direitos básicos.

Foi também no mês de fevereiro que a ONG Salvador Invisível teve início. Esse ano, o projeto, que já atendeu cerca de 3.500 pessoas em situação de rua, completa três anos de existência. Atendendo essa população em diversas esferas, desde resolver documentações e auxílio moradia, até acompanhamento na saúde pública.

A organização trabalha com a iniciativa de visibilizar as pessoas em situação de rua a partir da afirmação da sua existência. Para isso, relatam as suas histórias no perfil do projeto nas redes sociais.

“Durmo dentro dos buracos de esgotos para fugir do barulho das pessoas, dos carros […] Fico nas ruas de Salvador há 10 anos.” 

“Eu vim para a rua porque sofria com meu padrasto. Muitos maltratos porque ele não me aceitava por eu ser filha de outro homem, minha mãe escolheu ele, aí eu vim para a rua.]”.

“Eu sofri discriminações em minha vizinhança porque eu sou gay e a sociedade não aceita. […] eu trabalhava como cobrador de ônibus do amarelinho, mas ‘tô’ desempregado. ”

“É bom esse negócio de mostrar a gente e a nossa história e hoje eu quero contar a minha também. Foi o desemprego que me trouxe para a rua, gente e estou nela desde 1999. Me programo para um futuro bom e galgo os meus objetivos. Sonho é pra quem tem dinheiro”.

São alguns dos relatos encontrados no perfil da ONG.

Para falar não só sobre o trabalho da ONG, mas também sobre o amplo tema da Justiça Social, entrevistamos Lucas Gonçalves, de 30 anos, idealizador e presidente da organização. Lucas é estudante de Direito na Universidade Estadual da Bahia (UNEB), e há 13 anos milita no combate à pobreza. Também é conselheiro do Conselho Municipal de Assistência Social de Salvador, onde coordena a Câmara Técnica do Programa Bolsa Família e outros Benefícios Sociais; presidente Estadual do Movimento Comunitário Trabalhista na Bahia. Em 2020, foi candidato a vereador em Salvador pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Lucas Gonçalves, de 30 anos, idealizador e presidente da organização Salvador Invisível

Revista Afirmativa: O que é justiça social?

Lucas Gonçalves: Eu entendo que justiça social é um princípio  de dar algo a quem não tem,  no caso  os direitos. É você efetivar esses direitos que são garantidos na Constituição. O princípio da justiça social é a dignidade, que é o maior dos princípios, o direito à vida, a cidadania. Para alcançar a justiça social, é necessário acessar os direitos mais básicos, fundamentais, constitucionais e individuais do artigo como o direito da moradia, do acesso à educação, à saúde, à comida e ao bem-estar.

R.A.: A sociedade tem conhecimento do que é justiça social?

L.G.: A sociedade não sabe sobre esse conceito e eu entendo que há um interesse para que ela não tenha esse conhecimento. A justiça em si já não é acessada, o Estado deve ser justo, constitucionalmente e legalmente falando, os cargos eleitos e majoritários, eles não querem  que as pessoas saibam o que é justiça social. Se eu, que sou morador de favela, chego para um vizinho e digo que ele tem direitos e digo a forma de acessar esse direito, quem está lá em cima no poder não quer isso.

R.A.: Podemos relacionar a injustiça social ao racismo?

L.G.: Com plena certeza. Eu acredito que a falta da justiça social tem corpo e tem localidade, e essas características são de pessoas pretas e pardas e moradores da favela. Esses não têm acesso à justiça social. Existem três cidades, a cidade visível, que é a cidade que acessa os direitos básicos fundamentais; a cidade dos privilegiados, aqui eu posso até citar bairros de Salvador como o Alphaville, Horto Florestal. Só que existe outra cidade que é invisível, que somos nós moradores de favela, onde temos muito mais deveres do que direitos, e a justiça social não chega até aqui. E tem a parte da população ainda mais invisível, que é a população de rua. Relacionando com a questão do racismo, por exemplo, antes eu falava que a população de rua era majoritariamente negra, eu tirei isso do meu vocabulário, pois ela é negra e você não vê  um um branco em situação de rua .

R.A.: As organizações civis e sem fins lucrativos se mobilizam mais do que o próprio Estado para combater as injustiças da sociedade?

