Por Selva*

No início do mês de maio foi lançada a propaganda do Enem 2020. Nela, quatro jovens aparecem em seus quartos gravando uma mensagem a favor da edição do Exame Nacional do Ensino Médio, a prova mais importante no país para o ingresso de jovens no ensino superior. É a partir dele que muitos jovens conseguem a oportunidade de ingressar em universidades públicas e particulares. Já é sabido por nós, que o número de jovens e adultos periféricos que ingressam nas faculdades através da nota do Enem cresce a cada ano, e que com a paralisação das escolas e cursinhos voluntários, muitos adolescentes que se preparavam para a prova deste ano estão desamparados. Mas vamos lá, a quem interessa o despreparo desses jovens?

Na Universidade de São Paulo, por exemplo, em 2019 o número de calouros vindos de escolas da rede pública de ensino chegava a 40% segundo a pró-reitoria de graduação da USP. Praticamente o dobro em 2012. Existem escolas particulares que tem o foco em provas  como Fundação Universitária para o Vestibular (FUVEST) ou Enem, e lá os alunos recebem uma preparação desde o primeiro ano do ensino médio para que possam se sair bem na prova.

Enquanto nas escolas públicas, é comum ver aula vaga, professores desestruturados pela diretoria que por sua vez está desestruturada pela prefeitura ou estado e os alunos de uma forma geral não são nem incentivados a participar de vestibulares. A maioria já trabalha e não vê necessidade de cursar uma graduação, outros sonham com uma universidade, mas falta acesso e recursos para esse preparo.

O número de jovens periféricos empregados formalmente chega em 21,6% e o número de jovens (negros e periféricos) que se encontram subocupados, isto é, em empregos informais ou com menos de 40 horas semanais, já alcança 59,6%. Enquanto entre os jovens brancos e não periféricos esses números são respectivamente -4,2% e 6,6%.

Esses jovens periféricos estão lidando com dificuldades sociais enquanto os de classe média estão se preparando para a faculdade e durante o curso eles não terão outra preocupação a não ser os estudos. São famílias estruturadas formadas por pais advogados, médicos, empresários ou num ramo que proporcione dinheiro suficiente para sustentar a família e o estudo dos filhos sem que esse precise trabalhar para suprir alguma necessidade.

A pandemia foi e está sendo a chance que a classe média alta precisava para inserir seus jovens nas universidades mantendo o ciclo da desigualdade e sem se preocupar com os jovens periféricos que, uma vez aliados com recursos digitais de escolas, bibliotecas, polos culturais, ou cursinhos voluntários estariam pau a pau na disputa por uma vaga.

Pelas redes sociais, vídeos de resposta à propaganda do Enem viralizam , e jovens postam em suas paginas de Facebook, Instagram e Twitter, fotos com a hashtag #AdiaOEnem.

Ainda com muita resistência, em reunião com os parlamentares no dia 14 de maio,  o ministro da educação Abraham Weintraub afirma que não haverá cancelamento no Enem, justificando que a orientação do é para manter o calendário de atividades sem nenhuma alteração, e  a menos que o Ministério da Saúde determine que por questões sanitárias a prova deve ser adiada, ela deverá ser aplicada no máximo em dezembro.

A decisão gerou repercussão entre os deputados que se organizaram para votar a favor do cancelamento no dia de hoje, porém o presidente da câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) convenceu os deputados a aguardarem a finalização da reunião para então se posicionarem. A previsão é de que até a próxima semana já se tenha uma reunião direcionada a esse assunto a fim de resolver essa questão.

 

*Selva é atriz, escritora, violonista e arte-educadora partindo sempre da perspectiva da mulher enquanto gênero, mulher preta enquanto gênero e raça, e mulher preta periférica enquanto gênero raça e classe. Usando as palavras para absorver e compartilhar conhecimento na zona leste de São Paulo