A Afirmativa ouviu vítimas diárias do racismo no setor da aviação, que analisam o caso Samantha e explicam porque aeroportos ainda são espaços racistas

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução Redes Sociais

Na última sexta-feira (5), O Ministério Público Federal (MPF) abriu procedimento para apurar ocorrência de racismo e violação dos direitos das mulheres devido à retirada da professora de inglês, Samantha Vitena, de um avião da Gol Linhas Aéreas após se recusar a despachar uma mala com seu notebook. O caso aconteceu no dia 28 de abril no Aeroporto Internacional de Salvador. No último sábado (6), aconteceu o Rolezinho das Caras Pretas no Aeroporto, em protesto.

Samantha se juntou à uma longa lista de passageiros negros que são vítimas de racismo em aeroportos ou aviões. Só na GOL, é possível citar o caso da haitiana Elunise Clervil, que morreu dentro de uma aeronave da companhia após passar mal. Ela estava grávida de sete meses, mas, segundo passageiros, foi confundida como “mula” do tráfico de drogas.

Não é o primeiro caso de racismo que a acontece na Gol. A empresa tem um extenso histórico de denúncias – Imagem: Will Recarey

Cristiane dos Santos, estudante de Serviço Social, coordenadora da Associação de Mulheres Koxerê e integrante da Rede de Mulheres Negras da Bahia foi outra vítima da companhia. Em maio de 2022, ao tentar embarcar em sua primeira viagem de avião no Aeroporto de Salvador, ela foi impedida sob o argumento de que seria necessário informar os três últimos dígitos do cartão, pois o check-in estava bloqueado. Esse mesmo procedimento não foi solicitado para os demais passageiros.

Cristiane conseguiu embarcar em um novo voo, depois que a Defensoria Pública do Estado enviou uma advogada. No entanto, a organização responsável pela formação de Cristiane precisou cobrir os custos da nova passagem, e a ativista não recebeu retratação. A estudante registrou um Boletim de Ocorrência em dezembro do ano passado, para denunciar funcionários da Gol por racismo institucional. O B.O. só foi registrado sete meses depois porque na primeira tentativa o delegado se recusou a registrar.

Recentemente a cantora Rachel Reis publicou em suas redes sociais, uma foto do seu certificado de single de ouro quebrado após ser despachado também pela Gol.

A Gol Linhas Aéreas se pronunciou via nota oficial sobre o caso Samantha negando que houve racismo. Tentamos contato com a companhia através de email informado no site da empresa e demais canais, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta matéria.

Equipamentos eletrônicos não devem ser despachados

Todos os dias diversos passageiros se recusam a despachar as malas. Mas, de acordo com técnicas de voo ouvidas pela Afirmativa, no caso de Samantha, não seria correto despachar.

“Mochila com laptop ou celular não pode ser despachada. Porque artigos assim têm bateria de lítio e se houver um esmagamento dessa bateria ele pega fogo. Ela não colocou o voo em risco justamente por não ter despachado”, explica Kênia Aquino, de 37 anos, e comissária de voo há 15. Ela é uma das fundadoras do Quilombo Aéreo, instituição que visa trazer visibilidade aos tripulantes negras (os) da Aviação Civil Brasileira.

Outra observação da comissária diz respeito à decisão de acionar a Polícia Federal. Isso porque, no mesmo voo, de acordo com a testemunha que gravou o vídeo de Samantha, havia uma mulher branca com três bagagens de mão à bordo, e esta não foi questionada.

“Para tirar o passageiro de dentro do voo com a Polícia Federal ele tem de ser um passageiro indisciplinado no mínimo nível médio”. Os três níveis são: o que discute com o comissário, mas se acomoda em seu assento; o que discute e agride física ou verbalmente; e o que coloca todo o voo em risco. Apenas nos dois últimos se deve acionar a PF. “Ela não colocou o voo em risco. A Gol alega que sim. Vai ter que provar.”

Laiara Amorim, de 34 anos, também é comissária de bordo, desde 2012, e co-fundadora do Quilombo Aéreo. Ela chama atenção para outro elemento na abordagem à Samantha: ela não foi informada do motivo do seu desembarque. “Algumas companhias têm até a leitura de um cartão para avisar o passageiro. É obrigatório.”

Kênia Aquino e Laiara Borges são fundadoras do Quilombo Aéreo, instituição que visa trazer visibilidade aos tripulantes negras (os) da Aviação Civil Brasileira – Imagem: Joca

Todos os elementos não deixam dúvidas para as profissionais de que se trata de um caso de racismo. “Não tentem dizer pra gente como é o procedimento da aviação e nem como é o racismo. Porque são duas coisas que nós somos especialistas”, declara Kênia.