L.G.: Os grupos religiosos, o povo de santo, as igrejas católicas, e evangélicas, os espíritas, são essas pessoas que vão até uma favela. Se esses grupos sociais e religiosos não forem até essas comunidades, o Estado não vai. O Estado pode, por exemplo, garantir o mínimo existencial, isso já é um meio de acessar a justiça social. Por exemplo o bolsa família, que é o  Auxílio Brasil, o “Minha Casa Minha Vida”, que agora é o Casa Verde e Amarela, só que  a justiça social não pode parar aí. A política apenas de transferência de renda é mínima e ela não pode morrer aí, é preciso redistribuir renda e garantir a renda mínima para as pessoas, isso é o acesso à justiça social.

R.A.: Quais os principais fatores responsáveis pelas injustiças sociais?

L.G.: A falta de vontade dos nossos gestores, que a gente colocou no poder, acho que já começa daí. É muito fácil a cada dois anos, nos anos pares, aparecer e fazer alguma coisa, como  um banho de asfalto nas ruas, trocar a iluminação, oferecer cestas básicas, só porque se trata de um ano eleitoral, é  como um ‘cala a boca’. Nesse caso é  melhor não garantir justiça social, porque se eu garanto acesso e empodero a população, ela não vai precisar mais de mim. ‘Eu quero você  precisando de mim porque você traz o voto’. Então cabe a nós sociedade se empoderar de conhecimento, a gente tem internet, que é uma ferramenta para acessar e conhecer um pouco mais dos nossos direitos. Cabe a nós enquanto sociedade provocar o judiciário principalmente, uma Defensoria Pública, o Ministério Público, eu acho esses são os meios.

R.A: Uma iniciativa da Salvador Invisível é contar as histórias das pessoas assistidas através das redes sociais. Qual é o propósito de publicar essas histórias?

L.G: A Salvador Invisível tem dois vieses, o primeiro passo é você mostrar que a pessoa existe, não existe direito sem o sujeito do direito. Então o primeiro passo é mostrar que a pessoa tem uma história, que ninguém nasce no asfalto, ninguém está ali porque queria estar. A rua não é nem uma opção, é a falta dela. No ato de contar as histórias,  sendo que o projeto é sem fins comerciais e lucrativos, a gente pede autorização a essas pessoas, autorização da sua imagem, da sua história e contamos no Instagram que a gente sabe que tem grande alcance. Em anos de militância eu já conheci pessoas de diversas profissões em situação de rua, muitas pessoas que a gente não imaginava que iriam parar naquela situação.

R.A.: Qual a  importância e cuidado que é preciso ter com o assistencialismo?

L.G.: Eu entendo que quem tem fome e sede tem que comer e beber. Eu sou contra o assistencialismo quando tem um fim nele mesmo, quando a caridade é somente pela caridade. E, por exemplo, se eu faço apenas a fim de me promover, para garantir uma vaga no céu, estou fazendo errado. O fim não tem que ser esse, tem que ser o outro, a solidariedade segundo os gregos nada mais é do que uma pessoa bondosa, mas isso é pouco, é fazer bem somente a mim, ao outro não. Ser empático é diferente, vai  além da bondade. É importante  olhar pro outro e perguntar o que ela quer, o olhar através do outro. Uma situação que eu trago, foi um assistido chamado Caio. A gente sempre entregava café com leite e pão com queijo e presunto. Só que Caio nunca pegava o café com leite, e só comia o pão, sem o queijo e presunto. E aquilo começou a me incomodar, um dia ele me chamou no canto e me disse o por quê. Ele me perguntou se eu já tinha  perguntado a ele se tinha intolerância à lactose. Aquilo foi um estalo pra mim, eu estava  dizendo o que ele precisava, e isso é solidariedade, empatia é diferente. 

R.A.: Você observa que de alguma forma a pandemia mudou o olhar das pessoas e a maneira como se observa as questões de dignidade, de justiça social?

L.G.: Eu trabalho com população de rua faz 13 anos e eu percebo que tem aumentado cada vez mais o  número de pessoas nessa situação. De forma que antes as pessoas iam pras ruas  porque estavam com depressão, algumas mulheres iam porque sofriam violência doméstica e familiar, pessoas LGBTQIA+  iam  porque sofriam preconceito da família, e depois iam ao público drogadito. Agora, depois da pandemia pra cá aumentou o número de desempregados e muitos desses foram para situação de rua. No início da pandemia a sociedade passou a enxergar essas pessoas, pois uma parcela estava  em casa e outra nas ruas, e isso era um risco. Então, essa parcela da população que não tinha casa, começou a ser  mostrada. Só que depois que foi descoberto o distanciamento social, implementado o uso de máscaras, a chegada da vacina, as pessoas sabiam como se proteger, se acostumaram com a situação e a população de rua voltou a ser invisível, voltaram ao esquecimento.