O caso está longe de ser isolado, são diversos os relatos de racismo em diferentes aeroportos e de diferentes maneiras, muitas dessas denunciadas no ano passado

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução Redes Sociais

A campeã do BBB18 e influenciadora digital, Gleici Damasceno, denunciou na manhã da última sexta-feira (24) um caso de racismo que enfrentou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo (SP).

Em seu perfil no Instagram, Gleici contou que estava voltando dos Estados Unidos quando, durante a abordagem protocolar da Receita Federal, foi questionada pela funcionária como ela tinha “condições de viajar duas vezes no ano”, pois era algo “caro”.

Gleici reagiu afirmando que a funcionária estava fazendo um comentário racista. De acordo com a influenciadora, a funcionária respondeu que quem estava sendo racista era ela mesma, ameaçou autuar a ex-BBB e a mandou ficar sentada e calada. 

“Hoje foi um dia que eu me senti muito vulnerável, invadida. […] É protocolo normal, eu parei pra Receita Federal, eu não ligo de parar, se quiser ver minhas coisas podem ver, mas o que eu fiquei muito indignada hoje foi o tipo da abordagem”, desabafou chorando.

“Eu fiquei muito nervosa porque nunca passei por uma situação dessas”, continuou. “[…] Ela começou a fuçar minhas coisas, me mandou calar a boca, falou por várias vezes que ia me autuar [..]. Eu sei que se eu fosse uma pessoa branca esse tipo de comentário não teria sido feito.”

De acordo com o Secretário da Receita, Robinson Barreirinhas em sua conta no Twitter, a Receita Federal em São Paulo e a Ouvidoria nacional já estão cientes do caso, apurando e já tomaram as primeiras providências.

Aeroportos como cenário de hostilidade

Não é a primeira vez que um aeroporto é cenário de hostilidade e preconceito. Só em 2022, acompanhamos diversos casos de maior repercussão.

Em maio, a presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Keila Simpson, foi detida no aeroporto da Cidade do México, no México. Keila, que se identifica como travesti, foi impedida de entrar no país por não ter os documentos retificados de acordo com sua identidade de gênero.

Keila Simpson – Imagem: Reprodução youtube

Já em setembro, a influenciadora e apresentadora Ana Paula Xongani usou suas redes sociais para relatar ter sido vítima de racismo em um aeroporto em Portugal. Em um post no Instagram, relatou que no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, foi encaminhada, junto de outros seis brasileiros, todos negros, para uma salinha, onde ficou por sete horas.

“Uma mulher, brasileira, preta e casada não coincide com a história que eles esperam. Eles não contavam que essa mesma pessoa podia ter pago sua própria viagem, possuía dinheiro, decidiu viajar sem marido e filha, estadia e, principalmente, liberdade pra viver uma viagem de férias!”, desabafou.

Ana Paula Xongani – Imagem: Reprodução Instagram

No mesmo mês, a ex-BBB e influenciadora Camilla de Lucas também denunciou um episódio de racismo que sofreu durante um voo dos Estados Unidos para o Brasil. Camilla estava viajando na classe executiva, e após o embarque, uma funcionária da companhia aérea Copa Airlines duvidou de que ela estivesse no lugar certo.

“Voo de executiva para o Brasil, e a segurança entra no meu voo e pergunta se aquele é meu lugar. Respondi que sim, então ela pediu que eu mostrasse o bilhete. 14 lugares, só eu precisei comprovar”, escreveu no Twitter.

Camilla de Lucas – Imagem: Reprodução Redes Sociais

“Teste do pescoço”

O imaginário construído a respeito do “perfil” aceito fazendo viagens internacionais, e ainda, mais de uma vez ao ano, já foi reforçado pelo próprio ministro da Economia da última gestão federal, Paulo Guedes, ao criticar os tempos de dólar baixo no país, em fevereiro de 2020: “Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada. Mas pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste.”

No Brasil, nenhum órgão ligado ao turismo ou agências de viagem consegue precisar ou estimar dados sobre a porcentagem de pessoas negras embarcando em voos em comparação a pessoas brancas. Mas a frequência no número de casos de racismo nesses espaços, só indica que essa porcentagem está crescendo. Enquanto não temos dados, o conhecido teste do pescoço, quando giramos nosso pescoço para observar a diversidade racial – ou não – em determinados espaços, ainda pode ser eficiente.