“Pra gente, o caso da Samantha não foi nenhum espanto. Isso que é triste. Porque a gente vê isso cotidianamente”, acrescenta Laiara.

Por que aeroportos são ambientes racistas?

Embora Laiara seja de Belo Horizonte (MG), Kênia de Porto Alegre (RS), e ambas de companhias aérea diferentes, não foi difícil se encontrarem.

Uma pesquisa do Quilombo Aéreo em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mostrou que não há mulheres negras trabalhando como piloto em companhias aéreas nacionais. Mais de 97% das vagas são ocupadas por homens, sendo que apenas 2% são negros. Quanto aos comissários de bordo, apenas cerca de 5% são pessoas negras.

“Para branquitude é muito simples, só precisa ser branco de olho azul e ter o curso. Quando ingressei, eu não tinha o corpo e o cabelo que eu tenho hoje. Em 2008 não podíamos voar com o cabelo afro. Nenhuma companhia aérea do Brasil tinha manual de apresentação pessoal com cabelo afro antes de 2020”, destaca Kênia. A comissária inclusive já precisou se afastar por questões médicas e de saúde mental, em decorrência do racismo.

“As pessoas não fazem ideia da violência estética que a gente sofre. Eu já tive paralisia facial por alisar cabelo porque a companhia que eu trabalhava anteriormente impôs isso”, desabafa Laiara que, apesar das estatísticas, está há alguns anos estudando para ser piloto.

De acordo com a mineira, a aviação vem de um tempo e de um glamour muito ligado ao militarismo, “concebido no país por uma hegemonia branca”. Assim aconteceu com a aviação civil, onde, afirma, são muito comuns as relações familiares entre profissionais.

“É muito difícil encontrar na aviação negros sem ações afirmativas. É uma formação extremamente cara. Ao passo que numa rodoviária, é inversamente proporcional. Como a gente se transporta no mundo também é determinado pelo racismo”, pondera.

Voar é inacessível para pessoas negras?                

Apesar do custo para viajar de avião ser uma barreira, Kênia e Laiara tentam desmistificar que esse seja o principal motivo para os aeroportos e aviões não serem ambientes habituados com a presença de pessoas negras.

“Falta pertencimento. Muitas vezes o preço da passagem de avião é o mesmo da de ônibus em alguns lugares. Mas, as pessoas não se sentem pertencentes nesse espaço. Não se sentem seguras de utilizar esse meio de transporte. Se eu passar no raio X sem uniforme de trabalho é certo que eu vou ser barrada”,  aponta Laiara.

“A questão do poder aquisitivo até bate, mas o não pertencimento vem antes. Quando o preto nem olha no site quanto custa a passagem de avião”, completa Kênia.

Cristiane tem a mesma percepção. “Isso acontece por não conseguirmos nos enxergar. Só mesmo nos serviços gerais, lanchonetes.”

“A pessoa negra brasileira em um aeroporto está em risco”

O caso de Samantha está sendo investigado, e teve ampla repercussão nacional. Mas, não é sempre que isso acontece. Para Cristiane, não basta ir nas redes sociais pedir desculpas.

“A lição tem que ser através de financiamento das coletivas de mulheres, das ONGs, e a vítima tem que ser indenizada. Tem que ter formação antirracista pra Gol. Também é preciso movimentar os deputados e deputadas pra entrar no diálogo”, avalia.

Enquanto isso, o Quilombo Aéreo também têm desenvolvido estratégias. Como o projeto Pretos que Voam, para trazer mais pessoas negras para o setor da aviação. Mas não só, a organização também já vem tentando há algum tempo articular consultorias de inclusão racial em algumas companhias aéreas, mas sem sucesso.

“Enquanto aviação civil brasileira, sua estrutura e a regulamentação não olhar seriamente para o racismo estrutural, a segurança da pessoa negra brasileira no aeroporto está em risco. Desde o pórtico de entrada, do raio X, da vigilância”, aponta Kênia.

Formatura da turma dos “Pretos que Voam” – Imagem: André Ávila

O Quilombo Aéreo atua ainda no campo de pesquisa, dados, fundamentação, e mostra que há um apagamento inclusive de pessoas negras com feitos importantes para a aviação. A comissária também cunhou o termo despressurização racial, em uma analogia à uma das emergências que podem acontecer durante um voo. “Em caso de despressurização racial, máscaras antirracistas cairão automaticamente. Um exemplo é o sindicato. Não nos apoiou, mas no caso Samanta falaram de nós. Isso é despressurização racial. É querer justificar o seu racismo através de pessoas negras que você não apoia”.

Além disso, entre os comissários formados pela organização, sete estão contratados. “Porém não é suficiente. Tem que ser estrutural, ter políticas sérias. Se for só representatividade por representatividade não resolve”, pontua Kênia.